sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

a chama inebriante do gengibre


Annie Leibovitz


aguardo sempre impaciente a inconsciência dos meus degelos
quando me transformo no meu outro escondido.
e ao gostar mais dele do que de um diário de acidentes
aguardo essas chegadas e partidas
quando me visto de aromas, vários ventos e faúlhas
na acesa transcendência dos sentidos
sem medo do sangue vivo, das múltiplas feridas
do excesso das queimaduras, do gelo mais gelado dos granizos
no sem limite dos sonhos, até ao limite das cinzas.

sonho. sonho sonhos.
não à poeira contínua,não às trevas, sim aos sinos
quando nascem os dias de roupagens clandestinas.

sonho. sonho sonhos.
sem ser gente, na metafísica de ser inconsistente
sem acordar as inexistências
e não ser nada e ser apenas
um ser sem ser, um ser vazio
um ser sério, sem poesias
um ser sem ser, sem o mistério
de púrpuras e purpurinas
sem a chama inebriante do gengibre
no meio de uma floresta nas amígdalas
sem as loucuras da pele, as cartas ridículas
sem os triângulos das pirâmides que são muito antigas
antes de Cleópatra, depois das mitologias.

sonho.sonho sonhos.
aguardo sempre o palco breve de Keats, de Shakespeare
aguardo sempre impaciente o sono da consciência
o sonho não-consciente, sem regras nem mandamentos -

José Ferreira 4Fev2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poema em linha recta

Realmente quem, aos dezassete anos, declama e performa assim poesia, ainda para mais do Álvaro de Campos, merece destaque (Obrigado ao José Almeida que me deu a conhecer o jovem talento).

não sei porque saíste


Edouard Boubat


disse
faltavam ainda milhares de gestos
não sei porque saíste da frente do espelho.

- pousou os óculos e acendeu um isqueiro
naquele jeito religioso de um nirvana no meio de um concerto
como era possível ser o único no meio da melodia -

não sei porque escondeste esse olhar de sereia
de afundar navios, a pique, agora, quando
desaprendi a sobrevivência nua de ser ilha.

- foi obrigado a pousar a caneta inclinada de bolina
enquanto o gato lhe subia o colo
arredondava o dorso numa curva da espinha
e no olhar suplicante de uma festa
acendia o seu modo de trabalhar afectos
e exigia a repetição contínua
pelo meio da cabeça, esticando as orelhas -

não sei porque recusaste o devaneio das luas escondidas
o jogo erotizado das cortinas.

- o gato pequeno mesclado de tigre
miou o desespero de poder viajar o ombro
e descer de novo ao colo na tremura dolente -

como conclusão que não surpreende
o poeta desistiu provisoriamente do poema
- enquanto insaciável afagava o pêlo -
e o gato de olhar intermitente
simbolizou ao mesmo tempo o desejo e o recalcamento
enviando sinais de fogo a cada novo movimento
da pele ao deslizar os dedos -

José Ferreira 3Fev2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pedro lembrando Inês


Edouard Boubat

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

duas horas da manhã o aquecedor no máximo


Luís Lobo Henriques


duas horas da manhã o aquecedor no máximo.
os pincéis esfregam os cabelos em cem por cento algodão
misturam cores organizadas e suaves, na absorção serena
de um quadro húmido; a impressão de ser esta a cor mágica
aguarelada; um verde mar, um barco sépia, a transparência rosa
no fundo do fundo da água ao encontrar a tarde descendente
os olhos abertos do areal, bege e largo.

duas horas e um quarto o aquecedor no máximo.
o pintor interroga-se dos pormenores. o mar está calmo.
no barco desenha os braços, dois de cada lado -

José Ferreira 1Fev2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

XVI


Annie Leibovitz

(mais um poeta concorrente ao prémio "Correntes d'Escrita")


Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,

ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras

enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):

fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.

«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.

Luís Quintais "Riscava a palavra dor no quadro negro" Ed. Cotovia 2010

domingo, 30 de janeiro de 2011

o sintoma era aquele bater de asas


Leonardo da Vinci "Código de voo das aves"


o sintoma era aquele bater de asas
querendo ganhar o espaço com o peso pesado do tronco
o chumbo dos ossos, o lastro dos pés colados na calçada
sem sair para qualquer lado -

desactualizado estava o divã vermelho, a poltrona escondida
o bloco aberto na ponta do lápis, o cofiar da barba.
desejado era o face-a-face, o desfolhar associado de palavras
recolhidas no fundo da alma.

e de que é feita a alma?
feita de dúvidas plenas ? de nuvens largas?
de histórias e viagens?

aquele incessante bater de asas -

qual o segredo das células? o verdadeiro estado?
a identidade rodopiante sem catarse?

e o sintoma
sem sair
para qualquer lado -

sábado, 29 de janeiro de 2011

O azul líquido do Grand Canal


O azul líquido do Grand Canal


O azul líquido do Grand Canal
Em Veneza incendiada.

