domingo, 17 de agosto de 2014

a cidade que fluía

imagem daqui

em frente de um vidro duplo de um café vulgar
não passou nenhuma das passantes de Baudelaire.
nem aquela alma singular no meio da multidão
de que falava Poe naquele fim de tarde invulgar.
a cidade roía a corda invisível do tempo sem prisão nem abismo.
fluía na sua indiferença fria dos dias habituais.

e é preciso tão pouco
tão pouco e mais nada
para que te estenda a mão –

como quem desprende uma cortina
numa janela demasiado larga, demasiado nua
demasiado lúcida, quando a luz é demasiada.
é preciso tão pouco para desvanecer no teu corpo
na curva dos teus braços mesmo que fechados
apesar do movimento dos barcos –

tão pouco e mais nada
para que as gaivotas pousem na solidez dos muros
e as muralhas acabem –

e os olhos, os olhos, os olhos, os olhos
os olhos como margens
no sublime incrível de se transformarem em asas –


.josé ferreira 17 de agosto 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Entre o linho e o olhar

sleeplovediscourse
imagem daqui

Nesse branco mero instante
Em que te vi chegar
Soltou-se do lado esquerdo
Um  brando ruído de mar

Estendeu-se com a maresia
Passeou pelo areal
Debruçou-se na varanda
Na luz líquida do olhar –

O reflexo de muitas ondas
Corria no mármore das faces
Mais de luz menos de sombras
Nas crinas de outros mares –

Não foi instante fatal
Nem grau zero racional
Mais forte a curva dos dedos
Em mãos leves de luar –

Na manhã mais boreal
Aves andam no ar
Passos na porta lado
Uma chave a rodar –

E nesse branco mero instante
Não como era habitual
Pousaste de novo o rosto
Entre o linho e o olhar –

josé ferreira 6 Agosto 2014

sábado, 9 de agosto de 2014

Shakespeare arredondilhado


 O raio da redondilha
da ode e do soneto.
Pode remar com ilha
e rematar em terceto

E como vou começar
tão difícil TêPêCê?
…. William Shakespeare
pouco li, nem sei porquê …
pois cá vou eu asneirar!


Há tantas tragedias
de faca e alguidar
e tantas comedias
mais pra rir que pra chorar!

As doudas das comadres,
os donos do castelo,
alguns bobos e padres,
mais o mouro do Otelo
que caiu na ratoeira
ficou tão negro, sem ver
louco de ciumeira!

Mas eis aqui a questão:
Julieta e Romeu
numa noite de Verão
abraçaram o Morfeu
e mataram a paixão!
Hamlet também morreu
e Cordélia não viu tostão!

Não sei mais que escrever
Sobre o bife inglês
Nada mais há pra dizer
E acabou, um, dois, três!              

Teresa Almeida Pinto

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O mito


 Previsão do tempo 28 de junho Rio de Janeiro (Foto: Marcos Teixeira Estrella/ TV Globo)
Imagem daqui

O mito

Fosse o mito a realidade,
Sempre o Mundo pensaria
E o Homem sonharia
Uma nova Humanidade.

Mas não. O sonho, afinal,
Anda tão longe da Terra,
Que os homens sobem a serra
Apenas pelo vil metal.

E fosse o mito a verdade
E o Homem sonhador,
Não faltaria o Amor
Dentro da mesma Cidade.

Por isso, a desilusão,
Sentida por todos nós,
Face à crença dos Avós
No Mito e na Religião.


José Almeida da Silva

Os mitos




 
imagem daqui

Os mitos são sempre assim
E correm mundo no tempo
E sem nenhum contratempo
Vivem um tempo sem fim.

O mundo acolhe e venera,
Sempre com a mesma paixão,
Esses heróis da ilusão
Em que a vida sempre impera.

Todos sabem e alimentam
Essas histórias de então
Que acolhem no coração,
E que nunca experimentam.

José Almeida da Silva


De mim falarei somente


 
Imagem daqui

De mim falarei somente
nesse fim de tarde de uma Noite opaca.
As estrelas serão então a única luz
– Candeia de lua dançando para mim
no mar da ternura dos teus olhos.
Não sei o que direi. Não o medo, por certo.
Nem a alegria dos momentos felizes,
por certo, também não. Essa vive há tempos
na eternidade da nossa memória.

Falarei decerto do amor colhido da árvore
dos dias em que não estivemos de mãos dadas
– Tempo de chuvas e dores, e um vento de ira
que levava a nossa ternura para longe do coração.

Em silêncio os teus dedos leves fecharão os meus olhos
sem luz. Depois, se eu puder e a verdade sorrir,
hei de acenar-te da luz da Estrela da Manhã
como se te dissesse só então o Amor
de corpo inteiro – disse o meu pai.

