domingo, 22 de maio de 2011
A Piaf
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
Jorge de Sena
sábado, 21 de maio de 2011
Era o silêncio sobre a terra

Cindy Sherman
Era o silêncio sobre a terra. O mundo estava preparado. No seu lugar, cada objecto esperava o início. O sol esperava. O mundo estava preparado e suspenso.
Ele e ela caminhavam na rua. Pensavam em qualquer coisa que não era nem a terra, nem o sol, nem julho. A rua ficou deserta quando se aproximaram. Esqueceram aquilo em que pensavam. E o lugar das ideias que tinham ficou vazio de tudo menos daquele instante igual, a divisão de um instante, um instante espetado dentro de um instante, o mesmo ponto de tempo em que olharam um para o outro. Dentro daquele momento, como dentro de toda a eternidade, aquele foi um ponto de tempo feito de terra e de sol e de julho. E o tamanho da terra entrou pelos seus passos. E o sol entrou pelos seus olhares.
José Luís Peixoto, Antídoto, Aquilo que Invade os Homens
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Um poema de Sophia - Sua beleza

Sophia do Mello Breyner Andresen
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen "O Nome das Coisas"
quinta-feira, 19 de maio de 2011
na luz que acompanha

Fotografia retirada da internet
na luz que acompanha o interior da tua alma
cintila a curva oscilante do pêndulo;
um ímpeto sem atrito, o vazio lento.
subir montanhas e caminhar as fragas escorregadias
é um medo que não deves ter, digo-te.
de mão aberta sentirás a voragem segura da noite
a madrugada, o desejado primeiro raio do dia.
sobe, mais ainda, mais acima, a encosta brava das silvas
aperta a casca do salgueiro e observa a cor verde da figueira.
descansa um pouco, exausta e bela no labirinto das folhas
nas nervuras palpitantes das plantas; seivas vivas e maduras.
não sejas nunca seduzida pela magia das sombras - o disfarce triste.
adormece, quando os braços caírem, no induzido sono do sorriso
o sonho branco visto de cima -
aguarda no silêncio da lua a despedida do ar húmido
o ciclo fresco e breve do orvalho
o toque de veludo e a seda repetida -
José Ferreira 18 Maio 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
manuel antónio pina

terça-feira, 17 de maio de 2011
fala-se da alma

Guy Bourdin
quando se diz que não acaba fala-se da alma
a alma eterna que vence o humano
a alma sensação que desaba irremediável
nos abismos da chama
sem corpo
essência perfeita no ar de uma existência
máxima e transparente, a alma -
a alma é forte, a alma invade os tectos e ilude as distâncias;
a alma a alma a alma a alma a alma -
a alma sangra mas permanece
na improbabilidade positiva dos teus gestos -
José Ferreira 16 Maio 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
R I O E M D E S E S P E R O
corre desenfreado,
a brutal enxurrada descaracterizou-te,
embruteceu-te!
Levas vidas que afogas
diabolicamente,
porque tudo inundas
além do teu leito que te não basta!
Fustigas-nos a alma
submissa e impotente,
enquanto olhamos a TV
visualizando dramáticos confrontos
entre a morte e a vida
de seres vivos despojados,
trucidados,
mas sobretudo inocentes!
Dás crédito à revolta da natureza,
à força incomensurável
dum Planeta bom
que nos acolheu,
mas hoje tristemente abandonado à sua sorte
por culpa de humanos indígnos,
tresloucados,
não merecedores da coabitação!
Corre rio, corre,
corre desesperado,
porque em teu feroz seio
também levas os gritos e lágrimas
dum Planeta que chora
inexoravelmente a sua desdita!...
(Antonio Luíz, 20-01-2011, in " Poesia pragmática: poemas de Vidas" -
a publicar em Junho/Julho-2011).
domingo, 15 de maio de 2011
TERMINAL DE DESILUSÃO
sem as lágrimas convulsivas de outrora,
mas compulsivamente irascível;
- nada mais vale a pena,
não interessa sequer avaliar
porque se demoliu o amôr
ou porque se esfumou a paixão!?
O fulgor do sol também se esvai,
e o vento ora sopra de rompante,
outras vezes porém tão meigo é,
apaziguador e tão refrescante!
........................
Hoje, o dilúvio assassino
perturba a doce paz da foz
do meu rio de encantos!
( Antonio Luíz, 23-01-2011,
in "Poesia pragmática: Poemas de vidas", a publicar em Junho/Julho-2011)
A luz do sol entra pela floresta

