segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ser

imagem daqui


somos sempre um sonho por inventar
indiferente às polaridades e ao racional
assim como gotas de chuva caídas da nuvem nova
sempre originais.
somos a aura de uma manhã legítima

o acontecimento que os signos procuram explicar –

josé ferreira 16 fevereiro 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

É Isto o amor

Renoir 1883 (imagem daqui)


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 

Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'  lido aqui

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

o valor de uma lágrima

imagem daqui

qual o valor de uma lágrima no teor de sal irrepetível?
elevado ou dispensável?
talvez na proporção inversa da velocidade
segundo a profundidade dos poros ao descer a colina –

qual o valor de um grito ou de um gesto de desvario?
um prato partido na parede inocente
um copo na mão trémula, caindo, tingindo a toalha na cor do vinho –

qual o valor de um sentimento que se sente como uma montanha infinita?
depois de tanto tempo, na substância do presente
feito de vermelho e branco

e de palavras antigas –


josé ferreira 6 fevereiro 2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O poeta, mera bicicleta,
corre sem fim,
atrás de um preciso              outro Verão.

Olhos abertos de mar,
esquecidos de ti ,
maresia de espaço,
recoberta de ontem,
areia de livros,
heterónimos  de nós ,
gelados de toques,
sabor a tantos como nós ,
correntes submersas
de sim                           
 e de não.

O poeta, mera bicicleta,
poros cerrados,
principio do fim
 poema inacabado,
daquele preciso                    outro Verão.


Teresa Freitas

Desinspiração exemplar



Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar.                    Herberto Helder

 

Lá vai o poeta
pedalando no gerúndio,
por um dia de chuva exemplar
(por acaso Verão)

Lá vai o poema colado aos pedais
a rimar na contramão
das balelas gramaticais
- Segura-te ó Musa, olha que cais!

Poeta e poema, pé no pedal
pela viela dos vocábulos
á procura do símbolo
das sílabas fatais:
inspiração com uis e com ais
e varias metáforas banais

Lá vai a Musa de Lamborghini …
-Bicicleta ?!!!
Que a pedale o poeta!


 Teresa Almeida Pinto



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O “poema”

O poema olha-me de viés enquanto escrevo.
Reclama palavras teatrais,
conjugações antológicas:
uma pequenina luz bruxuleante
um ramalhete rubro de papoulas
uma alameda inteira de rododendros


Olho o papel em branco
e o poema agiganta-se
Adamastonda-se
Pede mar, mar, muito mar
(daquele de ir e voltar)
e amor também:
se possível urgente,
com um nadinha de Penélope

Digo-lhe que sou pequena, que não sou nada,
que da minha aldeia não se vê o mundo.
- Mas ser poeta é ser mais alto e por um poema tudo vale a pena.
Responde

Eu não sei conjugar pretéritos perfeitos
nem sonhar em sereno sobressalto,
mas ele exige desinências complexas
e palavras esdrúxulas,
a saber a chocolate e eternidade.
Quer sílabas capazes de atravessar o deserto
sonetos que ardam sem se ver
e odes marítimas a cheirar a pátria

Não sei se o poema me levará no tempo
quando eu já não for eu


No fundo de mim, sei que o traí,
pois ainda não escrevi
o poema que acaba aqui.

Teresa Almeida Pinto


Para além da alusão a vários poemas, este “poema” tem referências directas de:
Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena
O ramalhete rubro das papoulas, Cesário Verde
O Excesso Mais Perfeito, Ana Luísa Amaral
Tabacaria, Álvaro de Campos
Ser Poeta, Florbela Espanca
Mar Português, Fernando Pessoa
Poema, Sophia de Mello Breyner

sábado, 17 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral no Ípsilon: O que é Cultura Geral?

