Caderno de Almada Negreiros
(Texto de Almada Negreiros em português original)
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só maneira para todas as especies de seus vassalos! Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu seja Mestre! Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial conselheiro»! Não achas, Mãe? O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se aprendia a ler antigamente. * * * * * Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade. * * * * * Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade.













