imagem daqui
li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
Herberto Helder: A faca não corta o fogo lido aqui
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
os edifícios precisam ser substituídos por raízes
imagem daqui
nas cidades suspensas os edifícios precisam de ser substituídos
por raízes.
da física estática para a dinâmica de células fluidas.
é uma questão de oxigénio quando se procura as asas das
borboletas
porque são únicas e sem indício
vestidas da transparência natural de existirem:
sem o humano e a
filosofia dos sentidos –
é a surpresa que importa e não a rotina. o que sempre acontece é previsível.
como a visita da lua ou a luz excedente do astro que se
estende
sem a seta e sem destino, sem o sensível e o sibilino –
o mesmo acontece quando o meu ombro e o teu ombro existem, e
é física.
sem o reencontro são desperdício: uma redundância de
silêncios
na campânula dos ouvidos –
é apenas segunda-feira e sucede de novo o ano e a cronologia:
semanas e meses, a geometria dos números, como promessa, sem simbologia.
não desvelam o devir, a escrita dos interstícios
e só isso importa enquanto o pêndulo oscila
pela diferença e pelos navios
pelo invisível: o significativo sem o concreto dos cimentos
e das tecnologias –
os edifícios são lugares sem autonomia, destituídos de artérias e veias
não circulam nem imaginam. apesar da génese comum na
arquitetura das avenidas
são diferentes as rugas e os signos: na vértebra quatro a contar de
cima, o sinal
na pedra cinco, à direita da segunda janela, os pós cinzentos
que mudam a cor das borboletas
para que sobrevivam -
as cidades são instrumentos e estão suspensas, porque nunca
é delas a narrativa
são objeto, são construídas –
quando caminhas, quando escolhes um lenço de seda ou uma
manta de ovelha
um sapato alto ou o andar próximo das sabrinas, és movimento
–
a singularidade crítica que origina o poema, permanente ou
efémera
nos olhos que estão e são, ou são e não estão, naquele
fragmento imprevisível.
passando, passando, em passando, pelos trajetos da cidade e
pelos milhares de olhos
feitos edifícios e pelas ruas que os alinham, que os tornam
altos e os destroem
na sombra das almas que os significam. que os tornam
necessários e representativos
suspensos, sem raízes, na sede do segredo
do segredo e das narrativas –
josé ferreira
josé ferreira
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
memória viva
Elisabeth Forbes, The Leaf, 1897-1898
sabes, no silêncio são memória viva as pedras flamejantes da lareira
grande
mãos invisíveis de cobertor que confortam as faces de rosas
em brasa –
faz algum tempo crescia em mim este destino, este cavalgar
de ondas
como o navio de espelhos de um outro poeta, sem ritmo e sem
regras
no único princípio de um pensamento: não devemos guardar as
palavras
mesmo que digam muito e nunca digam tudo nas fronteiras de
signo –
de novo a ordem incerta dos versos incendeia-me os sentidos
e as mãos voam
na forma que te define: as curvas do ombro, o caminho
conhecido de um sinal
a extensão longilínea, até onde o braço desliza –
sabes,existes magnífica,sempre que os olhos se fecham nestas planícies
sem limites
e, se a perfeição é um mito, subsistes única, ali tão perto
singular e significativa, naquele fragmento vivido por onde
flutuam os jacintos
aromas, gestos de sinfonia e o som dos violinos –
não imaginei as ondas altas, o sal e as algas em agitada
dança
procurando essa praia de areias movediças.
e, tudo começou na tua natureza de seres sensível
antes de ser Natal e antes de ser um primeiro dia
quando recolhíamos pinhas em chão de carumas, naquele sussurro de
sorrisos -
para ir além da promessa, das folhas estaladiças, da superfície
ao luminoso lugar onde se desvela a utopia –
josé ferreira
josé ferreira
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
A Luz na Escuridão
Fotografia daqui https://blog.myheritage.pl/2013/12/swieta-konkurs-na-najstarsze-zdjecia-swiateczne/
Não sabia que é tão bela
a escuridão se nela habitam
todas as estrelas
que iluminam o assombro
que tantas vezes me dá
sentido à vida
É que o jorro de luz
é tão intenso
que me deslumbra
e me lembra o Natal
da minha infância
Surpreende sempre a magia –
Dezembro, 2016
José
Almeida da Silva
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Tripas coração tantas memórias
Tripas coração tantas memórias
O mar longínquo dança-lhe no olhar
É longe o porto para o alcançar
E oculta grande parte do caminho.
O Infante sabe-o mais que ninguém,
E o que é preciso também e solta a
sua súplica – E a carne para levar?
São muitas as bocas a comer, e os
Nautas hão-de ser heróis por dar a
Saber ao Mundo novos mundos
Estendendo ao longe o nosso Império.
Quem não faz das tripas coração
Para um tão nobre intento invicto?
