Muitas vezes, para voltar a minha casa
vou por uma escura rua da cidade velha.
Amarelo em algumas poças se espelha
algum candeeiro, e está a rua apinhada.
Aí entre quem vem e quem vai
da taberna a casa ou ao lupanar,
onde são mercadorias e homens o detrito
de um grande porto de mar,
eu encontro, quando passo, o infinito
na humildade.
Aqui a prostituta e o marinheiro, a mulher
a brigar, o velho que impreca,
o dragão que se senta na lojeca
do fritador,
a tumultuosa jovem enlouquecida
de amor,
são todas criaturas da vida
e da dor;
nelas se agita, como em mim, o Senhor.
Aqui sinto com os humildes com que alinho
tornar-se o meu pensamento
mais puro onde mais torpe é o caminho.
Umberto Saba (1883-1957)
Poesia (uma antologia de Il Canzoniere)
(selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos)
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Príncipe - um poema de Ana Hatherly

imagem daqui
Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me
Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" lido aqui
domingo, 5 de outubro de 2014
Muda de Vida ou Muda de Poema - um poema de Gonçalo M. Tavares

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Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.
Gonçalo M. Tavares, in 'A Perna Esquerda de Paris' lido aqui
sábado, 4 de outubro de 2014
uma visita inesperada

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um fundo verde e um banco de madeira.
um recorte de dois vultos na moldura de um vidro.
uma janela em guilhotina.
uma esvoaçante cortina.
qual o valor de um gesto sem som à distância de um sorriso?
qual o valor do que se imagina?
analfabetos emocionais
dizia Bergman nos filmes.
existe uma prisão dos sentidos na pele que segura os
pensamentos
um mapa de linhas com
rios parados
sem fluidos
sem serem fluidos, sem fluírem. rios de tinta, rios precisos,
rios impossíveis.
uma caricatura sem margens, um espaço indefinido –
existe um lugar de sonho em todos os jardins e em todos os lugares por
onde viajam os rios
a possibilidade de uma autobiografia em que mudam as plantas
e em que se tingem as folhas
como na época das vindimas: a cor dos bagos e a cor vermelha
de um mosto doce
numa espuma frágil
que desliza –
em Outubro o sol brilha. por vezes uma nuvem
e pelas manhãs um
orvalho miudinho. um arrepio.
alguns dias sucedem sem bússola, desorientam-se, experienciam-se
e permanecem límpidos.
como naquele dia: um dia de luz, uma túnica branca de linho,
uma aragem sensível
um dia sem que alguém pudesse imaginá-lo assim.
um dia sem índice, sem a cartografia falsa dos mapas coloridos.
naquele dia havia um rio e um verde enlouquecido
uma janela aberta e o esvoaçar de uma cortina –
josé ferreira 4 outubro 2014
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
o impossível esquecimento do ser

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hoje não devia procurar as palavras
virar a esquina
atravessar no vermelho do semáforo.
devia ficar quieto como os plátanos
pousar as pálpebras como asas lisas
e subir a noite
quando as árvores estão sossegadas –
devia adormecer sem fundamentos sensíveis
com as músicas smooth e os teus olhos de prata
nos reflexos dos nitratos, um espelho sob a lua
e um traço branco na longitude dos mares –
há cansaços bem sei, os dias estão tão fechados.
doem-te os braços, as pernas, a curva dos ombros
nunca houve um agosto igual.
a minha cabeça está cheia de sombras nas emoções do lembrado
Benjamim e Hanna, o
esquecimento do ser , as metáforas;
as viagens são melhores que as chegadas –
já te disse que as multidões são mais felizes quando há sol?
talvez não, nem interessa, a vida já é tão complicada.
e depois o mar, sim o mar, o mar vasto, o mar gigante
reassumindo a força de cavalos desgrenhados –
o mar é um moinho de palavras
o mar é o sal e as escamas, os continentes são demasiado sólidos
apenas
margens.
tão irreal e tão aberto este modo de olhar as águas
agora escuras e agora tão paradas.
e ao mesmo tempo vê-las assim tão ilimitadas –
escrevo-te num outro dia , os tímpanos são tambores índios
hoje sinto-me um prometeu agrilhoado
os olhos estão cobertos de sombras do passado -
mas a natureza é tão leve no jardim quieto junto ao mar
tão leve tão leve tão leve, não há ruídos de carros nem som de passos na estrada
a natureza acalma: aquela folha, aquela glicínia rosada
acalma os sentimentos
e leva-me as palavras –
domingo, 17 de agosto de 2014
a cidade que fluía

