Não se classificam os versos alheios escritos no pó dos anos Como pensamentos dos nossos olhos; curiosidade apenas O deslumbre de diferentes formas de ordenar as letras. Não se reduzem a cinzas as chamas luminosas de platina Mesmo que a noite se pinte no mais escuro e renove a lua. Não se esquece nunca as mitologias, os ventos diáfanos As pinturas coloridas que atrasam os dilúvios E revelam na cor de prata, o novo mundo -
Há certas qualidades...tais compósitos Com uma dupla vida, a que assiste Uma entidade gémea que consiste Em luz e em matéria, sombra e sólido. Cindido é o Silêncio: mar e cais, Corpo e Alma. Um vive solitário Em campo raso, e faz-se temerário Mercê de humanos ecos, rituais E indulgências...seu nome "Nunca mais". Tal Silêncio tem corpo: não temais! Pois por si só não pode fazer mal; Mas se vos lança o Fado inexorável, De encontro à sua sombra (elfo inefável Que assola os ermos onde outrem jamais Pisou)...vos guarde Deus então a alma!
Por inadvertência, o dedo de Werther toca no dedo de Carlota; os pés sob a mesa, encontram-se. Werther poderia abstrair-se do sentido destes acasos; poderia concentrar-se corporalmente nestas fracas zonas de contacto e gozar este pedaço de dedo ou de pé inerte de modo fetichista,sem se inquietar com a resposta. Mas: Werther não é perverso, é um apaixonado: sempre e em toda a parte, Werther dá sentido a um nada e é o sentido que o faz estremecer: está no ardor do sentido. Todo o contacto, para o apaixonado, levanta a questão de resposta: pediu-se à pele que responda.
Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70
Na manhã embuçada de branco calam-se os passos certos, de meio metro, junto ao mar; falam os búzios grandes -
Na curta distância do azul , o manto húmido da neblina; um limite ao ruído das águas, o oceano cíclico onde ondas imaginárias se enrolam, urgentes, e se estendem molhadas nos desertos resistentes -
No areal não é o tempo de barracas, apenas um guarda-sol, deitado, listas brancas, listas fixas e quatro pés que se cruzam na percepção permitida da sombrinha, vista de cima e em suposição de outros formatos, abraços, lábios intervalos de palavras e olhos abertos -
duas pombas pousadas não usam as asas e assinam as areias contornam as rochas como soldados nos domínios de vigilância mas o local tem marcas de uma outra época, sem semelhança quando o sol brilhava e os dias eram de Agosto; brasas acesas, um forno de poemas, palavras bravias palavras doces, marcas de dentes no pescoço filamentos de cabelos caídos, por entre os dedos -
nas malhas deste novo tempo, este dia há milhares de minutos perdidos quando os medos nos prendem os sentidos e é bem verdade que nas páginas de filosofia há um excesso de incerteza e a inconstância na divagação estéril sobre antigos pensamentos Sócrates, Schopenauer, Nietzsche; a tentativa inóspita e absoluta do conhecimento e o esquecimento do simples; mesmo na poesia, na essência que se pretende pura não se explica o voo das abelhas: se andam doentes e não polinizam as flores; um perigo para o planeta -
e as flores são únicas e breves nas pétalas, no pólen, indizíveis, inconhecíveis na totalidade como a pele das mulheres quando exigem os remos dos lábios na travessia arrojada de um silêncio de margens -
"A primeira obra que Ellen lhe desvendou seria uma tela a óleo, de grande formato, representando "Os Cavalos de Danaan". Era um tropel violento de fogosos animais, composto por chamas que se entrelaçavam, providos de arreios de ouro e ferraduras de prata, e com um diamante incrustado na fronte. Montavam-nos raparigas de cabelos loiros, e mantos ao vento, brandindo cada uma a sua lança, e galopando em direcção a um abismo entre duas escarpas de espinhos e pedregulhos..... Decorridos longos minutos porém, subitamente desinteressada da apresentação da sua arte, a qual ia arrumando sem esmero particular, Ellen pediria ao nosso poeta que lhe falasse em português. Tomou-a nos braços, e foi-lhe segredando ao ouvido esta lengalenga, emergida de um passado que não conseguia fixar no tempo. "Pedro primeiro monarca/do mar de cá e de lá..."
