Se eu fosse esta música que ouço
Sem corpo nem dor
Só som
Vibração organizada em mim
Sopro criativo, olhar interno
Alma em notas de percepção
Se eu fosse esta música
Era pura abstracção
A física invisível dos sentidos
A massa sólida da dor
Sem corpo nem cor
Alma em notas de percepção
A tua música no meu olhar
Silêncio do tempo em abraços
Silêncio em música de abraço
Tempo da dor em contratempo
O teu ritmo descompassado
Era pura abstracção no meu corpo
A música da tua ternura em mim
Era pura abstracção
A física invisível do teu rosto
O beijo da existência
Magma encarnado
Música encarnada
Era pura abstracção
A música tem o nome da liberdade
O elixir respirável da vibração
Se eu fosse esta música que ouço
Sem corpo nem dor
Só som
Olho a partitura em branco
A música por escrever, por inventar
Canto para ti e adormeces
sexta-feira, 8 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Matrioska e Saber
Sonhos
Famintos dos lugares
perdidos no Oceano;
histórias invulgares
secretas viagens
sucessos abstractos.
Pensamentos tintos
de cores em arcos
olhos enleados
nos labirintos
da mente.
Mudas irrealidades
quiméricas ilusórias
segundos alternados
em estados de alma.
Favos de surpresas
agridoces -
Sonhos!
perdidos no Oceano;
histórias invulgares
secretas viagens
sucessos abstractos.
Pensamentos tintos
de cores em arcos
olhos enleados
nos labirintos
da mente.
Mudas irrealidades
quiméricas ilusórias
segundos alternados
em estados de alma.
Favos de surpresas
agridoces -
Sonhos!
terça-feira, 5 de maio de 2009
de profundis amamus

(Pintura de Cesariny)
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
Mário Cesariny - Autografia e outros poemas de pena capital - Assírio & Alvim
domingo, 3 de maio de 2009
Dia da Mãe - Azul "Celeste"
Tem o nome nascido no céu
o signo sem pecado
deu-me luz quando venci o mar
e agarrado ao fio apareci
choroso do outro lado.
Um dia de Outono
que me apercebo indefinido
sem o pontuar de humores:
raios de sol? gotas em linhas?
A "brasileirinha" diziam quando pequena
nas terras do Côa íngremes e sós
onde volfrâmios eram ouro de montes
e os homens nos vales davam saltos
sem fronteiras na França distante
salvação e aventura de emigrantes.
Ainda menina sem remos nem fama
tocou as margens do Douro
no comboio das fornalhas
em bancos corridos de paus e napas;
impossível esquecer as galinhas carecas
entre redes malas de cartão e cestas
os rodilhos os aventais
na Régua os cântaros de água fresca.
Chegou no abraço de um Porto
abrigo onde o barco acostou
e não mais partiu:
foi aí que eu nasci.
Devo-lhe os versos o som das rimas
as palavras ensaboadas
nas águas do rio.
No início lia contava as histórias da Biblia.
Nos dias de Maio as novenas
os cânticos das músicas de "Maria"
nas terras de Fátima da Cova (Dei)ria
(assim se cantava e eu de mãos juntas
e ar distraído assim ouvia).
Pequeno na altura do cotovelo
ensinou-me as artes do bolo
sem mecanismo de braço firme
nas rodas de um "salazar":
castelos de claras
gemas desmaiadas de doçura
manteigas derretidas
e o nome que guardo na memória
raiados de Carrara "mármore"
"mármore" assim o bolo se chamava.
Talvez se tenha formado no pó das farinhas
alguma névoa e fantasia
um princípio de alma
que acredita
na força das palavras
na poesia.
Enfim que mais dizer
se não que em ela fui um todo
recebendo recebendo recebendo
o consolo o carinho o próprio sono
nos cuidados que só uma mãe sente
como sendo
únicos divinos
voando perigos ouvindo os ventos
amainando as feras dos destinos.
