terça-feira, 16 de agosto de 2011

sobre a dúvida às duas da madrugada


Renée Magritte 1961

as duas da madrugada corriam céleres. era sábado.
a mente absorta permanecia absolutamente imaculada.
cataratas lançavam multidões de brancos.
as curvas das margens reflectiam musgos
e recebiam águas -

as palavras sibilinas circularam como pedras
pedras grossas
pedras grossas de lágrimas.

ponderou esquecer os dedos
que seguravam com ternura as letras.
esquecer a textura branca das folhas incompletas
que revestia amiúde de tulipas gladíolos e versos.
ponderou fechar cortinas e janelas
apagar a lua e as estrelas. não pensou nos outros.
porque a dor lhe quebrava a testa e iludia os sonhos
como se fossem teias de aranha, frágeis, leves
facilmente ultrapassáveis pelo vento vasto e agreste
enviado na fúria dos ares
no sopro do equívoco
inclinando ramos destruindo raízes;
os lírios da intimidade.

a inverdade pesa como um bloco de cimento aramado
a gaiola do peito segura a pele rasgada
segura os olhos dentro de um muro escuro
na memória dos recantos
esse voo seguro de palavras como águias.

a inverdade mata, realmente cria a espada
e contrariando o magnânimo poeta*
no fio da lâmina corta o fogo
cria o foco da desistência
grita, é falso! -

essas palavras sibilinas eram magoadas e húmidas
mas eram fruto do que importa, células de densidade
espinhos sobre o ninho que se torna frio
como as aves que rumam ao sul
mas voltam -

as palavras sibilinas eram a subjectividade de passos
sobre a dualidade incompreensível que atrapalha
as duas faces da moeda pálida
as dúvidas sobre um mar de palha.

as palavras sibilinas eram fruto da inexistência de pele e chão
um regaço de rosas
um milagre de mãos -

disse: - porque não páras? porque não olhas de olhos abertos?
porque não escutas o azul reflectido
como uma seda impossível de ser ambígua?
observa a verdade nas faces rubras dos espelhos naturais
segue a voz dos violinos das concertinas
Tiersen e Paganini -

sabia que tudo não passava de uma afirmação cíclica
mas injusta e dessa forma sibilina
mas não havia perigo
mesmo que a escala de Richter atinjisse os pólos elevados
a canção segura seguiria como um som longínquo de búzios
que chega e que se afasta que chega e que se afasta
sem desistir sem desistir nunca
da luz do sossego
nos ruídos do mar -


José Ferreira 16 Agosto 2011

*Herberto Helder e o título do seu livro "A faca não corta o fogo"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

o poema 236


Scarlet Johansson

CONVIDA-ME SÓ PARA JANTAR

E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar


Ana Goês in 366 poemas que falam de amor , Quetzal Editores, 2004

sábado, 13 de agosto de 2011

A morte o amor a vida - um poema de Paul Éluard


Man Ray

Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue


Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula


Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo


Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos



Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre


Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

Paul Eluard,"Algumas das Palavras",(trad. António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge) Dom Quixote 1977

Desculpa-me a ternura - um poema de Ana Luísa Amaral


Cindy Sherman


Enternece-me pensar que estás aí,
não força de trabalho desigual
nem vida à pressa,
mas minha amiga.

Talvez as palavras que te digo
me transpareçam classe,
talvez nem te devesse dizer nada.
Porque és a mão que ampara o meu silêncio,
a minha filha, o meu cansaço
— à custa do teu cansaço, da tua filha,
do teu silêncio.

Não há homens-a-dias neste mundo,
mas tantas como tu,
a segurar nas mãos e no sorriso
algumas como eu.

Entraste há pouco a perguntar
se eu tinha febre
— a louça por lavar nas tuas mãos,
aspirando o cansaço dos meus ombros,
nos teus ombros o cansaço de mim
e o cansaço de ti.


Desculpa os meus silêncios,
o falar-me contigo como com mais ninguém,
desculpa o tom sem pressa
— e o meu dinheiro que não chega a nada,
comprando o teu trabalho
(o teu sorriso)

ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso, (2ª edição), Quetzal Editores, Lisboa, 1998: 72, 73

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

(é uma dedicatória) - um poema de Herberto Helder


Salvador Dali


Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
- Em teu próprio torvelhinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ígnea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotogáfricas
imprimem a sensível trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têm pera enxuta - queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. És alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.

