sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Bach e o filme de um homem calvo
Li as tuas palavras antigas
E caíram-me bem como o som de Bach
Num carrilhão de cinquenta sinos;
Um filme francês, há dias -
Mas não interrogues as estrelas
Conto-te, sem pressas, uma história pequena:
Um homem calvo
Queria rumar ao sul e encontrar praias azuis.
Usaria um método infalível -
Falhou o plano, em vez do Sol, o frio do Norte
Uma vila pequena, gente de aldeia, um susto grande
Restava a conformidade obrigada, a penitência
E o degredo, num lugar selvagem, primário
Até o reaprender da linguagem -
Mas a música grande nas almas que julgava pequenas
Fizeram crescer mãos e braços sobre o homem calvo
Uma concha de afectos, e o mundo mudou -
O Norte não era tão frio que congelasse os pés
Nem tão empedernido que estalasse a alma
E enquanto na alta torre da igreja medieval
O cobre dos sinos discursava
O homem calvo largou a mensagem
Na janela mais alta, estreita e longínqua
em serenata à lua, e em inverso
de cima para baixo a uma mulher na rua
de olhos brilhantes e mãos lancinantes, impacientes -
Tudo contrariou a previsão do início
Completando assim o sentido primeiro do poema:
O bem que fizeram as palavras antigas e a melodia;
O som de Bach -
Que segundo consta nas pinturas das fotografias
Não era calvo e usava caracóis grandes
Por companhia -
José Ferreira 2 Setembro 2011
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Fragmentos XI - um pequeno ponto no nariz
Renoir 1876
ALTERAÇÃO. Aparecimento breve no campo do amor,
de uma contra imagem do objecto amado. Devido a
ínfimos acidentes ou leves traços, o sujeito vê a boa
Imagem subitamente alterar-se e transformar-se.
Seria o outro assim vulgar, ele, a quem eu devotadamente incensava a elegância e a originalidade? Ei-lo a fazer um gesto que descobre nele uma outra raça. Estou aturdido:oiço um contra-ritmo: qualquer coisa semelhante a uma síncope na bela frase do ser amado, o ruído de um rasgão no envelope liso da Imagem.
....................
Uma vez, falando de nós, disse-me o outro: "uma relação de qualidade"; esta palavra desagradou-me. Surgia repentinamente do exterior, vulgarizando a especialidade da relação numa fórmula conformista.
É muitas vezes pela linguagem que o outro se altera; diz uma palavra diferente e oiço sussurrar ameaçadoramente todo um outro mundo, que é o mundo do outro.
....................
...vejo-o, durante a conversa, agitar-se, multiplicar-se,querer fazer muito, dar-se ares de grande interesse aos olhos de um terceiro, como se estivesse tentado a seduzi-lo. Reparai bem em tal reunião: vereis este sujeito louco(discretamente,mundanamente)por esse outro, decidido a com ele estabelecer uma relação mais calorosa, mais interessada, mais aduladora: surpreendo o outro, por assim dizer, em flagrante delito de inflação de si próprio.
....................
O discurso do amor é, normalmente, um envelope liso colado à Imagem, uma luva macia que rodeia o ser amado.// Quando a imagem se altera dilacera-se o envelope da devoção; um tremor modifica a minha própria linguagem.
Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1981
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
fugir, fugir ainda
Edward Hopper
e depois a multidão
as vozes altas e a dificuldade de olhar o céu,
desviar os olhos, impossível, olhar em frente,
muitos, os pés afundam -
fugir, fugir ainda
para um campo de macieiras, o pomar crescido,
os frutos; golden, bravo, starking, gala, fuji;
as diversas qualidades -
e depois a multidão
a festa, as mesas, os fatos, os vestidos de cetim,
véus, lenços largos, os aromas, a maquilhagem,
o pormenor dos lábios, vermelhos ou suaves,
as pálpebras decoradas de brilhantes -
fugir, fugir ainda
para a sombra dos pinheiros,
as menos dolorosas agulhas, rodopiando,
sem picos nem mossas de palavras vãs e sem graça -
as memórias dos outros cansam quando temos a alma pesada;
a ausência e a falha sísmica, uma antena partida nas ondas da rádio,
ruído, ruído, ruído; faltas-me -
cansado, do colarinho branco, apertado, sem concha
sem pérola -
fugir, fugir ainda
para a margem fluida, o correr do rio;
voando nas águas lisas
em direcção ao não limite, o caminho inseguro,
a foz distante -
e depois a multidão
como serpente e flauta, pêndulo,
relógio e tempo, música de domingo, fogo de artificio
relâmpagos humanizados, canas caídas, gritos, tão bonito, dizem -
fugir, fugir ainda
mesmo que a selva ou a floresta, os lobos,
um exército de Hunos, todos os perigos -
faltas-me
princesa de infinitos;
risco, desordem, possibilidade, segredo,
essência, semente -
e os teus dedos num quadro de infância
apagando a nuvem branca
os erros de giz -
josé ferreira 31 de Agosto 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Aniversário - um poema de Ana Luísa Amaral
Salvador Dali
Sentei-me com um copo em restos de
champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
tive trinta em casa.
Será comovedor os quatro anos
e a festa colorida,
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.
Serão comovedores os sumos de
laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,
os pés inchados.
Será soberbamente comovente
toda a gente cantando,
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.
ANA LUÍSA AMARAL
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Segredo
Paul Delvaux
Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração
Fernando Pinto do Amaral
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
a chegada dos pescadores
Salvador Dali
o levantar tão descalço dos pés
na janela sobre as águas do mediterrâneo;
um mar de terras, de continentes, de algumas ilhas -
a madeira embebida liberta olhos de tinta
e guarda a memória das redes nos braços maduros
no olhar escuro das camisas largas, nas calças de gola alta
junto à cabeça dos pés, perto dos dedos de sal -
Júlia observa calma essas fadigas longas, esses rostos gastos
essas mãos grossas e morenas que se agarram ao cais.
Júlia observa calma o prateado dos peixes distraídos
inalando à distância um odor de escamas
característico e reflectido pelos raios de sol-
enquanto no fogão, o vapor de uma sopa grande
e na mesa tosca, as malgas de esmalte quebrado
os copos de vinho e os nacos de uma broa
aos bocados -
o António Maria e o Julinho estão de volta
está na hora da fome, a hora do descanso
a hora igual de todos os dias da semana
salvo o domingo
quando vestem um fato de riscas coçado
sapatos largos como barcos
e chapéus de abas negras até à entrada da igreja
antes da água benta -
a Júlia tem marcas nos cotovelos de tantas horas paradas
e tremem-lhe sempre os seios enquanto não chegam a casa -
ao domingo veste um vestido de chita e pinta os lábios
e quando chega a noite António toca-lhe devagarinho
e ao longe as estrelas -
José Ferreira 26 Agosto 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
um poema de Ana Hatherly
Salvador Dali 1925
Penso em ti
tranquilamente
como deitarmo-nos no chão
debaixo de uma grande árvore e olharmos
a sua copa em leque
a sua ramagem ondulando lenta
como o ventre de um animal adormecido
Até que os nossos olhos se esvaziam
e a luz da lua
entra e percorre tudo
sem reflectir coisa alguma
Ana Hatherly , Poesia em Lisboa 1997, ed. Casa Fernando Pessoa
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
as palavras de ira
Henri Matisse
a intensidade do mercúrio é muito do que sinto
e quando me magoas com palavras de silvas
fecho os ouvidos, e mantenho os lábios abertos
no consentimento de que, palavras de ira leva-as o vento -
habituei-me ao pensamento na face de cima das asas.
