terça-feira, 2 de abril de 2019
Lançamento do livro de Ana Margarida Borges
Lançamento do livro de Ana Margarida Borges "Talvez se me emprestares um desses versos"
(Margaretta Gomes no facebook)
55 poemas com versos/expressões emprestados de diferentes autores que serviram de mote à criação de um novo texto
Apresentação: Teresa Almeida Pinto
Antero Afonso, Celeste Pereira, Luz Norton lerão textos do livro
Música João Loio
Editor Estratégias Criativas
Local: MIRA FORUM
DESOBEDIÊNCIA
Ainda
olhou para trás.
Se pudesse levar o passado na mochila
da juventude que julgava eterna.
Porta-te bem — gritavam as vozes da despedida.
Já não sabia o que era isso — o bem e o mal
Se pudesse levar o passado na mochila
da juventude que julgava eterna.
Porta-te bem — gritavam as vozes da despedida.
Já não sabia o que era isso — o bem e o mal
tinha-os
despachado há muito tempo para a morada de todas as indecisões.
A geografia dos lugares põe à prova os anjos e os demónios
A geografia dos lugares põe à prova os anjos e os demónios
que
nos habitam.
Partiria sim à descoberta de uma nova gramática para o gesto da desobediência.
As mulheres sempre souberam tomar conta das casas.
Agora era a vez de tomar conta de si e embarcar sem mapa até ao fim das coisas
que
se colam à pele Partiria sim à descoberta de uma nova gramática para o gesto da desobediência.
As mulheres sempre souberam tomar conta das casas.
Agora era a vez de tomar conta de si e embarcar sem mapa até ao fim das coisas
e sobrevivem
à dureza dos anos.
à dureza dos anos.
Ana Margarida Borges
* Verso "pedido de empréstimo" a Ana Luísa Amaral
domingo, 30 de dezembro de 2018
A caminho do Natal
imagem retirada daqui
Se a paz vier, acolhe-a, mas, se não chegar,
procura-a no fundo de ti mesmo
e se a distração te dificultar a busca da luz,
recolhe-te até a encontrares –
este tempo de anúncio e de promessa
é do Natal caminho de esperança, seguro e salutar –
há em teu redor olhares brilhando, o do Menino,
também, iluminando
os que se cruzam contigo e se chegam a ti
suplicantes, crentes na revelação e na partilha
É assim o Natal, despojado e magnânimo,
e tu és essencial na sua construção, porque
assim será sempre história singular –
Natal, 2018
José Almeida da Silva
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
É que o som não existe
e é injusto que te fale
de onda tão fria e escura
é do corpo
essa dança
sem som
sem que o som
fora dele exista
para o fazer dançar
e sendo tão lenta em mim
a ausência de um som
que só existe em ti
de música foste capaz
não fria
não escura
em levíssima quebra de espaço
antes da imagem
de ser tua
tão resolvida
em estado fundamental
de um arrepio
sem fundamento
que até mim pelo espaço quebrado
dançou
não te falo ainda
em nome da dança
terça-feira, 27 de novembro de 2018
1. Silêncio
Verso ante verso
espreito a hora
na demora do mês.
Verso ante verso
espreito o coração
espera quente o soneto.
Verso ante verso
espreito a mesa
cheia de afecto.
2. Reencontro
Reencontro velhos poetas
Companheiros de sonhos e versos
Sala-abraço quente
irmãos de mesa e prosa
Reencontro guardadores de tempo
Trazem ao colo a saudade que embalam em silêncio
para que se possa ouvir o amor no cantar do vento
Reencontro velhos poetas
estes que me ouvem
Sala-abraço doce
irmãos de sonhos e versos
Reencontro guardadores de tempo
Trazem ao colo a verdade que embalam em silêncio
na palavra em movimento
Reencontro velhos poetas
novos guardadores de estrelas
que me levam numa delas.
Liliana Castro
Empurro
o silencio________________________até ao limite da folha.
Sem
som nem silaba,
apenas
a sombra do silencio
aguarda
as palavras que virão
discriminação____corrupção____poluição____
A
cada palavra a folha grita por um minuto de silencio.
Ouso
uma virgula – um pequeno silencio no texto,
e
teorizo: a humanidade nasceu cega e surda,
num
parto de excessiva luz e ruído.