Herberto Helder Photomaton & Vox Assírio & Alvim 2006

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

jazz na chegada da cidade


fotografia retirada da internet

jazz no aeroporto. três elementos.
as rodas de silêncio pousaram lentas
no preenchimento de um espaço vazio; malas e homens
malas e mulheres nas medidas certas da cabine;
low-cost dizem. concerteza há lugar na dimensão reduzida
a t-shirts, pólos, calções de banho,
curtos ou de perna comprida, mais modernos
billabong, deeply ou quick silver
ou então copas de seios onde as seivas dos meninos
triumph, women's secret, intimissi
e as camisas de renda, os tecidos da índia, os bikinis
e alguma toilette de intimidade feminina.

após uma hora, na esquina Formosa
um tocador de olhos de névoa
abre a voz da concertina.
uma melodia aberta,popular e divertida.
o tocador não vê a intensidade das pernas, a qualidade dos decotes
a luminosidade dos sorrisos, a inclinação do meio dia.
o tocador tem todas as imagens no poder dos sentidos
sente dois que passam mas não apercebe os gémeos
não vê o piquet dos tecidos, a imobilidade dos crocodilos
nem mesmo os óculos escuros
de uma filha dos fiordes, a cor dos olhos que se adivinha
azul, sim, azul, outra cor é impossível, pelo ruivo das sardas
pela cor branca das axilas.
o tocador solta a música sentado na cadeirinha
e acompanha o ritmo com o ponteiro da cabeça,
marca o tempo de forma idêntica como alguém que dança
que eleva os braços, que estreita a dançarina
antevê-se no levantar dos lábios
enquanto as notas rodeiam as ancas de quem passa.

mais abaixo, na livraria, pousa-se o fascínio das memórias
na ansiedade dos poemas, o desenho das letras, a cor das tintas
na mão que escreve e liberta
o osso maciço do corpo, a fantasia acesa, as asas de borboleta.

ocorreram milhares de vinte quatro horas, a imensidão dos minutos,
passaram anos
e um dia definiste de forma precisa, o tamanho das pálpebras, as rugas
e os seus sulcos mais profundos, para além do visível, do habitual sorriso.

sob a luz de um foco de cinema surgiu óbvia a actualidade escura
o filme antigo, a poeira das feridas
para além das veias largas, guerreiras, destemidas
onde as enfermeiras colocam as agulhas, elogiando a facilidade vermelha
do grupo sanguíneo, o seu comportamento amplo e compatível
rubro e rápido, um mar vivo -

sabes, como um cego sonho, preciso da música e da liberdade dos sentidos
da premonição do risco, o arame, a falta de equilíbrio
a tontura da queda sem a submissão de linhas
a hipnose, o pêndulo
a inexistência de gravidade nos dedos dos dias
a inconsciência aos gritos

e bagos de uva rolando pelas ruas
em madrugadas sucessivas -

José Ferreira 11 Agosto 2011





quarta-feira, 10 de agosto de 2011

um poema de Cesariny - exercício espiritual


Mário Cesariny (colagem)

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny Manual de Prestidigitação 1956

terça-feira, 9 de agosto de 2011

cinquenta e três versos


Edouard Boubat

nenhum
nem um dos cinquenta e três versos enrolados em letras curvas.
jazem como bolas de papel, amarrotados na clareza, na intenção
no óbvio, na vulgaridade de não serem admissíveis como únicos;
fracos e símiles como o compromisso antigo riscado nas uniões de reis
imperadores e rainhas, austríacas -

resta a música -

nenhum
nem um dos cinquenta e três versos poderia significar o edifício
a sólida cidade organizada que risco na côdea das árvores.
nem um merece a luz, porque lasso, sem chama, horizontal, rouco
sem espanto -

resta o azul de uma aguarela
a parede branca sem mácula, antes assim -

nenhum
nem um dos cinquenta e três versos representa a pétala, a sépala
a flor uníssona de caule vertical
o cálice de mosto
a carícia na pedra
que a transforme em água clara, minuciosa, sem pressa
que a transforme em líquido de prata
como às vezes, os lagos, os rios pouco inclinados -

nenhum
nem um que estabeleça a ilusão e um braço de certeza -

cinquenta e três
e os olhos adormeceram, rasos, cansados sobre a mesa;
o papel em algazarra de grossos lábios discute a impossibilidade
de reorganizar as letras -

