sábado, 23 de abril de 2011
Ah as aparências como são obscuras

Edouard Boubat
Ah as aparências como são obscuras
como são ambíguas!
Elas são e não são
Elas acendem-se e apagam-se
Mas nunca dizem Aqui dói
Aqui é
Elas passam por cima
do que está por passar
como se não estivesse por passar
Com a sua incessante mecânica
preenchem as concavidades
que deixam atrás de si
Elas ocultam a sombra
nos seus espelhos de areia
O osso nunca lhes sai
porque tudo arredondam
para que não lhes escape o vento
pelas frestas das suas frases
e pelas sonoras lâminas
da sua armação de vidro
Elas não revelam o tigre nem a águia
que estão ou não estão dentro delas
e não vêem a dançarina exausta
que se deitou sobre uma cama de folhas
porque entrou no âmbito da imobildade pura
António Ramos Rosa
sexta-feira, 22 de abril de 2011
a filha de Agenor

Renoir
não sei se já falei de Agenor, o da palestina.
dizem os gregos que tinha uma filha
rodeada de lãs, pelos montes, pelos campos verdes
pelo meio das borboletas -
a fiha de Agenor tinha cabelos de oiro
e de vez em quando arrebatava da flauta
melodias
que prendiam os olhos dos rebanhos
e afastavam os lobos -
a filha de Agenor corria todos os dias
nas primeiras horas, as mais frias
quando do manto escuro do céu
se despedia o rosto da lua
ao escrever na campina
palavras, palavras de letras tão grandes
que poderia demorar toda a manhã
para rodear a forma do A.
a filha de Agenor nunca desistia
num fim de noite de meados de Fevereiro
conseguiu dar a volta ao M
percorrer o semicírculo do O;
caiu exausta no dia treze.
quando acordou, a filha de Agenor
procurou o norte da lua
o qual crescia devagar, num dos seus quartos.
às quatro horas da madrugada
a filha de Agenor completou
o semicírculo que faltava
e rodeou a complexidade longa
de uma letra que vista de cima
era uma cabeça e dois braços
um ligeiramente inclinado - R
pala manhã desse dia
procuraram na casa da quinta amarela
na cabana coberta de colmo
no grande cipreste onde por vezes adormecia, exausta
mas nada, um mistério
o rebanho pastava como se a pastora
mas nada, um mistério
e no grande plátano
um 1 e um 4 -
alguns disseram que a filha de Agenor tinha sido raptada
mas outros não -
alguns disseram que a filha de Agenor estava em Creta
mas outros não -
alguns disseram que por vezes os deuses e mesmo Zeus
mas outros não -
alguns falaram de Minos, Minotauro e de um labirinto
mas outros não -
alguém falou da cor clara da lua e dos seus quartos
todos se riram
mas ninguém acreditou-
José Ferreira 22 de Abril 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
A fibra óptica de Ícaro
I
ouvem-se menos as esquinas lá fora
os touros andam distraídos
em redondos dentro de redondos
galerias de pedra de redondos
(só um infinito podia deixar acabar-se assim em redondo)
de cornos sensíveis
a uma certa inclinação de sangue
alguns dançam e rodopiam pescoços
(a mais bela transição)
lançam corpos moles em hélice pelo ar
sabem que os reflexos nunca obedeceram
(a pedra redonda sempre foi um bom espelho
e um touro não pode ser deus)
fica sempre um gesto letra-borboleta
naquela pá-limpa-cesto pouco limpa de mãos
um dedo mindinho girado aleatoriamente
e escrevem-se infinitos de mãos dadas
II
ouvem-se menos as esquinas lá fora
touros sérios sentados em cadeiras olham-se de frente
sentem como certa a inclinação
o binário das esquinas das estrelas dos cabelos das caras moles
o encontro forçado das paredes
quando dois
catorze (infinitas) portas
abrem e piscam em fibra óptica
o céu é um emaranhado de fios de néon azul
(cada um a puxar a saia azul de uma princesa)
e os touros desenham danças inclinadas
(antigos avisos)
na pedra redonda
há sempre touros calmos a rir
de cornos azuis
a adormecer informação nos terraços
em relvas mornas de vulcões
III
ouvem-se menos as esquinas lá fora
(e se existem cornos e esquinas)
a informação queima as asas
só tambores debaixo de água
cheira a mar
e é impossível voar acima das fibras ópticas azuis
sem puxar à velocidade da luz
as saias de todas as princesas
em roda tribal (que nunca se soube escrever)
de sentido contrário à inclinação
pendurados por milhares de fibras
às grandes asas mecânicas
há touros centrífugos a acelerar
e mais alto que o ritmo das esquinas
ouve-se no seu canto:
a casa é um labirinto com uma certa inclinação para o mar
Um poema de Sophia - enquanto longe divagas