a terra é um pó escuro, demasiado, desequilibra
cega, torna-nos pouco. fecho os ouvidos, não ouço -
afecto é o que sinto, e os braços crescem
e apertam muito -
no domingo fui ao horto da avenida
e perdi-me - e é curioso que as plantas não falam
mas ensinam, inclinam as folhas e abrem as pétalas;
o seu modo de dizer que existem.
e lembro-me bem das hortênsias
que conforme o predominante ácido
perdem o tom rosa e adquirem o azul
mas a culpa é da seiva, indevida ou invadida
conforme a cor que se queira -
a culpa é sempre estranha, de um excesso de sol
ou porque a lua literalmente branca e um pouco fria -
das palavras que magoam, não escutei nenhuma,fecho os ouvidos,
nem uma tem a força da cicuta, bomba de obus ou mina;
no amor como na guerra só a verdade interessa e brilha -
afecto é o que sinto, e os braços crescem
e apertam muito -
José Ferreira 24 Agosto 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
às vezes tudo é tão simples
estrela cintilante, guardo-te dentro de mim.
és a flor de lótus, a meditação intensa,
a brisa no castelo dos medos, enquanto
o polegar e o indicador sobre os joelhos
e os olhos, em fogo, acesos -
por vezes perdes-me na floresta; o cesto,
a fruta, os bolos de amêndoa -
por vezes não encontro o caminho;
os braços caídos, as dúvidas, os silêncios sem sentido -
por vezes o nevoeiro, o fumo, os dias como chumbo -
os filmes, os livros, as fotografias, são fragmentos,
discursos que surgem por acaso
mas depois fazem parte, falam, criam uma âncora nas linhas -
os braços, a cabeça, entram dentro da cena
agarram os ombros da estrela, apropriam-se da nuca
e selam os lábios no veludo da testa;
em transferência, transigentes, puros, agradecidos -
(nem todos os poemas têm que ter flechas
ser masculinos, duros em demasia, no desafio de muitos labirintos)
ás vezes tudo é tão simples -
e continuamos como tolos, sem bússola,
nos pólos ou no centro do mundo,
permitindo os toros da floresta, os lobos, o frio -
estrela cintilante, afasta o cabelo com cuidado
e abre o sorriso, sê naïf, os braços grandes de navio
o carvão nos mecanismos, o oceano
e o desejo sem ser ilha -
José Ferreira 21 Agosto 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
um poema de António Ramos Rosa
Henri Matisse 1917
Este poema para ti é decerto uma surpresa ou talvez a melodia
que vem de tão longe e de tão perto
porque vem de ti do delicado tumulto das tuas vibrações
que são como espirais instantâneas que parecem ir dispersar-se
mas mantêm a delicadeza límpida das suas linhas.
Elas são a relação que se inebria na vertigem dos limites
e te oferecem o mundo como o campo da tua identidade aberta.
Tu és um corpo de meandros em que um sangue solar flui
e como danças dentro de ti as tuas linhas são evidências
imprevisíveis e nunca te deixas fechar mais do que um segundo
porque logo te abres como um leque de cores vibrantes que reúne
e dispersa porque é a relação do universo com a harmonia dinâmica
da variedade elementar que é a matéria da unidade universal.
Se tu te transcendes em cada movimento
é porque tu ascendes constantemente como se a tua coluna fosse
o vento vertical como um enxame de pássaros vertiginosos.
Se tu és quem és é porque a luz no teu corpo voa e vibra
e o teu olhar respira a transparência de um jardim
e a tua boca pronuncia as palavras que são chamas de vento
e são chamas do mar
mas também têm o peso das pedras intactas.