é tarde, muito tarde para o poema -

em tempos, sem a ousadia de um físico correr da tinta
escreveste o verso mais poderoso sobre todos os meus trajectos
sobre as mil águas de chuva e os duzentos caminhos tortos
simples e magnífico
como sempre o é o inato e a sabedoria

era Setembro, olhaste-me nos olhos;
a pele morena
as pálpebras de Agosto -

nenhum
nem um dos cinquenta e três versos te merece, te representa;
rolam sobre a mesa na imensidão da aragem rubra
que invade a dor dos cabelos
os ouvidos calados, a nuca descomposta sobre os dedos -

resta uma escada de liana e uma nuvem a mastigar cinzentos
a tornar-se branca
depois de um dilúvio de excessos perante a fogueira
que ameaça a ruptura no desconforto do sedimento
sem fazer parte
inútil e separado da rocha magenta
que encorpa a mente
e entorna o coração na cor vermelha
escorrente, nas mãos abertas de harpa
oca de invernos
escrevendo as células
inventando a pureza muda das fotografias
retirando uma a uma toda a roupagem efémera;
a nudez esclarecida -

a lua, a janela e os sentidos -


José Ferreira 9 Agosto 2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

um poema de Emily - A Noite - a alguns dada


Paul Delvaux "O amanhecer" 1943

Morning is due to all
To some - the Night
To an imperial few
The Auroral light

Emily Dickinson

A Manhã é de todos -
A Noite - a alguns dada -
Para os poucos do império -
A luz da Madrugada.

Trad. de Ana Luísa Amaral em "Cem Poemas" Relógio d'Água 2010

domingo, 7 de agosto de 2011

Vozes - um poema de Ana Luísa Amaral


Aguarela de António Cruz


Eterno é este instante, o dia claro,
as cores das casas desenhadas em aguada rasa,
castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, de vidros muito honestos.
Este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta
no papel: eterno

Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil,
mas tudo: tão confuso como são os sonhos

Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distingo os contornos do meu sonho, não sei
se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo, e trouxe azul e sol a esta praça
onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas

E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplica-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruegel te visse,
pintava-te, exactíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno

(Eu, que nada mais sei, só o fulgor do breve,
eu dava-te palavras –)

Ana Luísa Amaral


Vários poemas de Ana Luísa Amaral foram também publicados numa revista no Brasil
consultar o link http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-57/poesia/vozes

sábado, 6 de agosto de 2011

sempre que me dizem o teu nome


Isabelle Adjiani por Heléne Renault

sempre que me dizem o teu nome desço o ramo do pinheiro
como agulha flutuante, atingindo o solo sem estrondo
vestido de verde, recuando no tempo
o tempo de um peso leve sobre as costas
a tenda e um sorriso aberto
de amêndoa
sempre que me dizem o teu nome

sempre que me dizem o teu nome bato com os pés no chão
levanto a poeira e sonho ser cavalo branco, de crinas ao vento
procurando a guarida dos bosques, o ruído dos ribeiros
sem sela, de pêlo nu, segurando a força das tuas pernas
escutando a sombra dos teus cabelos, ombros, costelas
olhos grandes, pestanas ávidas, lábios molhados;
e os dedos longos rodeando o topo da cabeça
a estrela, o arfar constante, o insossego da cratera
o permanente desafio;
um acto coragem, o superlativo favorito, a revolução
sempre que me dizem o teu nome

sempre que dizem o teu nome soam cordas de harpa
risos de violino e uma dança nas mãos de Maisky
a clássica filosofia de um concerto nas ondas absortas de uma orquestra
unindo as bocas das notas, únicas, breves, alinhadas nos sinais da pauta
e perecendo no uníssono que se prolonga no pico das palmas
nos corpos erguidos de molas; e as cordas que se afastam
deixando a permanência de um silvo dentro dos ouvidos
os olhos luminosos, gritos de gaivotas sobre os remos
como um barco que se afasta e salga as ondas nas batidas do mar
sempre que me dizem o teu nome

e sempre que me dizem o teu nome há um arco-íris
um girassol iluminado, três mil jasmins e cinquenta nardos
um quarto solitário feito em pedaços, uma lua esquecida
uma concertina invisível rodopiando árias
a permeabilidade do metal, tornando-se frágil, quebrável
e um silêncio, uma hipnose, um transe tão agudo
que ninguém se apercebe que pode cair um relâmpago
um prédio, um pânico ou acidente, um crime, um incêndio
que, se me vissem por dentro

o teu rosto descansa no meu ombro

no éter dos poemas
sempre que me dizem o teu nome


José Ferreira 6 de Agosto 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cianuro