Fotografia retirada da internet
I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das
[sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem touro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como árvore no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece a tua alegria
- Tua jovem rijeza de arbusto –
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Sophia do Mello Breyner
quarta-feira, 20 de abril de 2011
o boletim do tempo anuncia aguaceiros

eras gordinha, redondinha e tinhas cabelos amarelos.
adolescias no olhar brilhante as dezassete primaveras
e escrevia-te poemas de métricas tortas que falavam de violetas,
as mesmas que tirava dos canteiros
e enfeitavam as dobras das cartas, as dobras dos livros,
as dobras dos segredos.
rodávamos as línguas e passeávamos de mão dadas
junto ao mar, na largura azul da foz
no perímetro de um semicírculo de rochas, molhando os pés
e comíamos croissants ou gelados, ou outros tantos pecados
que lamentavas.
nunca tive dedos grandes de pianista
nem um lago claro no redondo dos olhos.
os cabelos eram negros, agora não -
e os dedos, sim os dedos, por vezes
subiam a montanha dos teus seios
e demoravam-se -
no escuro das salas cheias de cinema,
no pormenor branco das rendas,
nas partes lisas, nas sedas ligeiramente subidas;
e demoravam-se -
no encontro bem sucedido das íris
enquanto um filme,
sem interesse.
o eléctrico era o dezassete ou o dezoito
descia nas tardes suadas a inclinação ousada da Avenida,
sempre apinhado, na espera de um toque no cordão, a campainha,
a viagem lenta, metálica, a música alta dos carris, constante -
não me importava. pousava o queixo no dourado dos cabelos
e oscilavas o rosto, encostavas a face ao lado dos ombros -
e sabíamos. sabíamos da fonte e do rio. os ruídos. as batidas.
as casas eram bonitas, de quatro cantos , rodeadas de árvores:
quando for grande. quando for grande.
usávamos sempre calças de ganga e botões apertados
ou desapertados, conforme os dias:
é verdade, tinha uns calções justos de faixa laranja
e usavas a tentação de um bikini, uma prisão às riscas,
que vestias.
foi há muito tempo. foi há muito tempo.
foi agora. foi agora mesmo.
dentro da minha cabeça.
caíu uma trovoada esta noite. a temperatura é boa
mas o dia é cinzento e o boletim do tempo anuncia aguaceiros.
por vezes chove -
José Ferreira 20 Abril 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
DE SONETO
Confesso
que as paredes não me encantam tão vazias,
ou que em chás não me suspiro das ausências
- manias.
Mas tentei ferver-te brando e não havias
E tu sabes que eu só durmo de mãos quentes.
Orfeu chega-me leve e de soneto.
Das rendas e das linhas pouco havia,
mais voltas
e o meu pé não descosia
- e a lua tão maior fora do berço.
Das notas
não pretendo o que não peço
- e o sono que me vira sem avesso.
Voltaste,
mas os linhos não cosiam.
E as luzes sem Sul
e ovelhas silvestres
- fragmentos.
Não tinhas pés mas tinhas ventos.
Ocorre-me que é fraco o meu registo
que outrora não serias tão vazio
- como de nuvem.
penso
mas tão pouco do que existo
que as fronhas menos são que neblina.
Não danças, eu aceito
não insisto -
sem tranças não me sinto tão menina.
Ficaste.
Mas não venhas sem maneiras,
sabes que sou mais joelhos
do que travos de canela.
As preces não tas rogo sem olheiras.
Não venhas
que dispenso mais barriga
ou noites em que passes sem leveza.
Não durmo e já duvido que consiga.
Ficaste
mas o céu já não abria -
e eu sou toda cotovelos sem poesia.
O chá já me arrefece as más decências.
Não quero mas suspiro-te as ausências.
Vai, podes ir.
Complacências de quem ama sem dormir.
Maria Inês Beires
ps: só agora me lembrei que não tinha publicado este!
segunda-feira, 18 de abril de 2011
PRECISO DO VOSSO VOTO!!!!!!!
o abismo

