domingo, 8 de maio de 2011

Felicidade Clandestina




Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.

Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo.

E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector

sábado, 7 de maio de 2011

Retábulo de noções primordiais



São as noções que fazemos um do outro que se despem, nós não. Nós apenas observamos com desespero, poética de espelho e malícia o corpo nu das noções, as suas inúmeras vilosidades e axilas friccionadas. E a forma como elas se confrontam na ofensa que o desejo fixa, na noite do olhar mais árido. Nós somos só os convidados das nossas noções, os escravos vestidos ironicamente de convidados das nossas noções, e por vezes até nem isso, nada mais do que a pretensão opaca da indumentária.
É como que se tivéssemos levado as noções que ambos fazíamos um do outro a uma festa com piscina, troca de casais, alguma esperança de certa forma atlética na sua convicção de derrocada e o rasto de drogas finas e tentaculares. É como Marte, essa nudez aplicada ao outro com uma sede de esboços retrospectivos e escaparates, ponte móvel de si para si, para deixarmos passar o navio

sem sentido


sobre o mar de nada.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Visão de Clarice




Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 4 de maio de 2011

e nada mais disse


David Hockney



descreveu o início do dia:
o abrir de pálpebras dormentes,
o pousar do braço sobre as notícias,
o apagar do rádio e um pouco de silêncio;
o retorno a um embalo escuro - alguns minutos.

descreveu o momento seguinte:
a perna lenta sobre o tapete,
a dificuldade das agulhas e a luz aberta;
uma linha branca que conduzia os passos,
descalços, em direcção ao dia -

e nada mais disse -

José Ferreira 4 Maio 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Porque ela nada mais teme


Cindy Sherman

......
Porque ela nada mais
teme, a mulher
das ancas de mosaico;
nem a espada
nem o touro
nem o medo:
a fonte está lá e
segreda-lhe ao ouvido
que ela é eterna,
que o seu ser possui
a nascente,
a sua sede, a sua perenidade,
um busto de alabastro,
uma memória de gaio.

Gérard de Cortanze " O movimento das Coisas"

Palavras de Herberto Helder


Francis Bacon

"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo sutil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação."

Herberto Helder (retirado de contoasfavas.blogspot.com)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Clarice Lispector

a casa do telhado


Gustave Caillebotte

há um quadro de perguntas que se desenha na casa do telhado:
será ou não habitada para além de um ar de pó
que se inscreve na seta de luz e atinge o soalho,
as tábuas longas de pinho largo
cor de mel, de uma antiga cera carnaúba,
a mais pura?

quando se abre a porta gigante da sala da lareira
as molduras de gesso falam de um outro modo;
uma voz branca e recortada, uma voz de quadrados,
rectângulos ou folhas minuciosas,
dentro de um grande eco,
onde não se apagaram as luzes nem se faz a sombra -

por vezes, as janelas erguem-se e as portas abrem-se
na incertitude alta de certos dias, a qual invade a liberdade do jardim,
espanta os pardais, e levanta um cântico de ave escondido na folhagem.

na casa do telhado, por uma vez, algo aconteceu de inexplicável:
pela tarde caiu a trovoada; as portas e as janelas abertas -
abriu de novo o sol; as portas e as janelas abertas -
chegou manso um crepúsculo morno de fim de tarde; as portas e as janelas abertas -
avançou a noite no hábito do silêncio; as portas e as janelas abertas -
as portas e as janelas abertas -
passou um guarda nocturno de fato cinzento,
de boné por baixo do braço, de cabelo pardo
em direcção ao teatro, apressado, quatro e dezassete.
fixou as janelas imóveis, as portas quietas
e o vento adormecido;
nenhum ruído nas dobradiças sem óleo,
nenhum ruído.
seguiu intrigado -

um quadro de perguntas na casa do telhado -

pelas cinco, naquele mesmo dia, inexplicável
passou o homem branco da padaria em direcção ao mercado.
trazia um resto de jornal Destak, e soletrava, alto.
colou os olhos no candeeiro do tecto da sala,
pensou se seria ou não habitada
e seguiu no seu passo, repetindo de novo as frases,
do Destak -

o jornal não falava da casa do telhado, nem do horário, inexplicável.
às sete em ponto, um vestido branco cobria a forma de uma porta que fechava;
um vestido de cauda arrastava os súbitos ruídos, certos, exactos,
e a casa adquiria o estado habitual, a fronteiras fechada.

