um fundo verde e um banco de madeira.
um recorte de dois vultos na moldura de um vidro.
uma janela em guilhotina.
uma esvoaçante cortina.
qual o valor de um gesto sem som à distância de um sorriso?
qual o valor do que se imagina?
analfabetos emocionais
dizia Bergman nos filmes.
existe uma prisão dos sentidos na pele que segura os
pensamentos
um mapa de linhas com
rios parados
sem fluidos
sem serem fluidos, sem fluírem. rios de tinta, rios precisos,
rios impossíveis.
uma caricatura sem margens, um espaço indefinido –
existe um lugar de sonho em todos os jardins e em todos os lugares por
onde viajam os rios
a possibilidade de uma autobiografia em que mudam as plantas
e em que se tingem as folhas
como na época das vindimas: a cor dos bagos e a cor vermelha
de um mosto doce
numa espuma frágil
que desliza –
em Outubro o sol brilha. por vezes uma nuvem
e pelas manhãs um
orvalho miudinho. um arrepio.
alguns dias sucedem sem bússola, desorientam-se, experienciam-se
e permanecem límpidos.
como naquele dia: um dia de luz, uma túnica branca de linho,
uma aragem sensível
um dia sem que alguém pudesse imaginá-lo assim.
um dia sem índice, sem a cartografia falsa dos mapas coloridos.
naquele dia havia um rio e um verde enlouquecido
uma janela aberta e o esvoaçar de uma cortina –
josé ferreira 4 outubro 2014