terça-feira, 2 de março de 2010

Porque - a melodia de pianos


Gerhard Richter "Betty" 1978


A nossa cosmografia não tem textura definida
Encosta o azul riscado das gangas nos ramos distraídos
Desliza o brilho acetinado nas sedas de Viena

Reinventa o subtil estado imaterial;
Não é névoa, nem água ou imóvel sólido
Impávido de ventos

Não sobrevive de silêncios
porque todas as melodias dos pianos
transbordam o impossível esquecimento -

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Porque

«Porque», de Sophia de Mello from blocsdelletres on Vimeo.




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

prosa ou poesia?


René Magritte "A grande família" 1963


não encontro a diferença
a fronteira, se o universo são palavras.

prosa ou poesia? similares
talvez espelhos milhares de imagens
de orgulhosa insubmissão tão rectilínea
que uma a outra e outra a uma
se inveja e sublima
e não houvesse
entre terra e nuvem
toda a chuva que aproxima

e mais, tanto mais me anima
este gémeo desafio das palavras
quanto
é tão fértil a humana tranquilidade
de saber que existe um paraíso

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um dizer ainda puro


Klimt 1911


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonámos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato, "Um Mover de Mão" Assírio & Alvim

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Correntes d'escrita





Amanhã 4ª feira pelas 17H00 tem início o encontro da Póvoa de Varzim "Correntes d'escrita". Ana Luísa Amaral vai animar a 1ªmesa juntamente com outros notáveis das nossas letras. É concerteza um bom programa para quem tiver possibilidade de estar presente. Pelas 22 horas segue-se o lançamento de livros.


1ª MESA: "Escrevo para desiludir com mérito" A.B.L
Ana Luísa Amaral
Eduardo Pitta
Fernando J.B. Martinho
Gilda Nunes Barata
Zuenir Ventura
Catherine Dumas - moderadora
AUDITÓRIO MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM


22h00
Lançamento de Livros
Ana Luísa Amaral, Inversos - Poesia 1990-2010, Dom Quixote
Inês Botelho, O Passado que Seremos, Porto Editora
J.J. Armas Marcelo, A Ordem do Tigre, Teorema
Lourenço Pereira Coutinho, Cinco de Outubro, Sextante
Manuel da Silva Ramos, Três Vidas ao Espelho, Dom Quixote
Tânia Ganho, A Lucidez do Amor, Porto Editora

23h00
Sessão de Poesia

AXIS VERMAR

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

pés de sandália


Juan Romero " A casa do pastor" 1990

o rosto no brilho de marfim vê a água,
rápida, na fonte de pedra no meio do bosque.

o rosto. um ponto branco juntando verde e água;
uma terra vestida de um tom musgo de veludo
do qual se liberta uma névoa que sobrenada,
esvoaçando, a transparência do espaço.

o rosto, depois o corpo nos pés de sandália
roda as árvores de ramos verdes,
onde pássaros cinzentos de bicos acesos
dão as notícias, as notícias do bosque:
hoje cresceram mais folhas - trezentas.

o rosto que passa entre este e aquele lado;
a fonte, a árvore, o musgo, em pequena dança,
lava a alma do poeta num banho de certezas;
solta e salta nos olhos de água.

o rosto do bosque.
um ponto branco no liame dos braços ruboriza.

os pássaros dão logo a notícia-

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Inquérito


Hiro Yamagata "Bubbles" 1983


Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.

Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.

Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.

A ti mesmo, nada perguntes.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Intervalo (II)


Ricardo Asensio "Amanhecer de um Rio" 1968

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.


Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Brasserie


Cartier-Bresson "Brasserie"

o rapaz ruivo pôs um belo de um sorriso
a uma rapariga morena que lia o jornal.
esconderam ambos um mar rubro e oculto.
sem darem as mãos voaram até um planeta
alto e distante. não se via. existia
sem consequência.

ainda hoje se lembram as mesas da brasserie
na esplanada nada fria de Paris.
acrescenta-se o que poderia ter sido
enquanto se escrevem poemas, se leêm livros
e se lembra uma avózinha muito curiosa
no dia dos namorados.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Café Del Greco

O mancebo entrou no Café Del Greco e pediu organino à marinheiro e o empregado disse: aqui não servimos música tocada por marinheiro, e também não servimos os marinheiros que tocam música, só servimos pasteis de chaves com muito fermento e cerveja também com muito fermento. O mancebo disse: Quero que as coisas com fermento se fodam!! Foi até à máquina de dar dinheiro, no fundo do café e meteu lá dinheiro e ficou sem o dinheiro porque não há máquinas de dar dinheiro. Pediu um prego no pão e o dono do Café del Greco deu-lhe um prego no pão. O mancebo saiu e foi ver o mar, a lua estava cheia e o mar tinha-se ido embora, depois o mar voltou e o mancebo chamou por um mexicano e o mexicano veio a fumar pela praia, com um passo muito lento. O mancebo e o mexicano sentaram-se na mesma duna e o mar sentou-se também numa duna. O mar pediu lumes ao mancebo e o mancebo disse: Eu não tenho lumes – E o mexicano disse: eu tenho lumes – E o mar começou a arder, e depois calçou umas botas de saltos altos e dançou como um tornado de fogo, e o mexicano disse que o mar era sexy e masturbou-se enquanto o mar dançava – É que dá-me tusa! Fodasse ver o mar dançar – Voltaram ao café del Greco e comeram dois pregos cada um e dois finos cada um.

