
"Golconde", René Magritte, 1898-1967
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Cansei-me desta chuva miudinha,
Teimosa e poalha venenosa –
Molha sempre a minha poesia
E enruga a folha lisa onde mora.
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Fechei a janela e a gelosia,
Mesmo assim aquela miudinha
Entra-me em casa sem pedir
Licença, curiosa e atrevida.
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Pousa-se logo ali na mesa
De trabalho e olha a tinta
Como uma rival – as palavras
Entende-as como quer e pode.
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Afinal, tanto lhe faz se estão
Deitadas ou se estão de pé,
O que ela quer é encharcá-las
Todas. Sim, mesmo até à alma
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E fá-lo sempre com a calma
De um crítico de literatura.
A criatura lê tudo a direito
Sem respeito por quem
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A pensou e escreveu. Enfim,
Presunção e água benta,
Tem-na ela à flor dos olhos:
Lê e insensível diz – não presta.
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E esgueira-se de aresta em aresta
Feliz e rindo da patifaria. Eu fico,
Já se vê, como o sol no deserto
Capaz de a matar de insolação.
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Mas sem demora guardei a poesia
Enrugada na gaveta, e fui para a janela
Exorcizar a chuva para que fosse embora.
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E mesmo tímido, o sol iluminou-lhe o caminho –
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2011-06-06
José Almeida da Silva
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