Oh! os ecológicos e ah! os conscientes
Louvores aos que pensam nos filhos e no futuro
Isso, icem
bandeiras por um mundo melhor
Um melhor do mundo a mais de azul e quase nada químico
E a água aproveitadinha gota-a-gota
e os recursos
Reciclados
Tudo limpo e as focas assépticas e bonitas, de pêlo luzidio
e enquanto isso
Milhões de corações solitários bombeiam disciplinadamente um sangue que não corre por ninguém
Milhões de peles intocadas jazem à espera de uma mão que as contorne
Milhões de lábios selam bocas que não sabem o/a beijo
Impiedosos ambientalistas
que não se lembram, dos desperdícios humanos, do desejo, do toque,
do amor em vias de extinção
sábado, 5 de julho de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
surrealismo

imagem daqui
debaixo do sol um vapor de primavera inflama as narinas.
a praia ao fundo é uma sucessão de ondas que se desdobram e
dobram de novo
numa renda em linha: efémera, múltipla, de traço fino –
o teu cabelo surge iluminado como linha de horizonte e ponto
de fuga.
reflexos cegam num silêncio sublime
sem palavras, sem ruído –
josé ferreira 5 de maio 2014
segunda-feira, 28 de abril de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
Um poema de Natércia Freire

imagem daqui
Vem, como dantes!
Livra-me do peso
Das palavras que exigem
Seu objecto.
Da música, ordenando
Um som concreto.
Dos sentimentos coesos
Com a morada.
Desmancha
Com teus dedos
De um cortante cristal
De ágeis segredos
A ligação do corpo
Com os seus medos
De morrer sem memória,
Solitário.
Com tua treva e luz
Tumultuosos
Desfaz e faz
Os sonhos e as cousas
Do Tempo
Eterno em seu itinerário.
Mesmo na solidão
De ruas longas
Quando os vivos e os mortos
São só sombras
E eu sou apenas
Rectas de um degrau…
Tu podes
Como um deus
Combalido e amargurado
Ao direito negado
Abrir no Espaço
Um som de sementeiras
Erguer no Espaço
Os aquedutos de oiro,
Esconder amigos falsos
Como um grande tesoiro.
E propor, como aos sinos,
Uma infinda ousadia
De invisíveis destinos,
Esses, que eu espero e vivo
E respiro, mortal.
Natércia Freire in Obra poética, vol. II lido aqui
quarta-feira, 19 de março de 2014
sublima

imagem daqui
a velocidade aflita pode ser o fundamento
para o teu
zig-zag permanente :
os teus olhos de horizonte
os teus passos de gazela
os teus cabelos fulminantes –
a não procura de um rumo é a negação do absoluto.
a certeza do transitório e do fugidio.
uma flânerie como diria Baudelaire.
por vezes, o instinto na distância da razão
por vezes, a velocidade da lebre e o sono das árvores
por vezes, o casulo
de seda sem a iminência do vulcão –
alguém disse: é da experiência singular que nasce a obra de arte.
emoção e acto que interage, a procura de um outro espaço
a libertação do tempo: a nudez do sentimento -
senta-te no banco de um jardim.
recebe a luz e a sombra de uma forma natural.
elimina a rotina dos teus olhos de cidade:
o excesso de imagem, o mar de signos
o esforço mínimo de abstracção, a transcendência impossível
o ruído, o ruído, o ruído -
pára, desce as pálpebras, sublima -
josé ferreira 19 março 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
os teus olhos no meio da cidade

naquela tarde de março o sol era um astro luminoso
onde raios oblíquos atravessavam o azul, um azul ténue –
não era ainda o dia das glícinias
era um dia de camélias
distintas
e de múltiplas flores de azálias em cores de vestidos –
as flores existem como invenção dos deuses num dia de luz e brisas.
as flores fundem-se nas mãos das mulheres numa harmonia uníssona
como uma música sem som, só nos ouvidos –
como naquela tarde de março, quando
as tuas mãos límpidas e
longilíneas
faziam dançar as pétalas, em círculo, em círculos
de uma sensualidade pura, descobrindo
a cor dos teus olhos e a verdade do sorriso –
josé ferreira 16 de março 2014
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