1.
O
rosto do meu vizinho, o professor
cuja
mulher morreu,
ficou
nu de repente, sem protecção nenhuma.
Sempre
que nos cruzávamos no pátio
e
ele começava de súbito a falar, de uma maneira franca,
das
coisas todas que o recordavam dela,
era
como se eu visse o seu rosto pela primeira vez.
Como
a casa em frente –
resguardada
até há pouco por um castanheiro imenso,
mas
destruiu-a uma tempestade e teve de ser cortada.
E
antes que a fenda cresça, habitada pelo hábito,
vejo
as janelas da casa, a vida por detrás, acontecendo.
2.
Uma
camisa de cor pálida. A cabeça de um patrício romano.
Um
lugar de estacionamento inviolado
junto
de um muro baixo, onde, depois da chuva,
os
caracóis estacionam também.
Durante
muito tempo pensei: o perfeito cavalheiro
que
atravessa uma vida ordenada, certa,
tal
como passa pelo pátio, todas as manhãs.
Nunca
lhe dei mais de setenta anos.
Tem
oitenta, disse-me no outro dia,
esteve
no ghetto de Varsóvia em criança.
O
pai e o irmão morreram. A mãe e ele sobreviveram.
Alina
Szapocznikow
escreveu sobre o baptismo do desespero.
Tantos
em silêncio, que nunca falaram daquilo por que passaram.
Poema
de Krystyna Dabrowska
(traduzido do inglês por Ana
Luísa Amaral)








