sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A faca não corta o fogo

                        imagem daqui

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a 

paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega


Herberto Helder: A faca não corta o fogo lido aqui

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

os edifícios precisam ser substituídos por raízes

imagem daqui

nas cidades suspensas os edifícios precisam de ser substituídos por raízes.
da física estática para a dinâmica de células fluidas.
é uma questão de oxigénio quando se procura as asas das borboletas
porque são únicas e sem indício
vestidas da transparência natural de existirem:
sem o humano e a filosofia dos sentidos –

é a surpresa que importa e não a rotina.  o que sempre acontece é previsível.
como a visita da lua ou a luz excedente do astro que se estende
sem a seta e sem destino, sem o sensível e o sibilino 

o mesmo acontece quando o meu ombro e o teu ombro existem, e é física.
sem o reencontro são desperdício: uma redundância de silêncios
na campânula dos ouvidos –

é apenas segunda-feira e sucede de novo o ano e a cronologia:
semanas e meses, a geometria dos números, como  promessa, sem simbologia.
não desvelam o devir, a escrita dos interstícios
e só isso importa enquanto o pêndulo oscila
pela diferença e pelos navios
pelo invisível: o significativo sem o concreto dos cimentos e das tecnologias –

os edifícios são lugares sem autonomia, destituídos de artérias  e veias
não circulam nem imaginam. apesar da génese comum na arquitetura das avenidas
são diferentes as rugas e os signos: na vértebra quatro a contar de cima, o sinal
na pedra cinco, à direita da segunda janela, os pós cinzentos que mudam a cor das borboletas
para que sobrevivam -
as cidades são instrumentos e estão suspensas, porque nunca é delas a narrativa
são objeto, são construídas –

quando caminhas, quando escolhes um lenço de seda ou uma manta de ovelha
um sapato alto ou o andar próximo das sabrinas, és movimento –
a singularidade crítica que origina o poema, permanente ou efémera
nos olhos que estão e são, ou são e não estão, naquele fragmento imprevisível.
passando, passando, em passando, pelos trajetos da cidade e pelos milhares de olhos
feitos edifícios e pelas ruas que os alinham, que os tornam altos e os destroem
na sombra das almas que os significam. que os tornam necessários e representativos
suspensos, sem raízes, na sede do segredo

do segredo e das narrativas –

josé ferreira 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

memória viva

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Elisabeth Forbes, The Leaf, 1897-1898

sabes, no silêncio são memória viva as pedras flamejantes da lareira grande
mãos invisíveis de cobertor que confortam as faces de rosas em brasa –

faz algum tempo crescia em mim este destino, este cavalgar de ondas
como o navio de espelhos de um outro poeta, sem ritmo e sem regras
no único princípio de um pensamento: não devemos guardar as palavras
mesmo que digam muito e nunca digam tudo nas fronteiras de signo –

de novo a ordem incerta dos versos incendeia-me os sentidos e as mãos voam
na forma que te define: as curvas do ombro, o caminho conhecido de um sinal
a extensão longilínea, até onde o braço desliza –

sabes,existes magnífica,sempre que os olhos se fecham nestas planícies sem limites
e, se a perfeição é um mito, subsistes única, ali tão perto
singular e significativa, naquele fragmento vivido por onde flutuam os jacintos
aromas, gestos de sinfonia e o som dos violinos –

não imaginei as ondas altas, o sal e as algas em agitada dança
procurando essa praia de areias movediças. 
e, tudo começou na tua natureza de seres sensível
antes de ser Natal e antes de ser um primeiro dia
quando recolhíamos pinhas em chão de carumas, naquele sussurro de sorrisos -

para ir além da promessa, das folhas estaladiças, da superfície
ao luminoso lugar onde se desvela a utopia –

josé ferreira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Luz na Escuridão

Fotografia daqui https://blog.myheritage.pl/2013/12/swieta-konkurs-na-najstarsze-zdjecia-swiateczne/




Não sabia que é tão bela
a escuridão se nela habitam
todas as estrelas
que iluminam o assombro
que tantas vezes me dá
sentido à vida

É que o jorro de luz
é tão intenso
que me deslumbra
e me lembra o Natal
da minha infância

Surpreende sempre a magia –
                                          Dezembro, 2016

                                      José Almeida da Silva

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tripas coração tantas memórias


Tripas coração tantas memórias 
O mar longínquo dança-lhe no olhar 
É longe o porto para o alcançar 
E oculta grande parte do caminho. 
O Infante sabe-o mais que ninguém,
 
E o que é preciso também e solta a 
sua súplica – E a carne para levar? 
São muitas as bocas a comer, e os 
Nautas hão-de ser heróis por dar a 
Saber ao Mundo novos mundos 
Estendendo ao longe o nosso Império. 

