domingo, 24 de janeiro de 2016

O ROSTO DO MEU VIZINHO

1.
O rosto do meu vizinho, o professor
cuja mulher morreu,
ficou nu de repente, sem protecção nenhuma.
Sempre que nos cruzávamos no pátio
e ele começava de súbito a falar, de uma maneira franca,
das coisas todas que o recordavam dela,
era como se eu visse o seu rosto pela primeira vez.

Como a casa em frente –
resguardada até há pouco por um castanheiro imenso,
mas destruiu-a uma tempestade e teve de ser cortada.
E antes que a fenda cresça, habitada pelo hábito,
vejo as janelas da casa, a vida por detrás, acontecendo.

2.
Uma camisa de cor pálida. A cabeça de um patrício romano.
Um lugar de estacionamento inviolado
junto de um muro baixo, onde, depois da chuva,
os caracóis estacionam também.
Durante muito tempo pensei: o perfeito cavalheiro
que atravessa uma vida ordenada, certa,
tal como passa pelo pátio, todas as manhãs.
Nunca lhe dei mais de setenta anos.

Tem oitenta, disse-me no outro dia,
esteve no ghetto de Varsóvia em criança.
O pai e o irmão morreram. A mãe e ele sobreviveram.

Alina Szapocznikow escreveu sobre o baptismo do desespero.
Tantos em silêncio, que nunca falaram daquilo por que passaram.


Poema de Krystyna Dabrowska
(traduzido do inglês por Ana Luísa Amaral)
A saudade
tem teto
e soalho:
é uma casa
vazia. 

Teresa Almeida Pinto 

sábado, 23 de janeiro de 2016

As Casas

Pelas casas que habitam 
em mim
crescem aprumadas 
as trepadeiras
muros altos de verde
impossível 
floridos –
às vezes –
de cores mais quentes.

As casas
como estúdios
indulgentes
entornam a cidade
nas janelas
cantam de amigos e
vizinhança
jardins comunais onde –
de verão –
nascem pimentos e sardinhas
de São João.

As casas
como faróis isolados –
mar imenso
silente ou zangado
única e verdadeira companhia –
habitam a vontade que
em mim
se abriga do mundo
tão agreste. 

Entre as casas que trago
comigo
há corredores extensos
vazios
onde os pensamentos
ecoam
sempre demais.

Há recintos de
sol
nas clarabóias.
E varandas
de vidro claro
onde a
chuva de Janeiro
vem escorrer.

Salas de lume e
gatos
ao colo.

Quartos escuros
assombrados
de medos em vão.

Há cozinhas de
mesas alargadas
a servir
os gostos que a vida traz.

Salinhas pequenas
para costura
onde nada se borda
além da memória –
mãos pequeninas

dedais a cair  
costura de pontilhado
imperfeito
em pano de ternura
inteira. 

As casas
que senti construir
têm despensas repletas
de livros
e lugares cativos
nos cadeirões.

Têm abraços –
secretos e revelados –
que se guardam à beira
da porta, 
no cabide grande
de todos os agasalhos.

Um salão de baile
para as dúvidas
dançarem à solta.

E uma viga mestra onde
se pousam –
como os pássaros –
os absolutos.

Têm sempre um sótão
para sonhar
e uma escada
para subir.

Um jardim com terra
para mexer
uma árvore – ou duas –
a crescer 
ou a florir.

Vou chegando, vivendo e partindo
hóspede
sedentária ou peregrina
de lugar em lugar.

Eu
em casas nenhumas
só o desassossego de
vir a ser
como desconhecida
ou ausente entre
as casas
que habitam em mim. 
raquel patriarca
vinteedois.janeiro.doismiledezassete

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...