Salvador Dali
A luz do sol entra pela floresta,
Uma sombra de vento passa e esquece
E o filósofo mudo a encosta desce
Do ensombrado monte
Ora a luz toca-o, como a uma fonte
Ora a folhagem fecha o horizonte.
Paz que há nos campos, soergue a folha verde
Comoção imprecisa que se perde
E não teve razão,
Como ante vós a angústia se ergue em medos
E falece no peito o coração!
In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
sábado, 14 de maio de 2011
um poema para Penélope

Imagem retirada da internet
houve há muito tempo Ítaca, a ilha
a viagem e o retorno
depois da longa espera
e da partida.
ouve, digo-te, não tem que ser assim
se não houve despedida.
um homem citando o filósofo disse:
“que o homem se vê a si próprio
como ‘o eixo à volta do qual gira o mundo’ “.
mas não tem que ser assim, digo-te.
um homem e uma mulher existem por vezes unos
e em uníssono
mas sem despedida, no intervalo breve de frio
podem escolher o silêncio
a pausa de uma seara - o labirinto
o rosto branco de um nuvem - o infinito
a escrita de um artigo científico - de x e y.
e sem as lágrimas da despedida
tudo pode voltar ao azul das aves
- à asa fechada e à asa estendida.
e tudo pode ser
num outro espaço, num outro tempo
o deslize suave de almas unidas
na forma antiga -
como em Ítaca
mas sem violência e mais breve ainda -
José Ferreira 14 Maio 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo
Giorgio di Chirico
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Ítaca
Quando começares a tua viagem para Ítaca,
reza para que o caminho seja longo,
cheio de aventura e de conhecimento.
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon:
Nunca os encontrarás no teu caminho
enquanto mantiveres o teu espírito elevado,
enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo.
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
a não ser que os tragas contigo dentro da tua alma,
a não ser que a tua alma os crie em frente a ti.
Deseja que o caminho seja bem longo
para que haja muitas manhãs de verão em que,
com quanto prazer, com tanta alegria,
entres em portos que vês pela primeira vez;
Para que possas parar em postos de comércio fenícios
para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar,
e perfumes sensuais de todos os tipos -
tantos quantos puderes encontrar;
e para que possas visitar muitas cidades egípcias
e aprender e continuar sempre a aprender com os seus escolares.
Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem.
Será melhor que ela dure muitos anos
para que sejas velho quando chegares à ilha,
rico com tudo o que encontraste no caminho,
sem esperares que Ítaca te traga riquezas.
Ítaca deu-te a tua bela viagem.
Sem ela não terias sequer partido.
Não tem mais nada a dar-te.
E, sábio como te terás tornado,
tão cheio de sabedoria e experiência,
já terás percebido, à chegada, o que significa uma Ítaca.
Konstantinos Kaváfis (trad. Jorge de Sena)
Frderico Garcia Loca

no feminino com
RESTAURANTE/CAFÉ
LIVRARIA & PEÇAS DE AUTOR
Praça Carlos Alberto, 89
4050–158 Porto
T 22 201 66 18
geral@nofemininocom.pt
Quinta- feira, dia 12/05, ao jantar
Federico García Lorca, o homem, a vida …o poeta
ROMANCE SONÁMBULO
A Gloria Giner
y a Fernando de los Ríos
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.
(…)
Federico García Lorca
“Federico Garcia Lorca, nasceu em Fuentevaqueros (Granada) em 5 de junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.”
Apresentação, leitura de poemas e exibição de imagens por José Carlos Tinoco
(Um jantar tertúlia que terá lugar às 20h sujeito a marcação, passando a sessão a ser aberta ao público a partir das 22h.)
terça-feira, 10 de maio de 2011
Fragmentos VII - O inconhecível

Bill Brandt
Estou envolvido nesta contradição: por um lado, creio conhecer o outro melhor do que ninguém e afirmo-lhe isso triunfalmente (“Conheço-te bem. Só eu te conheço bem!”); e, por outro lado, sou muitas vezes assaltado por esta evidência: o outro é impenetrável, irreconhecível,intratável; não posso abri-lo, chegar à sua origem, desfazer o enigma. De onde vem? Quem é? Esgoto-me, nunca o saberei.
..............
"Não consigo conhecer-te", quer dizer:"Nunca saberei o que verdadeiramente pensas de mim". Não posso decifrar-te, pois não sei como tu me decifras.
Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70