Big
Bang … depois o silencio
Deus
silenciou ao sétimo dia
Só
assim se compreende Auschwitz____Srebrenica____Alepo____
e
todas as geografias distantes do coração e da razão.
Um
minuto de silencio não basta
e
ficar calado é mais perigoso
que
arriscar uma voz.
A
ciência tenta apurar se o silencio tem sexo, idade ou cor.
As
conclusões são imprecisas, mas aceita-se como empiricamente correto
que
á noite o silencio é mais negro,
mais
pesado,
mais
difícil de afastar da folha em branco.
Escrevo:
“Dó” sustenido em tom pianíssimo,
para
não acordar o silencio das crianças que dormem com fome
e
das que não dormem, com medo de quem as silencia.
Escrevo:
fascismo____islamismo____individualismo____
Há
gritos em fila á espera de se fazerem ouvir
Há
gritos atormentando o planeta, no sentido dos ponteiros do relógio
e
já nem fronteiras acatam.
Não
há fronteiras – só divisões desorientadas
Um
minuto de silencio é cada vez mais longo
mais
cansativo
mais
inútil.
A
utopia está em silencio
e
o poema também.
Teresa
Almeida Pinto
Não queres fazer o
silêncio / comigo?
Ana Luísa Amaral
Pediste-me um silêncio
solidário.
Acolhi-o. Que mais poderia
fazer?
Um silêncio assim de mão
dada
é um diálogo para sempre –
uma espécie de amor sem
palavras,
entendimento aceso que dura
todo
o tempo do caminho.
Um livro simples a escrever-se
como um tricô amando a agulha
e o fio –
intensa claridade do belo.
Sacudamos, pois, a distração
e o cuidado
dos dias e, silenciosos,
sigamos de mãos dadas,
porque é tempo de acontecer o
reencontro
do silêncio. Do teu e do meu,
enlaçados
nesta inusitada aliança.
Não falamos, mas encorpa-se o
poema –
esse modo singular de parar o
tempo
e dar eternidade à música do
silêncio.
Será, então, contínua a
sintonia
e dela soará a sua voz
porque são raros os silêncios
iluminados
para calar o intenso ruído do
mundo –
[2018.11.23]
José
Almeida da Silva
Um lugar para o silêncio
Procuro
um lugar próprio para
o
silêncio Um refúgio de infinita
sentar-me
e estar parada –
no
redor do mundo
Esse
lugar perfeito com vidros voltados
para
a chuva onde quero
desenhar
em segredo
os
esboços e os vocabulários
de
todas as conversas em que
havemos
de perder-nos As línguas
intactas
e as ideias todas potáveis
Um
lugar antigo e intocado
de
equívocos nenhuns Onde a distância
de
olhar vem desacompanhada
de
qualquer outra espécie de distância
Procuro
um lugar como uma janela aberta
em
portadas feitas de fogo e de mar Um lugar
sem
esquecimento possível
Trago
um mapa defeituoso e desfocado e –
por
isso Pelo carrego de culpas e medos que
nunca
mais crescem e me desabitam a alma –
sigo
em passos de tropeço lento
nutridos
de inépcia e intuição em partes
talvez
iguais É assim que
no
meio do silêncio
procuro
um lugar de reencontro
Raquel Patriarca
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
O Som que os Versos Fazem ao Abrir de 21 Nov 2018 - RTP Play - RTP
O Som que os Versos Fazem ao Abrir de 21 Nov 2018 - RTP Play - RTP

Fotografia retirada da revista Visão

Fotografia retirada da revista Visão
Esplanada
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'
A música e o reencontro dos sonhos
![]() |
Lilla Cabot Perry (EUA, 1848-1933)
há músicas que nos invadem os ouvidos
e descem pelas cordas da alma
como as ondas do mar em milhares de gotas
brancas como a lua
em miríade leve, pura, húmida.