Mário Cláudio " Tiago Veiga - Uma Biografia" D. Quixote 2011
Todas as noites ela vinha ter comigo Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá Ela tinha trinta e tal naquela altura conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens Deitávamo-nos para dar e receber debaixo do mosquiteiro branco E uma vez que nenhuma contagem começara vivíamos mil anos num só As velas ardiam, a lua descia a colina polida, a cidade leitosa transparente, sem peso, luminosa, destapando-nos aos dois naquele chão fundamental, onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado e do mundo perfeito se acha metade
"...o acto I; está cheio de suposições: e se tivesse havido um mal-entendido quanto à hora ou lugar? Tento recordar-me do momento em que se combinou o encontro, dos pormenores que foram acordados. Que fazer (angústia de acção)? Mudar de café? Telefonar? E se o outro chegar durante estas ausências? Não me vendo, pode partir de novo, etc. O acto II é o da cólera; dirijo violentas censuras ao ausente: " Apesar de tudo, ele(ela) bem teria podido..." "Ele (ela) bem sabe..." Ah! se ela (ele) ali estivesse, para poder censurá-lo de ali não estar! No acto III, atinjo (obtenho?) a angústia pura: a do abandono; acabo de passar, num segundo, da ausência à morte; o outro está como morto: explosão de luto: estou interiormente lívido. Assim é a peça; pode ser encurtada pela chegada do outro; se chega durante o acto II, temos uma "cena"; se chega durante o acto III, é o reconhecimento, a acção de graças: respiro profundamente, qual Pelléas a sair do subterrâneo, reencontrando a vida, o perfume das rosas.
( A angústia da espera não é continuamente violenta; tem os seus momentos mornos; espero e tudo o que rodeia a minha espera está salpicado de irrealidade: no café, vejo os outros que entram, cavaqueiam, gracejam, lêem tranquilamente: esses não esperam)
A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer."
Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso " Ed. 70
Não tens corpo, nem pátria, nem família, Nem te curvas no jogo dos tiranos. Não tens preço na terra dos humanos, Nem o tempo te rói. És a essência dos anos, O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses, o sorriso das pedras E a candura do instinto. És aquele alimento De quem, farto de pão, anda faminto. És a graça da vida em toda a parte, Ou em arte, Ou em simples verdade. És o cravo vermelho, Ou a moça no espelho, Que depois de te ver se persuade.
És o verso perfeito Que traz consigo a força do que diz. És o jeito Que tem, antes de mestre, o aprendiz. És a beleza, enfim! És o teu nome! Um milagre, uma luz , uma harmonia, Uma linha sem traço… Mas sem corpo, sem pátria e sem família, Tudo repousa em paz no teu regaço!
se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu, escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas. não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos, insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca. e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente, como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.
Vou dizer-te como nasceu o Sol - Uma Fita de cada vez - Os Campanários nadando em Ametista - As Notícias corriam, como Esquilos - Os Montes desatavam os Chapéus - As tristes-Pias - começavam a cantar - E eu disse baixinho, para mim - "Há-de ter sido o Sol!" Mas como ele se pôs - isso não sei - Parecia ser escada carmesim Que meninos e meninas de Amarelo Estivessem a subir e a subir - Até que chegando do outro lado, Um Pastor todo vestido de Cinzento - Erguesse suave as Trancas da noitinha - E levasse consigo o seu rebanho -
Emily Dickinson "Cem Poemas" Relógio D'água Trad. Ana Luísa Amaral
escutava as quatro baladas de Brahms enquanto colocava um pouco mais de cor na tela incompleta em frente da janela.
as mãos lentas mas precisas no rigor minucioso das linhas preenchiam as quadrículas pré-estabelecidas, fruto de um impulso indefinido e interior talvez ditado por Atena ou uma outra deusa que desconhecia; construía uma rainha vestida de ganga de olhar penetrante e sapatilhas laranja.
três meses de distância - naturalmente as chuvas permaneciam assim como a melancolia; a carta, a carta a meio que havia escrito um destes dias - procurava sossegar as dúvidas, construir o refúgio - uma pintura - e os dedos de Ashkenazi colados na música -
colocou mais azul e um pouco de branco; um não excesso de céu porque sem nuvens só o deserto um chapéu de palha, largo,gasto uma trança de lado, índia, e um laço percorrendo o ombro; esquerdo ou direito? pensou um pouco -
nada de prédios, um lugar fora do tempo, diferente um campo feito de silvas, arbustos , árvores -
o sol percorreu a esquina do telhado tornou-se forte em frente da janela e deixou a sombra primeiro no piano e depois ao longo do gato branco; sentia-se cansado como se tivesse lavrado um campo cavado um poço ou erguido em pequenas pedras de granito, um muro - puxou uma cadeira, sentou-se pesado como um tronco um braço sobre a mesa -
uma luz, uma pequena luz, oscilava lenta como se do quadro um pêndulo um, dois , um , dois, a hipnose -
uma aragem percorria os fios unidos do cabelo e invadia no quarto os cantos da parede -
na intimidade do quadro as árvores tinham copas vermelhas as folhas eram amarelas e as flores verdes - as mãos, as mãos eram brancas - o brilho nos olhos, flamejante - os lábios falavam -
a carta, estava muito cansado, a carta - a carta, Brahms, o quadro -