António Ramos Rosa
domingo, 21 de agosto de 2011
a insubstituível
pediu um cigarro e encerrou uma ausência.
o fumo acre impulsionado pelo reaprender da língua tocou o céu da boca.
amargo. amargo. não podia cegar de novo. o refúgio da nicotina;
o redondo do filtro na volta dos dedos, o ajeitar consequente no tampo da mesa,
o movimento entre os cantos dos lábios conduzido pela ardência dos dentes.
lembrou Humphrey in Casablanca e Gainsborough junto de Brigitte,
preferia o último, a canção proibida, tão antiga;
um slow numa cave escondida, a memória inflamada dos sentidos -
o cigarro parou incompleto, não atingiu o fim.
o fumo espaçava, subia,
perdia-se, incompreensível.
os olhos tornaram-se fixos
e o cigarro não tinha qualquer importância,
afundou-se num caixote de lixo -
o chapéu, o guarda-chuva, a gabardine.
a gare nublada, um silvo agudo, a locomotiva.
as malas silenciosas no banco escuro.
um rosto na parede branca
insubstituível-
a noite adquiriu contornos de veludo.
sentar-se-iam no café Majestic
falariam de novo sobre os poemas e alguns livros
sobre os gatos siameses, tão ariscos
os pretos, de olhos verdes,
os brancos, de olhos azuis, os preferidos -
um aroma de incenso percorria o quarto
quando pousaram as malas.
o reassumir da lua era possível -
José Ferreira 20 agosto 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
Coisas de luz antigas - um poema de Ana Luísa Amaral
Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos
Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão
Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:
um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão;
no mesmo corredor)
Ana Luísa Amaral Poesia Reunida 1990-2005 Quasi, 2005
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
a barcarola ou à procura de um poema
procurei em todos os 366 poemas aquele que melhor
definisse hoje o amor, palavra difícil.
o amor em si representa uma forma insegura uma dualidade incerta
as duas faces da moeda -
lembro-me do soneto quarenta e quatro de Neruda:
A palavra é uma asa de silêncio,
E o fogo tem a sua metade de frio. compreendes.
o dia decorreu límpido, molhei os pés no mar.
coloquei um pouco de água nos lábios.
secaram ínfimos sinais de sal por sobre a pele
e recordei Cesário:
Eu que sou feio, sólido, leal,
A ti que és bela, frágil, assustada,…
quantas vezes te disse: não tenhas medo.
de calções verdes demorei-me junto às rochas
enquanto nos cabelos curtos por trás dos ouvidos
uma barcarola entoava a melodia, amolecia a alma
mas de uma forma boa, como um embalo
e os versos de Vinicius:
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
a diversidade, o condimento, as brasas acesas.
no fim do dia o minimercado e o voltar a casa
a salada de alface, algumas notícias, a crise
um atentado para os lados do Egipto.
não fixo nada de bonito, frases feitas, falta de poesia.
será que há algum poema perfeito sobre o amor?
aquele que possa colocar numa bandeja
em papel beige perfumado e em letras de caligrafia
de cantos queimados, forma ingénua e decorativa?
um poema ideal, completo e que te ilumine o rosto?
são duas da madrugada. porfio na procura
mas há sempre algo a mais e algo a menos
nas palavras dos outros, procuro também as minhas.
ocorre-me de novo Pablo e o mesmo soneto:
…amo-te para começar a amar-te
Para recomeçar o infinito…
versos que tudo definem
o permanente recomeço, a surpresa,
o início que pode ser pequeno mas a que sempre se deve
acrescentar outro tanto, e mais ainda, tornando-o grande
cintilante, brilho e mais brilho …
concluo que o amor é uma palavra exigente
multifilamento como uma cor única e branca
escrita no arco-íris, construída de tantas -
encontro de novo Vinicius:
Amo-te tanto, meu amor…
E de te amar assim muito e amíude
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.
a hipérbole, o Amor Total
uma ponte simbólica e magnífica -
desculpa-me. não encontrei ainda o mais completo. mas vislumbro caminhos -
e como num poema A súplica a Eros:
A minha vida está suspensa.
O tempo arde.
A noite é imensa.
Conto os minutos pelo espelho.
