Não é verdade que quanto mais se ama, mais se compreende; o que a acção de amor obtém de mim é apenas esta evidência: que o outro não é para conhecer; a sua opacidade não é apenas a tela de um segredo mas sim uma espécie de evidência em que está abolido o jogo da aparência e do ser. Vem-me então esta exaltação de amar a fundo alguém desconhecido e que assim permaneça para sempre: movimento místico: alcanço o conhecimento do inconhecível.
Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1977
segunda-feira, 23 de maio de 2011
frio nos olhos de um rapaz
subiu ao telhado sem telhas, alguma inclinação ajudaria. se nesse dia soprasse amena a aragem, também ajudaria. ou talvez, se soubesse que não é único órfão, talvez?! ou que os dias não são todos iguais, e não é bem por causa da luz.
há um momento imediatamente antes da morte, apenas. tem a imagem mais significante de toda a viagem. no fim, se não se leva mais que uma, pelo menos uma remota sempre existe. por começar nesse lugar, onde não era preciso coragem já que ainda não havia o maior medo, no intervalo de tempo impermeável à solidão incompleta, ou até completa. talvez um dia o rapaz veja, alguns maiores a passar, alguns com mais que essa, com lugares absolutos.
foi a noite mais escura; sonâmbula de olhos fechados. os espaços de passos lentos não existiram no grande vácuo. pela manhã a água soluçou as tuas últimas palavras triste e seguiu o ruído do ralo aberto o eco perdido da mensagem -
A Livraria Poetria vai realizar um work-shop cujo programa se descreve a seguir:
“Produção e trabalho de Escrita Poética” Maio/Junho 2011
8 horas – segundas - feiras das 18h às 20h
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Poesia
1. Movimentos e tendências poéticas
2. A poesia do quotidiano (referida a autores contemporâneos)
3. A poesia universal de Whitman
4. O subjectivismo em Emily Dickinson
5. Análise de alguns textos poéticos – A questão da métrica e dos recursos estilísticos.
6. Exercícios práticos de escrita criativa com base em jogos de despersonalização e outros elementos valorativos da imaginação. Formador: Nuno Brito Local: Sala Poetria, R.Sá de Noronha,155(Ao Teatro Carlos Alberto-Porto) Inscrições: Máximo 10 pessoas. Contacto: 968707303 Preço: 45,00€ Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde fez a pós-graduação em História Medieval e do Renascimento e o curso de formação contínua em Teoria da Literatura. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma onde realizou estudos sobre Pedro Abelardo. Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo no ano seguinte o primeiro Prémio na categoria de conto. Em 2009 publicou a obra de poesia “Delírio Húngaro” e foi publicado em várias revistas de literatura nacionais e estrangeiras.
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca, ou docemente lírica e sentimental, ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”, ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos, dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa, e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma de não ter tido plenamente a carne que a traiu, esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte, como exactamente a vida que os outros continuam vivendo ante os olhos que se fazem garganta e palavras para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham nesta sombra que se estende luminosa por dentro das multidões solitárias que teimam em resistir como melodias valsando suburbanas nas vielas do amor e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz e na vida. Quem como ela perdeu toda a alegria e toda a esperança é que pode cantar com esta ciência do desespero de ser-se um ser humano entre os humanos que o são tão pouco.
Era o silêncio sobre a terra. O mundo estava preparado. No seu lugar, cada objecto esperava o início. O sol esperava. O mundo estava preparado e suspenso.
Ele e ela caminhavam na rua. Pensavam em qualquer coisa que não era nem a terra, nem o sol, nem julho. A rua ficou deserta quando se aproximaram. Esqueceram aquilo em que pensavam. E o lugar das ideias que tinham ficou vazio de tudo menos daquele instante igual, a divisão de um instante, um instante espetado dentro de um instante, o mesmo ponto de tempo em que olharam um para o outro. Dentro daquele momento, como dentro de toda a eternidade, aquele foi um ponto de tempo feito de terra e de sol e de julho. E o tamanho da terra entrou pelos seus passos. E o sol entrou pelos seus olhares.
José Luís Peixoto, Antídoto, Aquilo que Invade os Homens
Sua beleza é total Tem a nítida esquadria de um Mantegna Porém como um Picasso de repente Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela Seu corpo é solar e frontal Sua beleza à força de ser bela Promete mais do que prazer Promete um mundo mais inteiro e mais real Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen "O Nome das Coisas"
na luz que acompanha o interior da tua alma cintila a curva oscilante do pêndulo; um ímpeto sem atrito, o vazio lento. subir montanhas e caminhar as fragas escorregadias é um medo que não deves ter, digo-te. de mão aberta sentirás a voragem segura da noite a madrugada, o desejado primeiro raio do dia. sobe, mais ainda, mais acima, a encosta brava das silvas aperta a casca do salgueiro e observa a cor verde da figueira. descansa um pouco, exausta e bela no labirinto das folhas nas nervuras palpitantes das plantas; seivas vivas e maduras. não sejas nunca seduzida pela magia das sombras - o disfarce triste. adormece, quando os braços caírem, no induzido sono do sorriso o sonho branco visto de cima - aguarda no silêncio da lua a despedida do ar húmido o ciclo fresco e breve do orvalho o toque de veludo e a seda repetida -
quando se diz que não acaba fala-se da alma a alma eterna que vence o humano a alma sensação que desaba irremediável nos abismos da chama sem corpo essência perfeita no ar de uma existência máxima e transparente, a alma -
a alma é forte, a alma invade os tectos e ilude as distâncias; a alma a alma a alma a alma a alma -
a alma sangra mas permanece na improbabilidade positiva dos teus gestos -
Corre rio, corre, corre desenfreado, a brutal enxurrada descaracterizou-te, embruteceu-te! Levas vidas que afogas diabolicamente, porque tudo inundas além do teu leito que te não basta!
Fustigas-nos a alma submissa e impotente, enquanto olhamos a TV visualizando dramáticos confrontos entre a morte e a vida de seres vivos despojados, trucidados, mas sobretudo inocentes!
Dás crédito à revolta da natureza, à força incomensurável dum Planeta bom que nos acolheu, mas hoje tristemente abandonado à sua sorte por culpa de humanos indígnos, tresloucados, não merecedores da coabitação!
Corre rio, corre, corre desesperado, porque em teu feroz seio também levas os gritos e lágrimas dum Planeta que chora inexoravelmente a sua desdita!...
(Antonio Luíz, 20-01-2011, in " Poesia pragmática: poemas de Vidas" - a publicar em Junho/Julho-2011).
Afundo-me na tristeza, sem as lágrimas convulsivas de outrora, mas compulsivamente irascível; - nada mais vale a pena, não interessa sequer avaliar porque se demoliu o amôr ou porque se esfumou a paixão!?
O fulgor do sol também se esvai, e o vento ora sopra de rompante, outras vezes porém tão meigo é, apaziguador e tão refrescante! ........................ Hoje, o dilúvio assassino perturba a doce paz da foz do meu rio de encantos!
( Antonio Luíz, 23-01-2011, in "Poesia pragmática: Poemas de vidas", a publicar em Junho/Julho-2011)
A luz do sol entra pela floresta, Uma sombra de vento passa e esquece E o filósofo mudo a encosta desce Do ensombrado monte Ora a luz toca-o, como a uma fonte Ora a folhagem fecha o horizonte.
Paz que há nos campos, soergue a folha verde Comoção imprecisa que se perde E não teve razão, Como ante vós a angústia se ergue em medos E falece no peito o coração!
In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006