imagem daqui
não passou nenhuma das passantes de Baudelaire.
nem aquela alma singular no meio da multidão
de que falava Poe naquele fim de tarde invulgar.
a cidade roía a corda invisível do tempo sem prisão nem
abismo.
fluía na sua indiferença fria dos dias habituais.
e é preciso tão pouco
tão pouco e mais nada
para que te estenda a mão –
como quem desprende uma cortina
numa janela demasiado larga, demasiado nua
demasiado lúcida, quando a luz é demasiada.
é preciso tão pouco para desvanecer no teu corpo
na curva dos teus braços mesmo que fechados
apesar do movimento dos barcos –
tão pouco e mais nada
para que as gaivotas pousem na solidez dos muros
e as muralhas acabem –
e os olhos, os olhos, os olhos, os olhos
os olhos como margens
no sublime incrível de se transformarem em asas –
.josé ferreira 17 de agosto 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
Entre o linho e o olhar

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Nesse branco mero instante
Em que te vi chegar
Soltou-se do lado esquerdo
Um brando ruído de mar
Estendeu-se com a maresia
Passeou pelo areal
Debruçou-se na varanda
Na luz líquida do olhar –
O reflexo de muitas ondas
Corria no mármore das faces
Mais de luz menos de sombras
Nas crinas de outros mares –
Não foi instante fatal
Nem grau zero racional
Mais forte a curva dos dedos
Em mãos leves de luar
–
Na manhã mais boreal
Aves andam no ar
Passos na porta lado
Uma chave a rodar –
E nesse branco mero instante
Não como era habitual
Pousaste de novo o rosto
Entre o linho e o olhar –
josé ferreira 6 Agosto 2014
sábado, 9 de agosto de 2014
Shakespeare arredondilhado
O raio da redondilha
da ode e do soneto.
Pode remar com ilha
e rematar em terceto
E como vou começar
tão difícil TêPêCê?
…. William Shakespeare
pouco li, nem sei porquê …
pois cá vou eu asneirar!
Há tantas tragedias
de faca e alguidar
e tantas comedias
mais pra rir que pra chorar!
As doudas das comadres,
os donos do castelo,
alguns bobos e padres,
mais o mouro do Otelo
que caiu na ratoeira
ficou tão negro, sem ver
louco de ciumeira!
Mas eis aqui a questão:
Julieta e Romeu
numa noite de Verão
abraçaram o Morfeu
e mataram a paixão!
Hamlet também morreu
e Cordélia não viu tostão!
Não sei mais que escrever
Sobre o bife inglês
Nada mais há pra dizer
E acabou, um, dois, três!
Teresa Almeida Pinto
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
O mito

Imagem daqui
O mito
Fosse o mito a realidade,
Sempre o Mundo pensaria
E o Homem sonharia
Uma nova Humanidade.
Mas não. O sonho, afinal,
Anda tão longe da Terra,
Que os homens sobem a serra
Apenas pelo vil metal.
E fosse o mito a verdade
E o Homem sonhador,
Não faltaria o Amor
Dentro da mesma Cidade.
Por isso, a desilusão,
Sentida por todos nós,
Face à crença dos Avós
No Mito e na Religião.
José Almeida da Silva
Os mitos