Dempsey, o grande Dempsey Denial, agarrou no último número da revista “Cianuro” e sentou-se com um copo de champanhe numa cadeira que ardia debaixo do caramanchão. A tarde escoava por um orifício secreto, o vento dedilhava nas cartilagens do silêncio uma música pálida, quase inaudível, que o sol ao morrer despenteava no incerto, e Dempsey estava confortável dentro do seu 14755º dia de vida. “Cianuro”, a revista de arte escabrosa e literatura acidental que Dempsey folheava, trazia agora um suplemento dedicado à paisagística sentimental, com ilustrações de um tal Phoekus Phantash (um pouco mórbidas e pouco nítidas) e palavras de Rome Jus Van-Van, pseudónimo literário que Dempsey um dia atribuiu à imagem que sempre fez de si mesmo.
À medida que o álcool, o gás e o milagre dourado do champanhe congestionava o cérebro de Dempsey, naquele final de tarde imperial e dorido, à medida que relia e molhava os olhos nas palavras selvagens que ele – sob a autoridade de Rome Jus Van-Van – assinara diabolicamente ao lado dos desenhos desfigurados de Phoekus Phantash, um sorriso carnívoro foi-lhe nascendo primeiro a partir das comissuras dos lábios, alastrando-se depois a toda a península facial, desenhando pequenos rios de sangue à superfície.
É que Dempsey sabia que, para além do insondável Phoekus Phantash, todos os outros colaboradores da “Cianuro”, Manuel Feist, Carlos Columna, Raquel Realce, Alfred Prufock, Roberta Cajal, Evangelio Arte-Enrique, eram criações suas. Assim como o director, Douglas Datsun Jr., a amante do director, Fabrizzia Flame, o neto mais novo do porteiro da redacção da “Cianuro”, Joyce Emmanuel, até Nídia Witt, a mulher da limpeza a quem todos os dias Dempsey dava os bons dias, também ela era Leonor Nieves na vida real, artista de rua muito íngreme, VIH positivo, musa das ovulações imperfeitas.
E depois de pensar nisto, e já a bordo da grande fadiga do mundo, Dempsey passou pelo sono e sonhou que acenava aos seus leitores com desprezo.

Na saleta de Amy Lowell


Coco Chanel retirada da internet

A voz estende
a gravura japonesa.
O vento repousa. A campainha dorme.
Desfaz-se o oiro
da coluna invisível
do livro onde Keats esqueceu os verbos.
Luz espraiada,
o suspiro ascende.
Demora a curta fantasia
dos cavalos de seda.

A glicínia nasce
do ventre do poema.
Uma cadência morre. Um amor desagua.
Atenua-se a vertigem
do azul crepitante
da crónica onde o príncipe galga as grandes lages.
Sono ardente,
a mão oscila.
Acena a branca viagem
da bússolas da tarde.

em "Tiago Veiga Uma biografia" de Mário Cláudio

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

MULHER E MAR ( PARCERIA )

Oiço o bater das ondas do teu mar,
e vejo-te lá longe ténue pairando
sobre as imponentes vagas do teu mar...

Sei que é fugaz alucinação,
mas que me mata a sede e fome
de te ver e de te ter!

Mulher despida mas envolta em teu mar,
que tu iludes e tanto enfeitiças,
que decidida e brutal o enfureces
pra que eu nunca te possa em paz chegar.

Mulher imensa, mulher majestosa,
prenha de esperanças
e fazedora de vidas,
não castigues o teu mar
que por Ti é doce e tão pacato!

Mulher desavinda, mulher de fervor,
sossega o teu mar
dá-lhe todo o teu encanto,
pra que eu por fim te aconchegue
sereno, cheio de amôr e recato!


( António Luíz, 19-07-2011)
Lido na Biblioteca Municipal de Espinho,
em Reunião da ONDA Poética de 20-07-2011)

MULHER, DEITA AS LÁGRIMAS AO TEU MAR

Mulher e Mar ( interdependência )
....................................

Mulher, deita as lágrimas ao teu mar,
que revoltoso anseia amôr e calma,
Mulher, verte angústias em teu mar,
que furibundo ruge e quer tua alma.

Mulher, solta pesadelos em teu mar,
que o mar é imenso, assim o dominas,
mulher, naufraga teus sorrisos em teu mar,
que nele te refletes e nele te fascinas.

Mulher, acaricia as ondas do teu mar,
que ele se entrega, te venera por inteiro,
Mulher, toca a espuma limpa do teu mar,
qu' ele te dá dela a essência do bom cheiro.

Mulher, banha-te plena em teu mar,
que dele bem conheces a intimidade,
Mulher, comunga teus ideais com teu mar,
pois ele te prolonga e te dá solenidade!


( António Luíz, aos 19-07-2011)
Lido em 20 de Julho em Reunião da Onda Poética
de Espinho, Biblioteca Municipal de José Marmelo e Silva)