                                         


Ana Luísa Amaral

Poeta, professora universitária, 1956


Obras seleccionadas:
O Cavaleiro da Dinamarca Sophia de Mello Breyner
Toda a poesia de Emily Dickinson
O Jogador Dostoievski
As peças (quase todas) e os sonetos de William Shakespeare
A canção Veinte años Patxi Andión
A poesia toda de William Blake
A canção A noite passada Sérgio Godinho
O acto O coro dos escravos hebreus, Ópera Nabucco, de Verdi
A tapeçaria A Dama e o Unicórnio
Tempos ModernosCharlie Chaplin

O que é que pode lançar mundos no mundo? A arte, o pensamento, a palavra — e talvez, no exercício dela e na paixão por ela, a palavra da poesia, porque é a menos sujeita às leis do mercado, a mais livre. A palavra faz sentir e faz pensar. Por esta razão, por exemplo, para o estado de ditadura social em que nos movemos, a incultura e a falta de pensamento são úteis: porque uma pessoa que pensa é uma pessoa que questiona, que exige, que resiste.

Se pensarmos que a palavra “cultura” vem de “cultivar” e que se refere inicialmente ao amanho da terra, então ela tem que ver com preparação, com cuidado, com aprimoramento de capacidades que estão latentes em todos e todas nós e que vão sendo desenvolvidas através da comunicação. Ter cultura geral incluiria conhecer a Bíblia, claro, tanto quanto a Pietá, incluiria saber do folclore de um povo, tanto quanto apreciar Bach, incluiria entender as razões para a Revolução Francesa, tanto quanto perceber a guerra económica e social movida pelo que foi a chamada “bolha de Wall Street”...

As pessoas que passaram pela minha vida e que foram fundamentais para a minha formação foram várias. Penso na minha tia, Manuela Amaral, que eu amava e admirava; em duas professoras que tive no colégio onde andei, Dora de Vilhena, que lia poemas em voz alta na aula, e Isabel Lago. Com a Isabel Lago li O Cavaleiro da Dinamarca, e essa leitura foi fundamental: senti a beleza da palavra, quase no seu estado puro. Muito mais tarde, já na faculdade, uma professora de Cultura Norte-Americana, Cristina Ribeiro, abriu-me o mundo para “os outros” Estados Unidos, na sua dimensão de discriminação, de violência, de racismo. Deu-me autores como Langston Hughes, Aimé Cesaire (ainda me lembro de cor de partes de Cahiers d’un retour au pays natal). Mais tarde, Maria Irene Ramalho, que me orientou o doutoramento e me ensinou a verticalidade que a literatura traz. Depois, os meus alunos todos, ao longo de tantos anos de ensino; com eles me formei também. De alguns, destaco Marinela Freitas, minha colega agora. E ainda o meu pai, que me ensinou uma ética de vida. E a minha filha, que me ensinou e continua a ensinar a crescer e a ser melhor pessoa. Com todos eles e todas elas, aprendi a ler o mundo — e a ler mundos.

Eu acho que devia ser ensinado o que faz parte das artes, da ciência, da ética, do conhecimento, do pensamento humanos. Acharia muito bem estudar os Beatles, desde que se falasse dos anos 1960 e do que eles significaram em termos de movimentos sociais, e do feminismo, e das minorias; tal como, no caso do jazz, de como ele nasce, e a propósito disso, da questão da chamada “Renascença de Harlem” nos Estados Unidos e, ligada a ela, da exploração da identidade e, com ela relacionada, do racismo e por aí fora...

“Grandes descobertas/acontecimentos”: é de ordem enciclopédica. Mas falar na relatividade implicaria mostrar o seu impacto a diversos níveis. O que quero dizer é que uma disciplina de Cultura Geral, a existir, deveria ser transdisciplinar e comparatista, relacionando tudo com tudo. Como tudo está, de facto, relacionado com tudo. Até mesmo mostrar que, em 1940, um escritor como Hemingway oferece a um romance seu um título como Por quem os Sinos Dobram porque existiu três séculos antes dele um poeta chamado John Donne que escreveu um poema que dizia: “Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”

Platão expressou-se de uma forma que é comum às Ciências e às Humanidades. Ou seja, expressou-se em palavras. Mais facilmente uma pessoa das Ciências consegue ler o que Platão escreveu do que uma pessoa de Letras consegue perceber Física Quântica. Porque Platão usa uma linguagem que, embora servindo-se de conceitos filosóficos, é mais comum a todos nós. E essa linguagem organiza o pensamento, ordena-o, cria questionamentos sobre o nosso lugar como humanos no mundo, interroga-nos e interroga o mundo, na própria constituição de conceitos.