imagem daqui
Os mitos são sempre assim
E correm mundo no tempo
E sem nenhum contratempo
Vivem um tempo sem fim.
O mundo acolhe e venera,
Sempre com a mesma paixão,
Esses heróis da ilusão
Em que a vida sempre
impera.
Todos sabem e alimentam
Essas histórias de então
Que acolhem no coração,
E que nunca experimentam.
José Almeida da Silva
De mim falarei somente
Imagem daqui
De mim falarei somente
nesse fim de tarde de uma Noite opaca.
As estrelas serão então a única luz
– Candeia de lua dançando para mim
no mar da ternura dos teus olhos.
Não sei o que direi. Não o medo, por certo.
Nem a alegria dos momentos felizes,
por certo, também não. Essa vive há tempos
na eternidade da nossa memória.
Falarei decerto do amor colhido da árvore
dos dias em que não estivemos de mãos dadas
– Tempo de chuvas e dores, e um vento de
ira
que levava a nossa ternura para longe do
coração.
Em silêncio os teus dedos leves fecharão os
meus olhos
sem luz. Depois, se eu puder e a verdade
sorrir,
hei de acenar-te da luz da Estrela da Manhã
como se te dissesse só então o Amor
de corpo inteiro – disse o meu pai.
José Almeida da Silva
Cordélia e o Rei Lear
“The way of this sad time we must
obey;
Speak what we feel , not what we ought to say” W. Shakespeare
esquece e perdoa pois não há dor que doa
em ninguém de forma igual.
és única, sabes, como um trevo de pétalas simbólicas
como uma brisa ou um raio de sol que leva a chuva do mar:
pouco a pouco, em sequência morna de dedos invisíveis
a deslizar, a deslizar –
os nossos poemas são
formas e linhas de pele
há um sumo de alma em cada um deles
um lugar de tempo e espaço, um rio de sangue
por vezes, um oceano de palavras acariciando as rochas
e subsiste a longitude dos olhos, as memórias e as baías desiguais.
se falo de mim? mas sempre falamos de nós, sempre falamos de
nós.
numa medida sem dono,
sem o sossego das métricas
sem o peso definido do número e da percentagem.
uma ilusão que nos ilude sempre como se fosse verdade
uma verdade inalcançável, singular e infinita –
há nevoeiro ao acordar, uma cor cinza. lembras-te de
Shakespeare?
lembras-te do Rei Lear? tinha três filhas e uma era original.
Cordélia era o seu nome e põe-me sempre a pensar.
era única, sabes. e no fim, é uma tragédia:
em cinco actos, quatro mortes e uma lição moral.
se reparares bem, o rei não resistiu à tempestade
pediu que o coração falhasse.
partiu com a sua dor numa piedade de cima.
a coroa era uma casca de ovo, partida e vazia (disse-lhe o
Bobo).
a sua Rainha há muito adormecida e os cavaleiros perdidos
e Cordélia, de lábios abertos não criava a névoa
o fumo breve, na imagem fugidia dos espelhos.
o corpo de Cordélia já não era aquele que jazia
era o outro, imanente e intangível na imagem reflectida –
porquê ficar? o Rei na sua dor, que era só sua, partia.
sabes, és única. vejo interrogações nas tuas pestanas de
libelinha
na tua pele luzidia.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
o nevoeiro passa. o nevoeiro vai passar –
sabes, na história do Rei Lear, há quatro mulheres
fundamentais
a génese e um mundo de falsas velocidades. tudo tão rápido.
uma voz ausente de mãe e não há descendentes.
o Rei de França que recebe a alma mais pura
ausenta-se inexplicavelmente, não cuida:
Cordélia sem vida, como Antígona.
depois as duas irmãs, iguais na ambição, na traição e na perfídia
desvanecidas, entre o veneno e uma lâmina assassina.
por fim os homens. os bons homens predominam.
mulheres nenhumas para as últimas palavras, as da epígrafe.
por fim distribuem-se títulos, terras e honrarias.
a paz predomina. um ciclo e um círculo como as noites e os
dias.
os teus dedos são ainda aves que ondeiam os cabelos por
detrás dos ouvidos.
sorris sempre com esse gesto simples de levantar uma cortina
de deixar entrar luz na superfície da pele
na curva definida do rosto.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
a tua dor é singular, assim a minha, ocupa um centro
não se divide. é um bom indício –
josé ferreira 6 Agosto 2014
Primeira Redondilha