Mãe que tens nome no céu
e és menina do Rio
hoje sempre todos outros
o dia é teu
e vejo-te azul na cor
de uma flor delicada
miosótis
o pequeno ponto amarelo
sabes mãe
esse lugar é o meu.
o signo sem pecado
deu-me luz quando venci o mar
e agarrado ao fio apareci
choroso do outro lado.
Um dia de Outono
que me apercebo indefinido
sem o pontuar de humores:
raios de sol? gotas em linhas?
A "brasileirinha" diziam quando pequena
nas terras do Côa íngremes e sós
onde volfrâmios eram ouro de montes
e os homens nos vales davam saltos
sem fronteiras na França distante
salvação e aventura de emigrantes.
Ainda menina sem remos nem fama
tocou as margens do Douro
no comboio das fornalhas
em bancos corridos de paus e napas;
impossível esquecer as galinhas carecas
entre redes malas de cartão e cestas
os rodilhos os aventais
na Régua os cântaros de água fresca.
Chegou no abraço de um Porto
abrigo onde o barco acostou
e não mais partiu:
foi aí que eu nasci.
Devo-lhe os versos o som das rimas
as palavras ensaboadas
nas águas do rio.
No início lia contava as histórias da Biblia.
Nos dias de Maio as novenas
os cânticos das músicas de "Maria"
nas terras de Fátima da Cova (Dei)ria
(assim se cantava e eu de mãos juntas
e ar distraído assim ouvia).
Pequeno na altura do cotovelo
ensinou-me as artes do bolo
sem mecanismo de braço firme
nas rodas de um "salazar":
castelos de claras
gemas desmaiadas de doçura
manteigas derretidas
e o nome que guardo na memória
raiados de Carrara "mármore"
"mármore" assim o bolo se chamava.
Talvez se tenha formado no pó das farinhas
alguma névoa e fantasia
um princípio de alma
que acredita
na força das palavras
na poesia.
Enfim que mais dizer
se não que em ela fui um todo
recebendo recebendo recebendo
o consolo o carinho o próprio sono
nos cuidados que só uma mãe sente
como sendo
únicos divinos
voando perigos ouvindo os ventos
amainando as feras dos destinos.
Mãe que tens nome no céu
e és menina do Rio
hoje sempre todos outros
o dia é teu
e vejo-te azul na cor
de uma flor delicada
miosótis
o pequeno ponto amarelo
sabes mãe
esse lugar é o meu.
sábado, 2 de maio de 2009
A curva dominante
Fio d"água
Fio d"água
que declina o caminho
comum
de afluentes riachos.
Serpente de reflexos
em descida plena
de nós e sulcos.
Turbulência emergente
ruído borbulejo
que ecoa, escoa
e cai
na planície do desejo.
que declina o caminho
comum
de afluentes riachos.
Serpente de reflexos
em descida plena
de nós e sulcos.
Turbulência emergente
ruído borbulejo
que ecoa, escoa
e cai
na planície do desejo.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Que a voz não te esmoreça
Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul
Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar
Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar
Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu
José Afonso
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul
Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar
Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar
Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu
José Afonso
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Um poema de brincar
D.José perdeu o pé junto ao sapato
tropeçou caiu no chão
soltou ais até ao tecto.
Assustou em cima o gato
ao colo de D.Tina
por sinal muito achacada
a tão alta gritaria.
"Nhoc!Nhoc!" toca ao vizinho
chinelo a mão na anca
ar zombeta e descarado
tirando satisfação
de tamanho alarido
e de tanta aflição.
Abriu o trinco da porta
lá estava o desbocado
junto ao velho cadeirão
pernas ao alto
e todo o braço enfiado
num buraco do sobrado.
"D.Tina! D.Tina!
boa alma de vizinha!"
(não tem nada de santinha
mas tudo é permitido
na procura de final
na presente situação).