José Almeida da Silva


Cordélia e o Rei Lear

  
                                                               “The way of this sad time we must obey;
                                                            Speak what we feel , not what we ought to say” W. Shakespeare

esquece e perdoa pois não há dor que doa
em ninguém de forma igual.
és única, sabes, como um trevo de pétalas simbólicas
como uma brisa ou um raio de sol que leva a chuva do mar:
pouco a pouco, em sequência morna de dedos invisíveis
a deslizar, a deslizar –
os nossos poemas  são formas e linhas de pele
há um sumo de alma em cada um deles
um lugar de tempo e espaço, um rio de sangue
por vezes, um oceano de palavras acariciando as rochas
e subsiste a longitude dos olhos, as memórias  e as baías desiguais.
se falo de mim? mas sempre falamos de nós, sempre falamos de nós.
numa medida sem dono,  sem o sossego das métricas
sem o peso definido do número e da  percentagem.
uma ilusão que nos ilude sempre  como se fosse verdade
uma verdade inalcançável, singular e infinita –

há nevoeiro ao acordar, uma cor cinza. lembras-te de Shakespeare?
lembras-te do Rei Lear? tinha três filhas e uma era original.
Cordélia era o seu nome e põe-me sempre a pensar.
era única, sabes. e no fim, é uma tragédia:
em cinco actos, quatro mortes e uma lição moral.
se reparares bem, o rei não resistiu à tempestade
pediu que o coração falhasse.
partiu com a sua dor numa piedade de cima.
a coroa era uma casca de ovo, partida e vazia (disse-lhe o Bobo).
a sua Rainha há muito adormecida e os cavaleiros perdidos
e Cordélia, de lábios abertos não criava a névoa
o fumo breve, na imagem fugidia dos espelhos.
o corpo de Cordélia já não era aquele que jazia
era o outro, imanente e intangível na imagem reflectida –
porquê ficar? o Rei na sua dor, que era só sua, partia.

sabes, és única. vejo interrogações nas tuas pestanas de libelinha
na tua pele luzidia.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
o nevoeiro passa. o nevoeiro vai passar –

sabes, na história do Rei Lear, há quatro mulheres fundamentais
a génese e um mundo de falsas velocidades. tudo tão rápido.
uma voz ausente de mãe e não há descendentes.
o Rei de França que recebe a alma mais pura
ausenta-se  inexplicavelmente, não cuida:
Cordélia sem vida, como Antígona.
depois as duas irmãs,  iguais na ambição, na traição e na perfídia
desvanecidas, entre o veneno e uma lâmina assassina.
por fim os homens. os bons homens predominam.
mulheres nenhumas para as últimas palavras, as da epígrafe.
por fim distribuem-se títulos, terras e honrarias.
a paz predomina. um ciclo e um círculo como as noites e os dias.

os teus dedos são ainda aves que ondeiam os cabelos por detrás dos ouvidos.
sorris sempre com esse gesto simples de levantar uma cortina
de deixar entrar luz na superfície da pele
na curva definida do rosto.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?

a tua dor é singular, assim a minha, ocupa um centro
não se divide. é um bom indício –


 josé ferreira 6 Agosto 2014

Primeira Redondilha


Há uma cola de contacto


Há uma cola de contacto
Invisível mas segura
Toda de inspiração pura

Não é de arroz a receita
Do livro doutra senhora
Que_em tempo remoto fora
Tesouro doutra colheita
Nem modernice suspeita
De marca branca_ou escura
Não tem cheiro nem textura

Nem cola ninguém ao tecto
Nem coisas assim patetas
Prende_entre si os poetas
Em alma e não no objecto
Neste pequeno projecto
Que_aperta mais a costura
Enquanto o poema dura 
 


raquel patriarca | sete.agôsto.doismilecatorze

 

Segunda redondilha

Feita parva no café


Feita parva no café
As palavras a fugir
E as rimas a seguir

Onde está a Lianor
Que tanto jeitinho dava
Pois já Camões ajudava
A rimar como_um senhor
Mas a mim dá-me_o calor
Ponho lápis a fingir
E_as palavras a mentir

Dedos em tique nervoso
Na mesa_a tamborilar
São patas de_aranha a_andar
Que escrevem sem repouso
Um poema mal fermoso
Com_as palavras a fugir
E eu quase_a desistir

Não sei que faça_à escritura
Nem ás voltas das ideias
Só me saem rimas feias
Estragadas na cesura
Lianor pela verdura
E eu atrás dela a rir
Com_as palavras a dormir 




raquel patriarca | sete.agôsto.doismilecatorze

A biblioteca


Eramos só os quatro a respirar
o meu pai, eu e as minhas duas irmãs

Nós
apertadas no escuro
que era estreito e morava entre corredores
que eram estreitos e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
carregadas de todos os títulos de todos os livros