um olhar de mil versos e dez mil palavras –
escuto, deitado, a longitude do som nas latitudes do corpo
a intersecção do oblíquo e de um ritmo síncrono
o reencontro dos sonhos, as sintonias das ilhas -
porque há dias marcados e claridades sem labirintos
onde teias completas de bordados
tecem o improviso, o juntar de dedos, o fechar de braços
o unir de lábios em planícies indizíveis -
nas mãos coloco as linhas dobradas da mente
os quadros sem a negritude do ressentimento
o voar dos pressentimentos, as histórias das cidades:
espumas que procuram asas na amplitude de voarem
como os pássaros –
josé ferreira
domingo, 25 de novembro de 2018
Novembro: em silêncio junto ao vidro
a chuva
incisiva percorria as formas do jardim
trazia o
ruído às grandes árvores: refúgio de múltiplas vidas
como as
formigas e o nosso esquilo:
descendo e
subindo, descendo e subindo
na
distância inclinada do teu olhar, em silêncio e sabedoria
perante o
que não se explica, se grava e se guarda
como
momento significativo –
Novembro é
um mês a caminho e o mês do armistício.
e lembro-me
do discurso do dia onze, lúcido e sem nacionalismos
porque já
houve um mundo sem sono em dias longínquos –
uma centena
de anos. uma centena de anos.
difícil
escrever poemas quando ressuscitam os instrumentos mortíferos.
os olhos
fecham, as trincheiras de uma guerra feroz gritam
porque os
generais não sendo modernos já não subiam aos montes
e na
segurança de um fumo de charutos
decidiam a
vida e o sacrifício de quem plantava nabos e hortaliça –
o mundo de
18 não dormia, eram longas as noites, eram longos os dias –
quando a
chuva parou, clarearam os novelos escurecidos, e o nosso esquilo subia
atravessava
as linhas de luz naquela silhueta levantada de unhas pequeninas
parava e
subia –
transformava-se
a árvore em montanha de silêncio
povoada de inúmeras
gotículas - um quadro magnífico!
a natureza
supera-se sempre sem a necessidade de liturgias
apenas o
homem tem ópio na alma quando o poder
em pernas tortas caminha –
o nosso
esquilo tinha pressa de novidade: uma outra árvore, um outro ponto de vista
de um mundo
que não vê globalizado: não sabe do Brexit nem das tiranias Sauditas
da ameaça
dos populismos, dos líderes imprevisíveis, nem das falsas notícias.
os esquilos
não ousam mudar a duração das noites e dos dias
nem
percebem nada de mundos líquidos onde nascem profetas de utopias
como um
super-homem de economias e tecnologias.
espreitando
no silêncio bom de uma sala morna
perante o
ecrã de areia e sílica, na transparência súbita de um dia ocasional
os teus olhos
sorriam.
esquecida
de um teto e de um chão, sossegada, tranquila
viajavas na
planície do pensamento, no intervalo entre as palavras:
como Sophia
eras dona da história de um jardim: sublime, raro, irreplicável –
em silêncio
junto ao vidro o mundo podia adormecer
não se
ouviam os braços assustados da natureza.
mesmo
quando se despediam de folhas coloridas –
quarta-feira, 11 de abril de 2018
domingo, 24 de dezembro de 2017
Allegro
Precisa de um berço o Menino
que está para nascer,
Precisa de um coração solícito
e acolhedor,
Vai revelar-se na grande Noite,
e transborda de Amor –
Natal, 2017
José Almeida da Silva
que está para nascer,
Precisa de um coração solícito
e acolhedor,
Vai revelar-se na grande Noite,
e transborda de Amor –
Natal, 2017
José Almeida da Silva
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
"O MAR PARECE AZEITE” ATELIER DE POESIA COM ANA LUÍSA AMARAL
“A poesia começa quando um idiota olha para o mar e diz: «parece azeite»”.
O Atelier de poesia
conduzido pela poeta Ana Luísa Amaral, realizar-se-á nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018, e terá a duração total de 10 horas: Sábado dia 27, das 10:00 ás 17:00, com intervalo para almoço, e Domingo dia 28 de Janeiro das 10:00 ás 14:00.
conduzido pela poeta Ana Luísa Amaral, realizar-se-á nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018, e terá a duração total de 10 horas: Sábado dia 27, das 10:00 ás 17:00, com intervalo para almoço, e Domingo dia 28 de Janeiro das 10:00 ás 14:00.
terça-feira, 21 de março de 2017
Quando vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
7-11-1915
Porque é dia de poesia, com carinho, para os companheiros poetas, um abraço do José Almeida da Silva
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 87.
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.
Porque é dia de poesia, com carinho, para os companheiros poetas, um abraço do José Almeida da Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)