uma única vez, inexplicável -
um quadro de perguntas habita a casa do telhado,
entre o facto real, o ar difuso, enublado,
e a possibilidade -

José Ferreira 2 Maio 2011

domingo, 1 de maio de 2011

Poema à mãe


Pablo Picasso


No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 29 de abril de 2011

nunca se apaga a inscrição na alma


fotografia retirada da internet


passou a páscoa e recordo as amêndoas,
de licor,
aquelas francesas com imagens de açúcar,
delicadas, doces, de sentimentos -
as amêndoas de licor,
de cores: rosa, azul, algumas simulando o branco de uma espuma,
a espuma breve
mas espessa, como o azul do céu;
porque permanece;
qual fotografia solene de um fragmento,
fragmento belo de um tempo; tempo de palavras,
de poemas -

nunca se apaga a inscrição na alma -
esse sinal intenso que transporta a lua,
e as estrelas cintilantes de um relâmpago;
o momento -

guardo-te sempre -

José Ferreira 29 Abril 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quero que estes versos fiquem mudos


Guy Bourdin

.....
...Quero que estes versos fiquem mudos
quando te virem chegar, e tu fores toda a poesia
do seu canto. Tu, a minha musa verdadeira, a quem estendo
o espelho da estrofe para que o teu rosto surja de
dentro dela, com os lábios que beijei, aprendendo
o gosto do amor. Assim, esta imagem do mundo pode
mudar a meio do poema. Basta que tu entres por
dentro dele, batendo com as suas portas, e fazendo-me
sentir a tua presença, mesmo que estejas longe. É
um vento que sopra nas minhas veias, até à cabeça,
onde limpa as nuvens mais cinzentas, abrindo esse azul
de que as aves gostam. Tu, com quem converso sobre
o sentido da vida, ouvindo o teu riso sobre esta maré
que baixa com as vozes que o desejo submerge, enquanto
antigas gaivotas poisam numa areia de murmúrios.

Nuno Júdice "Cartografia de Emoções" Dom Quixote 2001, pág.152

quarta-feira, 27 de abril de 2011

súbitos, os raios salientes


Arpad Szénes 1935

súbitos, os raios salientes.
o cabelo está mais curto que o costume, estende a testa,
que se torna alta, porque se perderam alguns cabelos
no local onde agora os raios quentes -
não se expandiu a profundidade, já grande,
nem a clareza, já imensa,
mas subiu o desejo, e mesmo que por vezes inconsciente,
o desejo possui os miligramas de certeza -

a balança oscila e pende como seara ao vento -

José Ferreira 27 Abril 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Fragmentos VI - Atopos



Guy Bourdin

Perante a originalidade brilhante do outro, nunca me sinto "atopos", mas sim classificado (como um dossier muito conhecido). Por vezes, no entanto, consigo suspender o jogo das minhas imagens desiguais (Não posso ser tão original, tão forte como o outro!); adivinho que o verdadeiro lugar da originalidade não está no outro, nem em mim, mas na nossa própria relação. O que é necessário conquistar é a originalidade na relação.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso Amoroso" Ed. 70 1981

segunda-feira, 25 de abril de 2011

- nas tuas mãos, o meu coração de lã e o frio




a púrpura dos dias

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra

- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.


Vasco Gato "Mover de Mão"

Este país ainda vai cumprir seu ideal