José Ferreira 19 Agosto 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
não mudes nada
escrevo-te sobre o que escrevo.
não te assustes com a cor das letras.
há muitos anos só usava o azul e aderi inconscientemente
às calças de ganga, às riscas largas junto à praia.
as ondas dos segredos nas baías escondidas da Foz
aproximaram as mãos -
tudo mudou. o tempo fixa só aromas, a cor despida das algas
e já não falamos do que era bom;
um carioca de limão, nada de álcool e o gás na água
a rodela e o mar, na frente o horizonte descaindo
escondendo lentamente o dia -
e como era triste o fim do crepúsculo
o afastamento do pulso, o cessar do batimento cardíaco
e os lábios sem palavras, juntos -
escrevo-te sobre o que escrevo
hoje na tarde que se elimina.
uma cerveja fresca sobre a mesa, uma água vulgar nem sequer fria
e na frente a morada do sal e o sol quente
que alimenta a cor morena.
uma brisa sopra e invade as aberturas do chapéu de Florença.
abunda uma maquilhagem como disfarce
e há a necessidade de pintar as unhas com um traço branco
nunca de vermelho.
tantos anos e no entanto sou o mesmo
agora na melancolia do silêncio -
escrevo-te sobre o que escrevo
na esplanada, mesmo por cima da areia. as tábuas rangem
como um riso que se escapa, que passa e volta.
rostos e passos atrás das costas.
e o desejo de numa fracção extraordinária do imparável tempo
ser uma rocha rodeada de água, ar, sol e vento. não demora.
apenas um momento. a necessidade de ser sólido
sem a cor transcendente da emoção, do sentimento.
escrevo-te sobre o que escrevo
em Agosto. é verão, dizem. alguém um dia.
nada tem a ver com a natureza. uma maneira de dizer.
e em frente, mesmo em frente, junto à água, uma família.
a mãe de cabelo vermelho, comprido, ondulante.
a criança ao colo, dois anos, nos braços redondos
carrega a ingenuidade e um ligeiro choro de inocência.
atrás alguma turista na língua de Shakespeare. as tábuas rangem.
ao lado, a rapariga adolescente esquece os pais, não olha o mar
envia mensagens, as pupilas acendem, as palavras ardem
as mãos viajam rápidas, por sobre as teclas.
não há música -
no bordo do copo, laivos de espuma, seca seca.
o vidro limpo e transparente é uma miragem.
a luz é forte. o sol aquece as pernas. as lentes dos óculos escurecem.
alguém passa. a língua de Céline. sinto saudades de Paris;
as escadas junto ao rio, as pontes que levam à ilha.
escrevo-te sobre o que escrevo
sem o peso da culpa nas letras. a praia esvazia-se.
indiferentes, as ondas labutam a rotina e disputam a areia;
um pouco mais atrás, um pouco mais à frente, sucessivas
assim como as linhas desta carta, indetermináveis como o destino
apenas com a ordem de partida, e depois param ou avançam
aparecem escritas -
uma marca na página 54, alguém fecha o livro, de prosa
não de poesia
e dois pardais pequenos saltitam entre as aberturas das mesas.
procuram a possível migalha. nunca escreveram um poema -
escrevo-te sobre o que escrevo e sobre algumas coisas antigas.
o imutável. não mudes nada. Ne changes rien! e mesmo que quisesses era impossível. digo-te!
escreve se te apetece, ou não escrevas, mas sobrevive.
faz como o poeta, guardador de recantos e esquinas
que dentro do corpo falam e se afirmam
impondo a força das linhas, o correr das águas
em regatos, em rios
e por vezes em sossego, quase adormecido
em lagos límpidos -
e depois há os morangos e as veredas e os caminhos
e o céu, quase me esquecia
sabes, o céu à noite
é um banquete de estrelas -
José Ferreira 18 Agosto 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Ao volante de um Chevrolet pela estrada de Sintra
José Malhoa "Praia das maçãs" (Sintra) 1918
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…
Maleável aos meus movimentos subconscientes no volante,
Galga sob mim comigo, o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo
sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
Álvaro de Campos 11 - 5 - 1928
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
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