Volta ele:
"D. Tina! D. Tina!
Minha querida vizinha!
Quer ver que me esparramei
abri até ao rés-do-chão
e seguro o candeeiro
da sala em baixo
de D.Anunciação.
Surda que nem um soco
não ouviu a confusão
dorme a paz dos anjos
ressona como uma foca.
Que faço eu?
Se o largo cai em cima
se seguro caio eu!"
D.José então suplica:
"D.Tina! D.Tina!
Minha rica vizinha!
Vá lá baixo por favor
leve a escada manca
que está ali no arrumo
mesmo ao pé do corredor!"
"D. José! Oh D. José!
Já lá vou! Já lá vou!
Não grite tanto!
Já sabe como eu sou
desde que a Maria Rita
garota endiabrada
me arrumou com o livro
o do Camilo
"O amor de perdição"
junto ao ouvido
sofro de enxaqueca
dói-me demais a cabeça!
Fale baixo! Assim é que é!
Já lá vou! Já lá vou!"
Saiu D. Tina
fica D. José no chão.
Merecia fotografia
em três planos
um em cima
outra na descida
de escada na mão
por último de xaile preto
"Rrr..Rrr...Rrr..Rá...Rá...Rá..."
sem acordar
a D. Anunciação!
tropeçou caiu no chão
soltou ais até ao tecto.
Assustou em cima o gato
ao colo de D.Tina
por sinal muito achacada
a tão alta gritaria.
"Nhoc!Nhoc!" toca ao vizinho
chinelo a mão na anca
ar zombeta e descarado
tirando satisfação
de tamanho alarido
e de tanta aflição.
Abriu o trinco da porta
lá estava o desbocado
junto ao velho cadeirão
pernas ao alto
e todo o braço enfiado
num buraco do sobrado.
"D.Tina! D.Tina!
boa alma de vizinha!"
(não tem nada de santinha
mas tudo é permitido
na procura de final
na presente situação).
Volta ele:
"D. Tina! D. Tina!
Minha querida vizinha!
Quer ver que me esparramei
abri até ao rés-do-chão
e seguro o candeeiro
da sala em baixo
de D.Anunciação.
Surda que nem um soco
não ouviu a confusão
dorme a paz dos anjos
ressona como uma foca.
Que faço eu?
Se o largo cai em cima
se seguro caio eu!"
D.José então suplica:
"D.Tina! D.Tina!
Minha rica vizinha!
Vá lá baixo por favor
leve a escada manca
que está ali no arrumo
mesmo ao pé do corredor!"
"D. José! Oh D. José!
Já lá vou! Já lá vou!
Não grite tanto!
Já sabe como eu sou
desde que a Maria Rita
garota endiabrada
me arrumou com o livro
o do Camilo
"O amor de perdição"
junto ao ouvido
sofro de enxaqueca
dói-me demais a cabeça!
Fale baixo! Assim é que é!
Já lá vou! Já lá vou!"
Saiu D. Tina
fica D. José no chão.
Merecia fotografia
em três planos
um em cima
outra na descida
de escada na mão
por último de xaile preto
"Rrr..Rrr...Rrr..Rá...Rá...Rá..."
sem acordar
a D. Anunciação!
quarta-feira, 29 de abril de 2009
A dança dos afectos

São inexactos nos tamanhos
como as pedras que nos deixam as marés.
São tamanhos como escarpas
pois nunca se destrinçam os liames
nem a altura das pirâmides.
São os afectos como águas
na barragem em período de valias
suspensos e no momento imediato
em disparos de cataratas nas largadas
como filhos de cotovia nos vastos ares
que imensos são medonhos ficam.
São sensíveis como estames
nos lábios do silêncio das flores
e dançam nos quentes mimos do sol
quando extintas as sombras
em passos parados de girassol.