Há uma cola de contacto
Há uma cola de contacto
Invisível mas segura
Toda de inspiração pura
Não é de arroz a receita
Do livro doutra senhora
Que_em tempo remoto fora
Tesouro doutra colheita
Nem modernice suspeita
De marca branca_ou escura
Não tem cheiro nem textura
Nem cola ninguém ao tecto
Nem coisas assim patetas
Prende_entre si os poetas
Em alma e não no objecto
Neste pequeno projecto
Que_aperta mais a costura
Enquanto o poema dura
raquel patriarca |
sete.agôsto.doismilecatorze
Segunda redondilha
Feita parva no café
Feita parva no café
As palavras a fugir
E as rimas a seguir
Onde está a Lianor
Que tanto jeitinho dava
Pois já Camões ajudava
A rimar como_um senhor
Mas a mim dá-me_o calor
Ponho lápis a fingir
E_as palavras a mentir
Dedos em tique nervoso
Na mesa_a tamborilar
São patas de_aranha a_andar
Que escrevem sem repouso
Um poema mal fermoso
Com_as palavras a fugir
E eu quase_a desistir
Não sei que faça_à escritura
Nem ás voltas das ideias
Só me saem rimas feias
Estragadas na cesura
Lianor pela verdura
E eu atrás dela a rir
Com_as palavras a dormir
raquel patriarca |
sete.agôsto.doismilecatorze
A biblioteca
Eramos só os quatro a respirar
o meu pai, eu e as minhas duas irmãs
Nós
Nós
apertadas no escuro
que era estreito e morava entre corredores
que eram estreitos e moravam entre estantes –
altas pesadas
absolutas
–
carregadas de todos os títulos de todos os livros
Ele
Ele
solene gutural
com o vagar da velhice e da eternidade
falava da sabedoria do mundo,
falava da sabedoria do mundo,
do sonho da viagem da ciência
do amor da
poesia do engenho da história
que nos deixava tudo em
herança de guardar e proteger
Isto
Isto
é a humanidade que resta –
dizia –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer
Eu
e fechava os olhos e preparava-se para morrer
Eu
desobediente
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros
A humanidade vive nas crianças
A humanidade vive nas crianças
a alegria e a verdade e a
promessa categórica de todas as coisas que
são boas vive nas crianças
Havemos de querer guardar as crianças
Não haverá crianças para guardar –
Havemos de querer guardar as crianças
Não haverá crianças para guardar –
dizia o meu pai – os filhos
da tragédia serão sempre velhos e
velhos serão os seus filhos e netos e nenhum
será criança e em todos viverá humanidade nenhuma,
nada que preste de guardar ou proteger
e fechava os olhos e preparava-se para morrer
Morria de pé no meio do silêncio
Morria de pé no meio do silêncio
que era fundo e morava entre corredores
que eram fundos e moravam entre estantes –
altas pesadas absolutas –
carregadas de todos os títulos de todos os livros
Lá fora – do outro lado
Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia uivava e a sua voz era a ruína do
mundo e a desgraça da humanidade
feita em escombros vazios de
toda a semântica ou qualquer préstimo
Lá fora – do outro lado
Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia invocava razões –
altas pesadas absolutas – mentiras –
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros
Isto é a humanidade que resta –
rezava o meu pai – a vossa
herança de guardar e proteger e
entregar a ninguém a não ser
ao tempo e à memória –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer
E nós –
E nós –
desobedientes –
chorámos a tragédia e engolimos a escuridão
e escondemos em cada livro uma criança
em cada título um nome, escrito de
alegria e de verdade e da
promessa categórica de todas as coisas que
são boas
Eramos só as três a respirar
Eramos só as três a respirar
eu e as minhas duas irmãs –
de braços estendidos as palmas das mãos
viradas para cima a receber o sol
que não tinha fim e veio morar nos corredores
que não tinham fim e moravam entre estantes –
altas pesadas absolutas –
onde se guardavam todas as crianças do mundo
entre todos os títulos de todos os livros
Isto
Isto
é a humanidade que resta –
preparámo-nos para morrer e fechámos os olhos
raquel patriarca
sete.agôsto.doismilecatorze
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