Quem não faz das tripas coração 
Para um tão nobre intento invicto? 
– O Porto empunhou o estandarte:
 Repartiu e escolheu a menor parte. 

Assim pelo coração se fez tripeiro –
2011.03.15
José Almeida da Silva

terça-feira, 26 de abril de 2016

imagem de 

Envelheceu a cama
mas os meus cabelos escurecem
a pele fica mais lisa
as ideias curiosas como criancinhas
saltitantes de olhos esbugalhados
porque tudo isto é um milagre.
E a cama rangendo
sempre que me viro –
gosto de deitar-me de um lado
depois do outro repetidas vezes
na noite longa
– um lado e depois o outro.
Às vezes durmo de barriga para baixo
como quando era pequena.
Envelhecer é sonhar com
ser criança.

A cama queria ser berço.
Eu queria caber no colo quente da minha mãe.

Marta Pais de Oliveira
publicado AQUI 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

eu do avesso

Digital Art: Federico Bebber

o avesso do meu avesso não sou eu é o avesso
do avesso de eu.
na matemática é diferente
a negação da negação é uma operação simples
e peculiar e única que não acrescenta
nem retira atributos.

mas com o avesso do meu avesso nada se passa
assim. o meu avesso invade-me serve-se
dos fantasmas que me habitam e usa a sua magia
para me ampliar o desassossego. e o seu avesso
que é o avesso do avesso de eu
transmuda com a mesma agudeza
o efeito do anterior. por isso cada vez mais
eu me confundo
irremediavelmente
com o meu desassossego.

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Livro para Luaty Beirão

A liberdade começa nos teus braços 
Quando olhas o mundo de asas abertas
E vais à descoberta das estórias 
Escondidas num livro de gestos proibidos.
Sacodes os ruidos que te abafam
E escutas os sons das silabas em movimento
Há palavras estendidas no chão vermelho
Da terra quente
E tu lês,
até ferirem teus olhos,
A distância que vai de ti ao sopro longinquo de um rubro cravo
De abril do outro lado
Do mar português _
E no rosto vendado
Da verdade
Escreves
quanto dói
A liberdade

ana margarida borges

terça-feira, 5 de abril de 2016

Leite-Creme


Mostrar-te Leite-creme 
é um prazer - e fácil: 
açúcar à colher, 
leite a ferver, 
em poalha a farinha 
e muito grácil.

Na cozinha, 
os teus olhos: 
duas chávenas meias
de razão.
As palavras totais 
e todas claras. 

Não te posso, infinita, 
proteger, 
evitar-te o fogão. 
Mentir-te sobre, às vezes, 
minha filha, 
a vida: 
um batedor sem varas

Só deixar-te
poalha de farinha:
amor 
em Via-Láctea. 


Ana Luísa Amaral in Epopeias 

domingo, 3 de abril de 2016

Adoro ler-te

Imagem: Fiona Banner 

Adoro ler-te,
nas entrelinhas das tuas frases.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus gestos.

Adoro ler-te,
nas entrelinhas dos teus toques.

Adoro ler-te.

Teresa Freitas, in  therasia 

sexta-feira, 25 de março de 2016


Tenho as mãos cheias de dunas
e saudades
As mãos cheias de possibilidades
e um mar para navegar.

As dunas entre mim
e as possibilidades.

Tenho uma inquietação idunável
e um mas … [sempre um mas]
a impedir que
o mar se faça
futuro

Teresa Almeida Pinto
Foto de Filipe Carneiro, selecionada pelo FineArt-Portugal

quinta-feira, 24 de março de 2016

ilustração de Chris Mars

Doí-me como te torturas,
descarnando-me da tua pele,
no ensejo vão
de me fazeres
ferida

Teresa Almeida Pinto 

sexta-feira, 18 de março de 2016

pedaços

Imagem de Derya Qasem 

hoje
colo os pedaços das memórias
enlaçados
ficam poemas de Pessoa e Sena
em meadas de aço
e aguarelas de Cruz suspensas
em azul de espanto
e as cantatas de Bach e as árias de Puccini
e tantas e tantos outros

e ficam os códices que toquei
com luvas brancas
irrepreensivelmente limpas
que me transportaram a passados
remotos

ao todo faltam porções de vida
diluída no tempo
e sobram fragmentos de arestas ácidas
que recupero dos momentos
sombrios

impossível desconjuntar esta amálgama
imperfeita
de ferro e algodão

M. Céu Silva (SLV)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite

Ana Luísa Amaral  traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite. 
A Ronda da Noite

(clicar no link para aceder ao video)