Mário de Miranda Quintana (Alegrete, Rio Grande do Sul, Brasil, 30 de Julho de 1906 - 1994)  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal
















Às três horas da tarde 
do dia 24 de Dezembro 
um triste lança possibilidades ao mar 
Talvez procure companhia,  
ou um final feliz no fim da linha 
ou que se afogue 
a consoada de quezílias e hipocrisias
O mar está bravo 
a linha esticada 
mas não há bacalhau 
no mar de S. Felix
muito menos finais felizes

Teresa Almeida Pinto 
24.12.2015


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Metade de mim

Sou metade de mim
e estou inteira

A vida dividiu-me
só de um lado

Rasura cruel de maneira
a fazer desencontrar
o espaço intacto

Metade tão perfeita
embora queira

Curar no meu oposto
o que é rasgado

Maria Teresa Horta (Lisboa, 1937-) in Inquietude

terça-feira, 23 de junho de 2015


Houve um dia, na história do tempo, que não teve ontem.
Enganou-se o tempo e o dia ficou.

Toda a minha presença são palavras,
às vezes penso, às vezes existo.


Teresa Freitas

sexta-feira, 20 de março de 2015

Dos rios





Dos rios corridas águas
sobre vagas escondidas
quantas foram, manhã perdi
em tristezas assim tão frias
e, se então não valeu a pena
funda fenda dessas gentes
de mim esquecidas
superfícies deslizantes
só, tempo de antes passado
hoje, sem temor de quebrar
também da dor de coração
no entanto, bem se saberá
todas as viagens são sem fim

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015









 Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu , que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite.
Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês

Em que pensar senão em ti
Tu que destilaste desejos inéditos na minha pele
Tu que deste um nó clássico no meu coração
Tu que rasuraste as esquinas do meu estômago,
até á náusea do amor,
até ao enfarte
até ao enfado da separação


Teresa Almeida Pinto

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Estou tonto

2560x1600 Wallpaper man, sitting, chair

imagem daqui


Estou tonto, 
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 
Ou de ambas as coisas. 
O que sei é que estou tonto 
E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto. 

Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto ... 

Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto ... 

Sim, verdadeiramente tonto... 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada. 

Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto... 
Tonto. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"  lido aqui

ser

imagem daqui


somos sempre um sonho por inventar
indiferente às polaridades e ao racional
assim como gotas de chuva caídas da nuvem nova
sempre originais.
somos a aura de uma manhã legítima

o acontecimento que os signos procuram explicar –

josé ferreira 16 fevereiro 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

É Isto o amor

Renoir 1883 (imagem daqui)


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 

Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'  lido aqui

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

o valor de uma lágrima

imagem daqui

qual o valor de uma lágrima no teor de sal irrepetível?
elevado ou dispensável?
talvez na proporção inversa da velocidade
segundo a profundidade dos poros ao descer a colina –

qual o valor de um grito ou de um gesto de desvario?
um prato partido na parede inocente
um copo na mão trémula, caindo, tingindo a toalha na cor do vinho –

qual o valor de um sentimento que se sente como uma montanha infinita?
depois de tanto tempo, na substância do presente
feito de vermelho e branco

e de palavras antigas –


josé ferreira 6 fevereiro 2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O poeta, mera bicicleta,
corre sem fim,
atrás de um preciso              outro Verão.

Olhos abertos de mar,
esquecidos de ti ,
maresia de espaço,
recoberta de ontem,
areia de livros,
heterónimos  de nós ,
gelados de toques,
sabor a tantos como nós ,
correntes submersas
de sim                           
 e de não.

O poeta, mera bicicleta,
poros cerrados,
principio do fim
 poema inacabado,
daquele preciso                    outro Verão.


Teresa Freitas

Desinspiração exemplar



Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar.                    Herberto Helder

 

Lá vai o poeta
pedalando no gerúndio,
por um dia de chuva exemplar
(por acaso Verão)

Lá vai o poema colado aos pedais
a rimar na contramão
das balelas gramaticais
- Segura-te ó Musa, olha que cais!

Poeta e poema, pé no pedal
pela viela dos vocábulos
á procura do símbolo
das sílabas fatais:
inspiração com uis e com ais
e varias metáforas banais

Lá vai a Musa de Lamborghini …
-Bicicleta ?!!!
Que a pedale o poeta!


 Teresa Almeida Pinto