Ele
solene     gutural
com o vagar da velhice e da eternidade
falava da sabedoria do mundo,
do sonho       da viagem         da ciência
do amor        da poesia           do engenho          da história
que nos deixava tudo em
herança de guardar e proteger

Isto
é a humanidade que resta –
dizia –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

Eu
desobediente
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros

A humanidade vive nas crianças
a alegria e a verdade e a
promessa categórica de todas as coisas que
são boas vive nas crianças

Havemos de querer guardar as crianças

Não haverá crianças para guardar –
dizia o meu pai – os filhos
da tragédia serão sempre velhos e
velhos serão os seus filhos e netos e nenhum
será criança e em todos viverá humanidade nenhuma,
nada que preste de guardar ou proteger
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

Morria de pé no meio do silêncio
que era fundo e morava entre corredores
que eram fundos e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
carregadas de todos os títulos de todos os livros

Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia uivava e a sua voz era a ruína do
mundo e a desgraça da humanidade
feita em escombros vazios de
toda a semântica ou qualquer préstimo

Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia invocava razões –
altas        pesadas        absolutas    mentiras –
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros
Isto é a humanidade que resta –
rezava o meu pai – a vossa
herança de guardar e proteger e
entregar a ninguém a não ser
ao tempo e à memória –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

E nós –
desobedientes –
chorámos a tragédia e engolimos a escuridão
e escondemos em cada livro uma criança
em cada título um nome, escrito de
alegria e de verdade e da
promessa categórica de todas as coisas que
são boas

Eramos só as três a respirar
eu e as minhas duas irmãs –
de braços estendidos as palmas das mãos
viradas para cima a receber o sol
que não tinha fim e veio morar nos corredores
que não tinham fim e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
onde se guardavam todas as crianças do mundo
entre todos os títulos de todos os livros

Isto
é a humanidade que resta –
preparámo-nos para morrer e fechámos os olhos
raquel patriarca
sete.agôsto.doismilecatorze

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Carta a minha filha - Um poema de Ana Luísa Amaral

imagem daqui

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)' daqui

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um poema inédito de José Nuno Magalhães


Magritte The Village of the Mind 1926

A morte perscruta-me.
Sôfrego, o pensamento enquista-se nas
câmaras cardíacas, arqueia multiforme nos varandins da loucura.
Mãe, não soube salvar-me,
mas poderei ainda morrer no regaço
onde, inteira, se confabulou luminosamente toda a minha existência?

A morte perscruta-me.
O medo adestra-me centrifugamente,
nuclear, placentário,
e demoro minhas mãos venosas e trémulas
sobre os olhos.
Penso. Amanheço dolente,
inundo as divisões da casa, escorro nas
suas calhas.
Primaveris, o canteiros aguardam extasiar-se
nas flores que não plantei e
eu esmoreço por não saber dizer-lhes
que achei absurda a eternidade e longínquo
demais o fim das estações.

A morte perscruta-me.
Hálitos antigos pernoitam-me a boca e um
sorriso desponta frágil e amorfo
sussurrando improváveis palavras de amor
que disse por pensar tê-las pensado.

A ria enche-se de barcas sobre a profusa melancolia. Eu sei: a morte perscruta-me
e nada que eu possa nomear alicerçou as minhas pontes.

José Nuno Magalhães

p.s. Este excelente poema foi-me enviado pela nossa colega Auxília a quem muito agradeço a partilha

sábado, 5 de julho de 2014

Amor em vias de extinção

Oh! os ecológicos e ah! os conscientes
Louvores aos que pensam nos filhos e no futuro
Isso, icem
bandeiras por um mundo melhor
Um melhor do mundo a mais de azul e quase nada químico
E a água aproveitadinha gota-a-gota
e os recursos
Reciclados
Tudo limpo e as focas assépticas e bonitas, de pêlo luzidio

e enquanto isso

Milhões de corações solitários bombeiam disciplinadamente um sangue que não corre por ninguém
Milhões de peles intocadas jazem à espera de uma mão que as contorne
Milhões de lábios selam bocas que não sabem o/a beijo

Impiedosos ambientalistas que não se lembram, dos desperdícios humanos, do desejo, do toque,
do amor em vias de extinção

segunda-feira, 5 de maio de 2014

surrealismo

imagem daqui

debaixo do sol um vapor de primavera inflama as narinas.
a praia ao fundo é uma sucessão de ondas que se desdobram e dobram de novo
numa renda em linha: efémera, múltipla, de traço fino –

o teu cabelo surge iluminado como linha de horizonte e ponto de fuga.
o corpo estica até ao infinito quando fechas os olhos:
reflexos cegam num silêncio sublime 


sem palavras, sem ruído –



josé ferreira 5 de maio 2014