Excerto de Público  11 Janeiro 2015: 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Quart(z)o adverso


Imagem daqui

sobressaíram poucos sonhos na noite pesada.
cada um para seu lado na prisão das almofadas.
não é uma novidade nessa clausura de Bergman:
um olhar fixo sobre a praia cinza, uma máscara branca
a porcelana fina –
existem marcas nos tectos da casa por detrás de portas fechadas.
as marcas não se pronunciam, subsistem e são sem ruído.
respira-se um ar de chumbo como na subida de uma serra fria:
sob um nevoeiro opaco, lento, contínuo, onde se inscrevem signos
palavras de caligrafia sem o som da língua
silêncios recorrentes na improbabilidade dos caminhos –


não estamos longe nem perto nesse quartzo adverso  –

josé ferreira 13 janeiro 2015

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014


"ESCRITA CRIATIVA - WORKSHOP – por Ana Luisa Amaral

Destina-se a todos os interessados na escrita de poesia, nos seus contextos de produção e nos seus processos. Partindo de vários textos (teóricos e poéticos), que cobrirão não só diferentes períodos literários e diferentes estilos, mas ainda questões relativas ao sexo de quem escreve, pretende-se sensibilizar os participantes para os diversos tipos de escrita literária, incentivando ainda a escrita da poesia."

Biblioteca Almeida Garrett

5 sessões à 3.ª feira das 18h30 às 21h30
Jan: 13,20, 27
Fev.: 03 e 10

Informação e inscrições: 22 6081000; bib.agarrett@cm-porto.pt
 — em Biblioteca de Almeida Garrett.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sonhos de Natal

É frio o tempo, e há que aconchegar-nos,
Agora os dias são de vento anunciador –
E haja o que houver, a ternura que circula
No sangue do amor vai trazer de volta
Sonhos e calor – e a Mãe sorrindo já foi
Para a cozinha, e no balcão, fervido o leite, o óleo,
A casca de limão e o sal fino, juntou-lhe a farinha
E amassou-a com as mãos de afetos, e o coração
Alegre esperou pela massa a arrefecer. Juntou, depois,
Os ovos, um a um, como aos filhos da sagrada união.
O calor do amor subiu, e as colheradas de massa muito fina
Fizeram-se nuvens bem douradas, polvilhadas com açúcar
Em pó e com canela – ouro de estrelas muito belas a piscar.
O brilho dos olhares e os sorrisos invadiram, então, a casa toda
(Ah o bem-estar que vem de dentro desta dulcíssima memória!) –

O vento do Natal faz circular o cheiro quente dos sonhos a frigir
Nos corações, uma espécie de música que toca o verbo amar –


José Almeida da Silva, 2014.12.20

Poema de Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

sábado, 8 de novembro de 2014

Psicanálise da escrita

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga


Ana Luísa Amaral


O mal de escrever é que nos bastamos a nós próprios!

Estamos lá. Sentimos. Os outros percebem – no ou não.

Há um contexto, que depois se torna texto. Aí somos nós e a escrita. Bastamo –nos. No lápis e no papel, no correr das linhas, estamos ainda mais lá. Já misturámos o sentir, o ser, o desejar, em infinitas perspetivas. A mão faz o resto. O papel guarda- o eternamente.

Teresa Freitas 
Retirado daqui 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cidade Velha

Muitas vezes, para voltar a minha casa
vou por uma escura rua da cidade velha.
Amarelo em algumas poças se espelha
algum candeeiro, e está a rua apinhada.

Aí entre quem vem e quem vai
da taberna a casa ou ao lupanar,
onde são mercadorias e homens o detrito
de um grande porto de mar,
eu encontro, quando passo, o infinito
na humildade.
Aqui a prostituta e o marinheiro, a mulher
a brigar, o velho que impreca,
o dragão que se senta na lojeca
do fritador,
a tumultuosa jovem enlouquecida
de amor,
são todas criaturas da vida
e da dor;
nelas se agita, como em mim, o Senhor.

Aqui sinto com os humildes com que alinho
tornar-se o meu pensamento
mais puro onde mais torpe é o caminho.

Umberto Saba (1883-1957)
Poesia (uma antologia de Il Canzoniere)
(selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Príncipe - um poema de Ana Hatherly


imagem daqui
Príncipe: 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir 
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir 
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira 
a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me. 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me 

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" lido aqui