Animam-se de pequenos nadas e invenção
de sonhos e histórias crescidas nos lagos
nas estacas de suporte de verdes juncos
que unidos juntam forças nas danças
de pequenos insectos de pernas longas
no equilíbrio das superfícies.
Os afectos mesmo que mínimos
nas alegrias
são crianças distraídas num campo de violetas
em corridas sem cuidados
aos afios dos cardos
ao esconderijo das urtigas.
Os afectos não se explicam
existem como néctar
como vida
como "prima ballerina".
O castelo de Sofar
Procuro o castelo de Sofar
nas montanhas de Jahir.
Decido exausto a pausa na jornada
a vinte mil léguas do lugar
nas dunas de Aquiserá.
No coberto improviso de uma tenda
dentro vejo estrelas cor de chumbo
existo horizontal quedo no espaço
único de um prisma concentrado
o meu mundo.
Quando dói o corpo e se sente
o esqueleto solto o músculo lasso
desiste o olhar qualquer que seja a Lua
crescente decrescente cheia nova
indistinta; hiberna na ausência
adormece em qualquer tempo
de sossego ou ventania.
Abre-se a gruta do descanso
o silêncio.
Não sei quanto dura. Muito ou pouco
o cansaço e o recobro no primeiro sono.
Mas sei que depois o sonho
como capa e envoltura
cobre melhor o ombro a testa absurda
hesitante e insegura
na força que reafirma certezas
a golpes de cimitarra
aos inimigos do desejo
da procura.
Procuro as montanhas de Sofar
nas colinas de Jahir.
Amanhã será o dia das mil sortes
da estrela polar
voltarei a partir.
nas montanhas de Jahir.
Decido exausto a pausa na jornada
a vinte mil léguas do lugar
nas dunas de Aquiserá.
No coberto improviso de uma tenda
dentro vejo estrelas cor de chumbo
existo horizontal quedo no espaço
único de um prisma concentrado
o meu mundo.
Quando dói o corpo e se sente
o esqueleto solto o músculo lasso
desiste o olhar qualquer que seja a Lua
crescente decrescente cheia nova
indistinta; hiberna na ausência
adormece em qualquer tempo
de sossego ou ventania.
Abre-se a gruta do descanso
o silêncio.
Não sei quanto dura. Muito ou pouco
o cansaço e o recobro no primeiro sono.
Mas sei que depois o sonho
como capa e envoltura
cobre melhor o ombro a testa absurda
hesitante e insegura
na força que reafirma certezas
a golpes de cimitarra
aos inimigos do desejo
da procura.
Procuro as montanhas de Sofar
nas colinas de Jahir.
Amanhã será o dia das mil sortes
da estrela polar
voltarei a partir.
terça-feira, 28 de abril de 2009
3ª fase do Workshop de Escrita Criativa
Vai arrancar a 3ª fase do Workshop de Escrita Criativa (Poesia), sob a orientação da Professora Ana Luísa Amaral .
Para proceder à inscrição contactem a reitoria.
As datas estão confirmadas e são as seguintes:
- 06 de Maio de 2009
- 13 de Maio de 2009
- 20 de Maio de 2009
- 27 de Maio de 2009
- 03 de Junho de 2009
email para informações:
rrodrigues@reit.up.pt
contactos reitoria:
Universidade do Porto - Reitoria - IRICUP
Praça Gomes Teixeira, 4099-002 Porto
T: +351 220 408 193
Fax: +351 220 408 184
Para proceder à inscrição contactem a reitoria.
As datas estão confirmadas e são as seguintes:
- 06 de Maio de 2009
- 13 de Maio de 2009
- 20 de Maio de 2009
- 27 de Maio de 2009
- 03 de Junho de 2009
email para informações:
rrodrigues@reit.up.pt
contactos reitoria:
Universidade do Porto - Reitoria - IRICUP
Praça Gomes Teixeira, 4099-002 Porto
T: +351 220 408 193
Fax: +351 220 408 184
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