– O Porto empunhou o estandarte:
Repartiu e escolheu a menor parte.
Assim pelo coração se fez tripeiro –
2011.03.15
José Almeida da
Silva
terça-feira, 26 de abril de 2016
imagem de Robert Ullmann
mas os meus cabelos escurecem
a pele fica mais lisa
as ideias curiosas como criancinhas
saltitantes de olhos esbugalhados
porque tudo isto é um milagre.
E a cama rangendo
sempre que me viro –
gosto de deitar-me de um lado
depois do outro repetidas vezes
na noite longa
– um lado e depois o outro.
Às vezes durmo de barriga para baixo
como quando era pequena.
Envelhecer é sonhar com
ser criança.
A cama queria ser berço.
Eu queria caber no colo quente da minha mãe.
Marta Pais de Oliveira
publicado AQUI
quarta-feira, 13 de abril de 2016
eu do avesso
o avesso do meu avesso não sou eu é o avesso
do avesso de eu.
na matemática é diferente
a negação da negação é uma operação simples
e peculiar e única que não acrescenta
nem retira atributos.
mas com o avesso do meu avesso nada se passa
assim. o meu avesso invade-me serve-se
dos fantasmas que me habitam e usa a sua magia
para me ampliar o desassossego. e o seu avesso
que é o avesso do avesso de eu
transmuda com a mesma agudeza
o efeito do anterior. por isso cada vez mais
eu me confundo
irremediavelmente
com o meu desassossego.
M. Céu Silva (SLV)
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Livro para Luaty Beirão
A liberdade começa nos teus braços
Quando olhas o mundo de asas abertas
E vais à descoberta das estórias
Escondidas num livro de gestos proibidos.
Sacodes os ruidos que te abafam
E escutas os sons das silabas em movimento
Há palavras estendidas no chão vermelho
Da terra quente
E tu lês,
até ferirem teus olhos,
A distância que vai de ti ao sopro longinquo de um rubro cravo
De abril do outro lado
Do mar português _
E no rosto vendado
Da verdade
Escreves
quanto dói
A liberdade
E vais à descoberta das estórias
Escondidas num livro de gestos proibidos.
Sacodes os ruidos que te abafam
E escutas os sons das silabas em movimento
Há palavras estendidas no chão vermelho
Da terra quente
E tu lês,
até ferirem teus olhos,
A distância que vai de ti ao sopro longinquo de um rubro cravo
De abril do outro lado
Do mar português _
E no rosto vendado
Da verdade
Escreves
quanto dói
A liberdade
ana margarida borges
terça-feira, 5 de abril de 2016
Leite-Creme
Mostrar-te Leite-creme
é um prazer - e fácil:
açúcar à colher,
leite a ferver,
em poalha a farinha
e muito grácil.
Na cozinha,
os teus olhos:
duas chávenas meias
de razão.
As palavras totais
e todas claras.
Não te posso, infinita,
proteger,
evitar-te o fogão.
Mentir-te sobre, às vezes,
minha filha,
a vida:
um batedor sem varas
Só deixar-te
poalha de farinha:
amor
em Via-Láctea.
Ana Luísa Amaral in Epopeias
domingo, 3 de abril de 2016
Adoro ler-te
Imagem: Fiona Banner
Adoro ler-te,
nas entrelinhas das tuas frases.
Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus gestos.
Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus toques.
Adoro ler-te.
Teresa Freitas, in therasia
sexta-feira, 25 de março de 2016
Tenho
as mãos cheias de dunas
e
saudades
As
mãos cheias de possibilidades
e
um mar para navegar.
As
dunas entre mim
e
as possibilidades.
Tenho
uma inquietação idunável
e
um mas … [sempre um mas]
a
impedir que
o
mar se faça
futuro
Teresa
Almeida Pinto
Foto
de Filipe Carneiro, selecionada pelo
FineArt-Portugal
quinta-feira, 24 de março de 2016
sexta-feira, 18 de março de 2016
pedaços
Imagem de Derya Qasem
hoje
colo os pedaços das memórias
enlaçados
ficam poemas de Pessoa e Sena
em meadas de aço
e aguarelas de Cruz suspensas
em azul de espanto
e as cantatas de Bach e as árias de Puccini
e tantas e tantos outros
e ficam os códices que toquei
com luvas brancas
irrepreensivelmente limpas
que me transportaram a passados
remotos
ao todo faltam porções de vida
diluída no tempo
e sobram fragmentos de arestas ácidas
que recupero dos momentos
sombrios
impossível desconjuntar esta amálgama
imperfeita
de ferro e algodão
M. Céu Silva (SLV)
quinta-feira, 17 de março de 2016
Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite
Ana Luísa Amaral traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite.
A Ronda da Noite
(clicar no link para aceder ao video)
A Ronda da Noite
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