a chuva
incisiva percorria as formas do jardim
trazia o
ruído às grandes árvores: refúgio de múltiplas vidas
como as
formigas e o nosso esquilo:
descendo e
subindo, descendo e subindo
na
distância inclinada do teu olhar, em silêncio e sabedoria
perante o
que não se explica, se grava e se guarda
como
momento significativo –
Novembro é
um mês a caminho e o mês do armistício.
e lembro-me
do discurso do dia onze, lúcido e sem nacionalismos
porque já
houve um mundo sem sono em dias longínquos –
uma centena
de anos. uma centena de anos.
difícil
escrever poemas quando ressuscitam os instrumentos mortíferos.
os olhos
fecham, as trincheiras de uma guerra feroz gritam
porque os
generais não sendo modernos já não subiam aos montes
e na
segurança de um fumo de charutos
decidiam a
vida e o sacrifício de quem plantava nabos e hortaliça –
o mundo de
18 não dormia, eram longas as noites, eram longos os dias –
quando a
chuva parou, clarearam os novelos escurecidos, e o nosso esquilo subia
atravessava
as linhas de luz naquela silhueta levantada de unhas pequeninas
parava e
subia –
transformava-se
a árvore em montanha de silêncio
povoada de inúmeras
gotículas - um quadro magnífico!
a natureza
supera-se sempre sem a necessidade de liturgias
apenas o
homem tem ópio na alma quando o poder
em pernas tortas caminha –
o nosso
esquilo tinha pressa de novidade: uma outra árvore, um outro ponto de vista
de um mundo
que não vê globalizado: não sabe do Brexit nem das tiranias Sauditas
da ameaça
dos populismos, dos líderes imprevisíveis, nem das falsas notícias.
os esquilos
não ousam mudar a duração das noites e dos dias
nem
percebem nada de mundos líquidos onde nascem profetas de utopias
como um
super-homem de economias e tecnologias.
espreitando
no silêncio bom de uma sala morna
perante o
ecrã de areia e sílica, na transparência súbita de um dia ocasional
os teus olhos
sorriam.
esquecida
de um teto e de um chão, sossegada, tranquila
viajavas na
planície do pensamento, no intervalo entre as palavras:
como Sophia
eras dona da história de um jardim: sublime, raro, irreplicável –
em silêncio
junto ao vidro o mundo podia adormecer
não se
ouviam os braços assustados da natureza.
mesmo
quando se despediam de folhas coloridas –