Puma Bartolomeu Júpiter acaba de receber, summa cum laude, a maior ovação da sua vida. É uma torrente eléctrica de mãos na intermitência histérica e sublime dos aplausos, uma plateia antiga que ergue do nada um exército de rostos convencidíssimos e cauterizados, entre o rigor atrófico, a inveja fúnebre e a transpiração, e, como se isso não bastasse, o estertor das palmas das mãos de quem, finalmente, compreende, sofre um verdadeiro ataque de compreensão e fornece, por isso, ao escândalo protocolar, uma dose extra de cinismo e elegante mal-estar. A tese de Júpiter é aparentemente muito simples: Júpiter provou que o amor dissolve-se no sexo, antes mesmo de lhe tocar. Partiu primeiro e até por intermédio das analogias da ingenuidade do composto fictício de Asimov, a “thiotiomoline”, composto este que se dissolveria em água antes mesmo de lhe tocar, e transferiu as propriedades da “thiotiomoline” para o amor e as da água para o sexo. À forçosa semelhança de Asimov, Júpiter acreditava que o amor (100% solúvel no sexo) antecipava materialmente a sua solubilidade, porque, é ele que escreve, “há no composto raro do amor um registo espacio-temporal cindido, onde o átomo de carbono cria ligações químicas apaixonadamente reactivas à estabilidade física geral”. O mundo não teria mudado sem esta tese de Júpiter. A sua invenção foi de tal forma sobrevalorizada, o nome de Júpiter foi tão ouvido e citado, dentro e fora da academia, que tudo se tornou previamente solúvel em tudo, tudo com o seu átomo de carbono instável, tudo com a sua face dupla e miserável, tudo com a sua insurreição temporal. “Há um momento – pensa Júpiter, esmagado pelos aplausos – há um momento em que alguma coisa me leva a descrer profundamente na espécie humana. É como que se eu não fosse inteiramente solúvel nela e nos seus e nos meus argumentos armados viesse à tona o cadáver louco da sua antecipação.”
Escrever um poema é ensaiar uma magia menor. O instrumento dessa magia, a língua, é assaz misterioso. Nada sabemos da sua origem. Só sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um deles consta de um indefinido e mutável vocabulário e de um número de possibilidades sintácticas. Com esses inacessíveis elementos formei este livro. ( No poema, a cadência e o ambiente podem pesar mais do que o sentido). É seu este livro Maria Kodama. Precisarei dizer-lhe que esta inscrição compreende os crepúsculos, os cervos de Nara, a noite solitária e as populosas manhãs, as ilhas partilhadas, os mares, os desertos e os jardins, o que o esquecimento perde e o que a memória transforma, a alta voz de almuadem, a morte de Hawkwood, os livros, e as gravuras? So podemos dar o que já tivermos dado. Só podemos dar o que já é do outro. Neste livro estão as coisas que sempre foram suas. O mistério que é uma dedicatória, uma entrega de símbolos.
Uma pequenina luz bruxuleante não na distância brilhando no extremo da estrada aqui no meio de nós e a multidão em volta une toute petite lumière just a little light una picolla... em todas as línguas do mundo uma pequena luz bruxuleante brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós entre o bafo quente da multidão a ventania dos cerros e a brisa dos mares e o sopro azedo dos que a não vêem só a adivinham e raivosamente assopram. Uma pequena luz que vacila exacta que bruxuleia firme que não ilumina apenas brilha. Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda. Muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Brilhando indeflectível. Silenciosa não crepita não consome não custa dinheiro. Não é ela que custa dinheiro. Não aquece também os que de frio se juntam. Não ilumina também os rostos que se curvam. Apenas brilha bruxuleia ondeia indefectível próxima dourada. Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha. Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha. Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha. Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha. Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha. Uma pequenina luz bruxuleante e muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Apenas como elas. Mas brilha. Não na distância. Aqui no meio de nós. Brilha.
Jorge de Sena 1919-1978
Antologia Poética Jorge de Sena; edição de Jorge Fazenda Lourenço Guimarães Editores
não queiras acordar as palavras durante o dia, dormitam vê como respiram - depois a lua abre os olhos e as palavras esticam os braços vê como espreguiçam - e juntam-se em células de escrita como um tecido; depois um corpo e um outro ainda vê como se alinham - tornam-se fortes, ao sul, ao norte e preferem o mar que é vasto, largo, infinito - vê como ensinam os ecos redondos e escrevem um caminho pelos reflexos brancos das ondas iluminando as sombras negras, as culpas em fatias esquecendo tudo e voando por cima -
vê como descansam, agora que é de dia vê como voltam pela noite, suaves e invisíveis rodeando os teus olhos de Afrodite, o teu corpo de ninfa e caindo na prata das mãos, no ouro das linhas como chuva de sedas, escorrendo na forma de letras a cor permanente das tintas e subindo, de seguida, pelo tronco dos cabelos aos ramos dos ouvidos soprando o vento azul dos sensíveis, os versos, invisíveis; uma cortina de lábios por todos os lados, em uníssono desfolhando as pétalas dos poros, síncronas e decisivas -
as palavras incompletas são como as malhas de Penélope os versos, como os trabalhos de Ulisses quanto ao pêndulo do tempo, não diz quando mas pelo sal doce das vagas e pelo salto dos golfinhos anuncia Ítaca -