Linha de Sintra

Alguém disse ao condutor da linha de Sintra que une as Caldas a São Pettersburgo, ó condutor de comboios, tu és um génio, porque nos levas na rota perfeita – E o condutor de comboios da linha de Sintra disse: Eu não sou um génio, sou só um conjunto de limões em fuga, vocês são guiados por um conjunto de limões que não sabe para onde vai e leva tudo consigo; Leva consigo várias carruagens e todas elas descarrila e volta a alinhar, um conjunto de limões pintado em todas as naturezas mortas do século XVIII, com limões de extrema direita e limões de extrema esquerda, um conjunto heterogéneo que usa ceroulas de todas as coras e chora na direcção do vento, se o vento vem de norte chora para sul, se o vento vem de sul chora para norte.
Alguém ejaculou por cima da natureza morta e esse sémen ficou na história da Arte europeia – Pense – Disse o condutor da linha de Sintra, com bons modos – Eu sou um espelho e um conjunto de limões em fuga e às vezes no meu comboio invoco um incubo para que lance um terramoto, e esse incubu lança o terramoto e o terramoto é de escala 7 e deita abaixo todas as bibliotecas, e o terramoto faz com que o comboio descarrile, e ao lado da linha de Sintra, corre um cavalo na direcção que lhe apetece, se lhe apetece correr para norte vai para norte, se lhe apetece cavalgar para o inferno o inferno abre-lhe as portas, então esse cavalo que às vezes bebe do Tejo e outras vezes bebe do Sado e quando quer ir para norte vai beber ao Douro, corre com medo do terramoto – O cavalo tem atrelado um arado e um carrilhão suíço que acorda as mulheres para irem extrair sal. E como a terra treme e o terramoto é muito intenso, o cavalo espalha-se pelo Alentejo e foge para um lado e depois para o outro, ao ritmo que a terra quer – E o arado deixa na terra uma sismo-gravura, ou um sismo-poema que a terra dita, em linguagem trémula ao cavalo que corre, O arado escreve – O Paraíso é igual a Paraíso + Inferno – Ou outro aforismo ridículo que só um tremor de terra poderia escrever. E vêm a chuva e apaga a frase que outrora se lia do alto.

Nuno Brito

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Como podemos esperar


Sopretán Doménech "nascimento de uma sereia" 1993


Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernandes Jorge, in "Direito de Mentir"

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

íntimo


Robert Doisneau

o acaso de uma tempestade: o trovão, um relâmpago de luz
e tão tectónica e imersa é por vezes a revolução
difícil, tão difícil, interna
um mergulho numa nuvem de quadros sem assinaturas
estilo código genético de um rio pessoal
íntimo, tão íntimo, arterial
capilar, tão fino quanto um fio de uma agulha
que solta a gota de sangue;
não coagula, segue em frente e surpreende
no excesso de ruído ou de silêncio
querendo dizer o mesmo -

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lorca lives


Leonard cohen/Luis Bunuel "los olvidados"


Lorca lives in New York City
He never went back to Spain
He went to Cuba for a while
But he's back in town again

He's tired of the gypsies
And he's tired of the sea
He hates to play his old guitar
It only has one key

He heard that he was shot and killed
He never was, you know
He lives in New York City
He doesn't like it thought



Lorca Vive

Lorca vive em Nova Iorque
Não chegou a regressar a Espanha
Foi até Cuba por uns tempos
Mas está de volta à cidade

Fartou-se dos ciganos
E fartou-se do mar
Detesta tocar a sua velha guitarra
Que tem apenas um tom

Ouviu dizer que tinha sido alvejado e morto
Nunca chegou a sê-lo, sabias
Ele vive em Nova Iorque
Embora não lhe agrade

Leonard Cohen (tradução de Vasco Gato)" O livro do desejo" Quasi

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

dupla face do sonho


Gerhard Richter "Abstracto" 1995

as faces, as duplas faces de ser ou sermos
prisioneiros de um inesquecido impossível.

viajemos no lugar presente na barca que divaga
pleno indicador de magnetismo de bússolas
sem o desnorte das estrelas viciadas e azedas
sem as luas tristes e ázimas de homens pesados
e fardos de árvores, feixes de sombras;
segundo dizem os sábios não se cortam os ramos
sem eles não cantam as aves.

viajemos no lugar precioso das sementes
que nascem, que crescem, crescem
no esforço de romper as terras. Sementes
que descobrem o sol e a sede dos rios.
sementes que enxugam as lágrimas das musas
e sobem o sorriso dos lírios.

viajemos nos braços de prata dos espelhos
gémeos de lábios doces na profundidade
das diferenças.

poucos são aqueles que sentam e escutam
a serenidade dos montes, as dificuldades
dos arbustos onde dormitam os coelhos
e saltam súbitas as raposas. poucos
são poucos.

viajemos nas escondidas naturezas
e na sobrevivência dos segredos
como sonâmbulos nos sentidos
entre quatro paredes de quartos brancos
sem o pudor das vestes
velhas chagas puritanas
que não mostram todos os destinos
nem as capacidades interditas
dos lábios permanentes.

viajemos na dupla face do sonho
nem que ele seja sem o ser
ou sermos, princípios de desejos
impossíveis de esquecer.