Paul Klee "Lovers" 1920
passa a linha, atravessa a fronteira, descobre o abismo.
porque o abismo pode ser a cortina que interdita,
o limite que aponta o escuro e se engana,
e ser no entanto um oceano, um horizonte, uma estrela.
o abismo é humano, emocional.
o plâncton invade o mar e alimenta os peixes
na mistura múltipla de sal e água, a forma natural
na submersa actividade do inato,
não há iluminismo, crítica ou razão;
o significado nas escamas prateadas
é um impulso eléctrico: abre as brânquias, separa, avança;
não é complicado, é obrigatório, irracional.
o abismo humano numa rua da cidade pode ser erguer os olhos,
abrir uma janela, encontrar uma ilusão,
parar ou seguir em frente, sabendo sempre
que o andar do tempo, veda o arrepio,
fecha a porta na passagem, deixa a dúvida como brilho.
o abismo pode ser a lua, branca e iluminada
numa noite exacta de primavera, de Abril,
quando o calor aperta as lajes rubras
e acende luzes nos rostos sombreados de distância.
o abismo pode ser um botão que se liberta
e abre a seda da pele, como que indiferente,
a discrição lenta da mão, o subtil no deslize
de dedos ensimesmados, demorados,
enunciando o trajecto oculto;
a denúncia do desejo -
o abismo pode ser um fumo branco e a brasa incandescente,
a água fresca, o plátano alto e o ouriço da árvore,
o jasmim desmaiado, a glicínia num fim de tarde,
o bago verde, o morango vermelho,
o grito forte, o frémito silenciado,
querendo e não querendo,
um medo sofrido,
de tudo, de nada -
o abismo -
passa -
passa o abismo -
de tudo, de nada -
o abismo -
José Ferreira 18 Abril 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Contudo, contudo

Sid Avery "Liz Taylor"
Contudo, contudo
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Álvaro de Campos "Poesia" , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Borboleta, tu despedaças
sábado, 16 de abril de 2011
Séraphine - um poema sobre o filme

Séraphine de Senlis
invadido pela simplicidade original de Séraphine
imagino os seus olhos fechados
por sobre o quadro, respirando a aura -
imagino umas socas escorregadias no empedrado,
nas voltas de um fim de tarde, rápidas e sonoras
a subir escadas, a fechar a porta,
do quarto, do quarto -
imagino as cores, os óleos naturais,
a mistura de pastas em essências extensas e sólidas.
imagino os golpes certos da espátula,
os dedos grossos, gretados, as pupilas iluminadas -
imagino a tela ao fundo, junto á janela, larga, alta,
e o rosto inclinado, a língua de lado, fora do lábio -
imagino a leveza infantil do gesto -
imagino o barro das imagens -
José Ferreira 16 Abril 2011
sexta-feira, 15 de abril de 2011
XXXV - Um poema de Pablo

Salvador Dali "A aparição da cara de Afrodite" 1981
A tua mão voou dos meus olhos para o dia.
A luz entrou como uma roseira florida.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
A tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
galhetas com azeite amarelo,
corolas, fontes e, sobretudo, amor,
amor: a tua mão pura poupou as colheres.
A tarde foi-se. Secretamente a noite deslizou
sobre o sono dos homens sua cápsula celeste.
A madressilva soltou um triste aroma selvagem.
E a tua mão voltou voando do seu voo
a fechar suas penas que julguei perdidas
sobre os meus olhos devorados pela sombra.
Pablo Neruda "Cem sonetos de amor" Trad. Albano Martins, Campo de letras
O momento de Doisneau

1. Muito antes de Freud, já Stanislavski tinha chegado à conclusão de que um sentimento é como um dirigível, por mais imenso que seja é sempre mais leve do que o ar, e no seu cockpit há pelo menos um narrador e um co-narrador, os dois muito atentos ao seu papel de condutores únicos e exímios do destino comum de uma narrativa, que é sempre uma viagem mais ou menos longa e significativa de balão ou dirigível, atravessando o capítulo da nudez de tudo à velocidade imprevista de sempre.
2. A corporização radical da personagem proposta por Stanislavski é, no mínimo, apetecível: Stanislavski pretende imitar a fundo o real, usando e abusando dos vínculos ditos “naturais” da realidade e, detendo-se nas suas luminosas estratégias de imitação eficazes e antigas, construir uma espécie de fenómeno de actuação sobre a actuação propriamente dita, recebendo do texto crepusculares mundos fingidos, sentidos como Pessoa queria que sentíssemos o fingimento, projectando-o muito para além das suas próprias fronteiras e expectativas.
3. No fundo, Stanislavski queria imprimir no actor aquilo que no poeta navega apenas na distância mater da sua escrita. Ou, talvez, por outro lado, dotar o poeta de toda aquela perícia que envolve o actor, da maquinaria ignóbil do corpo humano quando realçado entre os seus, entre os que assistem vestidos ao bailado analfabeto dos seus gestos e passos torpes na periferia do indizível, inventário tradicional de posturas patéticas e autênticas. Mas mais do que isso, Stanislavski tinha vontade de autenticidade histérica, noções muito presentes no amor, quando o impacto entre dois corpos e os papeis que lhes foram atribuídos produz esse tão estranho “método de acções físicas”, tendo apenas em vista a satisfação de uma promessa proveniente do interior incómodo do indivíduo, que sempre nos é indevida, excepto nos lugares extremos.
4. Ora, todo o lugar é um lugar extremo, se nada mais além desse lugar existir. Toda a expectativa consumada é uma ópera que conspira. Como no momento de Doisneau.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
telhados
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