domingo, 6 de março de 2011

domingo


Retirada da internet

acordámos na cor dos raios imprevistos
de sol. focos iluminados de suspenso pó.
múltiplo pó molecular de carnaval. multifacetado.
um dois três quatro…impossível de contar
quantos em movimentos rotacionais de sombra e brilho.
todos iguais numa girândola sem actores
sem palcos sem disfarces.
raios imprevistos irrequietos
os primeiros ruídos de domingo -

José Ferreira 6 Março 2011

sexta-feira, 4 de março de 2011

Esplanada


Richard Avedon

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina "Poesia Reunida" Assírio & Alvim

quinta-feira, 3 de março de 2011

Um poema luminoso de Sophia - Mar


David Hamilton


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen "Poesia"

lembro_______lembro lembro


Guy Bourdin

lembro___________ lembro lembro
os primeiros dias de fevereiro
antes das glicínias
quando os canteiros de amores perfeitos
gotejavam de amarelos azuis e roxos;
um vestido de folhos nos caules das japoneiras -

lembro__________lembro lembro
vestida de branco
surgia como um raio súbito e passeava o sol
enquanto ele era e permanecia.
até que por fim subia degrau a degrau aquela escada dura
e desaparecia atrás de uma porta
de almofadas verdes e claves prateadas.

lembro__________lembro lembro
descia assim frio o ainda inverno sobre as raízes da terra
sobre a silhueta das árvores a cor das folhas as primeiras flores
em noites de fevereiro___ lembro

lembro_________lembro lembro
subsistia um silêncio sem presença
mas deixava sempre as mãos abertas
e conduzia da lua um foco de luz
na sombra dos muros nos quartos escuros
na cidade deserta -

José Ferreira 3 Março 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Rotações perfeitas




Se me pedisses de repente e aqui:
«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem

Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual

Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo

e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras

Ana Luísa Amaral "Se fosse um intervalo" Dom Quixote 2009

terça-feira, 1 de março de 2011

Lagos e Vacas




Se há alguma coisa verdadeiramente perturbadora, essa coisa é a actualidade. E o facto (ainda mais perturbador) de não existir, por exemplo, medicação que nos afaste um pouco dessa persistente pátria espontânea que é a actualidade de tudo e de todos, e, ao mesmo tempo, a de nada e a de ninguém.
No fundo, estamos tão sentados em cima da actualidade, como o poeta do relato de Hélder está sentado em cima da Holanda. Já sem recursos suficientemente convincentes que o levasse a tomar a decisão (ainda que teórica, apropriada) de se deslocar, ele (mantendo-se em cima da Holanda) pensa na tradição. E nós pensamos na tradição, com ele. Depois ele diz para si mesmo que é “alimentado pelos séculos, [e que vive] afogado na história de outros homens”. E nós repetimo-lo, repetimo-lo incessantemente, num estado de transe, próximo da ecolalia e dos estados catatónicos mais primários, enquanto engolimos água, e nos engasgamos com pedaços das biografias alheias que vêm dar à costa dos nossos dias partilhados.
Mas há um ponto em que, definitivamente, discordamos. Esse ponto é quando o poeta, depois de dar conta da perdição da sua alma (até aqui, não há nada a objectar), se reconhece ao encontrar, perto da sua solidão, primeiro um lago, e depois vacas.
Ora, parece-me muito pouco provável que haja lagos e vacas na actualidade.

imagens interditas




não me perguntes nunca Como me sinto.
é um convite à mentira. um apertar doído.

as palavras de fogo promovem o silêncio
e acendem um reino escuro. a implosão do templo.

a aparência externa de uma brisa segura
esconde a turbulência a grande nuvem
a poeira imensa de crinas selvagens
os ruídos de vento imperceptíveis.

a aparência externa comprime e limita as ondas
o bombardeamento de espumas marítimas
passos compreensíveis incompreensíveis passos invertidos
ao olhar de krípton que enfraquece os sentidos

e o esfumar de imagens interditas
dentro da verdade que não digo -

José Ferreira 1 Março 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

XXVIII - Li hoje quase duas páginas


Harald Solberg

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro " Guardador de Rebanhos"

a pintura de Wassily


Wassily Kandinsky


É à luz de uma pintura de Wassily
que admiro o amarelo súbito
o azul intenso na forma elíptica.

Na manhã de um distúrbio adormecido
é insustentável o fragmento do sonho
que em traços distintos guarda indícios
nas bolsas dos olhos no incontornável do espelho.

É à luz de uma atmosfera de Kandinsky
que procuro entender a génese e o verbo
o afirmativo de uma dualidade
o lado simétrico
a intensidade da cor e o labirinto -

José Ferreira 27 de Fev 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

(escrita pouco inocente)


Richard Avedon


No livro do imaginário a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir - gosto de poetas obscuros.
Não há poetas obscuros.
Se alguém diz - esta atenção é minha - não é um poeta obscuro?, e se diz - esta não é a minha atenção - não é um poeta claro?
Não.
É preciso encontrar as chaves - às vezes é fácil, às vezes é difícil.
Não.
Cada imagem é a chave de outra imagem e e elas abrem-se umas às outras, as imagens.
Não.
Tudo são chaves para abrir tudo.
Não.
A chave entra na fechadura, a porta abre-se sobre uma nova porta.
Não.
Portas sobre portas até que a porta final abra sobre a luz que atravessa o espaço aberto de todas as portas.
Não.
Os poetas são metafísicos.
Não.
A metafísica é uma distância de onde os poetas vêem, em perspectiva, a realidade.
Não.
Não há realidade?
Não, não há realidade - todos os poetas são claros a esse respeito.
Se eles dizem - atenção - cria-se a realidade da atenção.
Se eles dizem - atenção - anulam a atenção, criam um espaço vazio.
A imagem não é uma realidade?
O que os poetas provam é que é preciso uma imagem para revelar que a realidade não existe.
No livro do imaginário a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir - gosto de poetas claros.
Não, ainda não.

Herberto Hélder " Photomaton & Vox" Assírio & Alvim 4ªed. 2006

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Porto

moro nela até me sentir daqui,

cidade macho ainda sem namorada.

escrevo o teu lugar na palma das mãos


Guy Bourdin


escrevo o teu lugar na palma das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amam e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse


Tatiana Faia Revista Ítaca nº 1

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

tarde longa


Marc Chagall

naquela tarde de algarve tarde longa
assomava a leve temperatura das gaivotas
de asas brisadas e penas brancas.
arcos redondos guardavam
as costumadas setas.

a estética de silêncios delineava a intermitência de azul
na não intensidade das ondas
e as areias eram de olhos fechados
um deserto de almas.

naquela tarde de algarve tarde longa
não houve nomes nem memórias na voz dos lábios
nas cores soletradas pela música dos dedos
e adormeceram sem a pressa do sal e dos cinzentos
ao som dos búzios pelo mar adentro.

José Ferreira 24 Fev 2011

Emily


David Hamilton


A word is dead
When it is said,
Some say.

I say it just
Begins to live
That day.


Está morta a palavra
Dizem alguns
Mal é proferida.

Eu digo que só
Então nesse dia,
Ela começa a vida.


Emily Dickinson "Cem Poemas" Trad. Ana Luísa Amaral, Relógio d'Água 2010