O vestido de cetim branco
Num corpo de Angeline
Debruçado sobre a noite.

Lustres de luz de murano
Num palácio outrora habitado
Balzac ou Proust?

O olhar enganador de cândido
O vilão que não era.

Pontes e canais e gôndolas
Um nevoeiro nocturno
A dissipar-se.

O amanhecer de ouro
Na cidade que flutua
E sabe
De um “cristal clear”
Que há lábios em todas as gôndolas.

Olho em volta
O escuro de uma sala
O momento escondido que se deixou
Atravessar de cenários, belezas de cinema
E um ecrã, perto, perto de mim.



Auxília Ramos

Um lapso à escuta


Fotografia retirada da internet

(Comecei a publicar com a Filipa Leal e agora com Armando Silva Carvalho alguns dos poetas concorrentes ao prémio Correntes d'Escrita 2011 de poesia)

1

Não há exaltação
este novelo de sombras
e nos ouvidos
a carne descansa o seu
abecedário.

Tornei-me este planeta por ofício.
Alguns colegas pedem: capelas,
luxos, alquimias.
E outros puxam, palavra
por palavra,
peixes de silêncio.

São atletas de Deus.
E eu confirmo.
também já conheci
os mais puros exercícios
do espírito.

E eu ainda: devagar,
em órbita fechada,
no tempo,
o melhor templo.

2

Inclino na folha
a imprecisão de Deus

Quieto na idade
eu já ouvira
o verbo feito luz

Tacteio o nome
incerto

Fixo o lamento
para a eternidade

3

Na sala ouvia os animais
que nunca vira
e a mão de Deus
batia nos pinhais

Estou só e cheio
do pavor do espaço
o céu abre-se ao meio
e cai-me no regaço

Tão feminino
seu gesto na brancura
dá-me o destino
a troco da loucura



Armando Silva Carvalho "As Escadas não têm Degraus" Ed. Cotovia

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Este Livro foi escrito há muito tempo


Fotografia de Daniel no site Olhares


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer

*
À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*
Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.
*
Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite
*
Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.



A Inexistência de Eva, de Filipa Leal, Deriva, 2009

Simon e o canário amarelo


Paul Klee "paisagem e pássaros amarelos" 1923

o disco sol girava no amarelo forte, um princípio tardio
depois da enublada manhã cinza.
corria um ar grave sobre os cravos brancos
sem a cor rubra de setenta e quatro.
as mãos alimentavam uma música de blues
na suspensão de teclas que estendiam as tonalidades
à companhia de uma voz rouca, de cordas gastas
no excesso de horas sem intervalo, horas repetidas.
os dedos de pontas quadradas reflectiam atrasos no tempo ternário
e suportavam o resumo de textos que se misturavam em indecisas palavras.
o peso insubmisso da inconsciência traçou o fim do caminho
a queda forte sobre a melodia, a cabeça, sobre as mãos lentas
num acorde de sustenidos, fá menor, Simon, sound of silence.
um ruído imenso. a queda de um granito denso, a cabeça.
desde a madrugada, antes mesmo do nascimento de uma luz baça
conseguira povoar de passos os círculos da sala
transformando as ideias num fumo vago, até ao cansaço
até ao sentar-se , exausto, no banco novo do piano
de mecânica sensível, precisa, na regulação das alturas.
recordou obsessivo todas as canções que sabia. doze horas.
doze horas seguidas, doze horas seguidas;
o inverso da sublimação, o estado sólido, o peso metálico de chumbo.
mais não. calava o cansaço nos olhos raiados de vermelho.
calava e calava-se sobre as teclas do piano

enquanto o canário compreensivo, no alto da gaiola, desafiava o gato negro
e assente sobre as patas, de ar convicto, incandescia o ar de uma outra melodia-

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os versos que te fiz

Encontra mais artistas como Clara Ghimel em Música do Myspace


Clara Ghimel "Entre- Mares"


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

ao acordar podes apontar a arma


Gerard Richter


ao acordar podes apontar a arma
dispara, não falhes.
todo o poeta deveria provavelmente saber
que as palavras têm um duplo sentido
um branco e um preto
e quando as escreve, frequentemente
afunda-se no subjectivo, uma ilha
e alinha a caneta com as raízes, por vezes pequenas
do seu pensamento.

portanto não há lugar à desculpa fraca.
ser poeta não é ser idiota.
é interdito magoar as folhas que pousam na erva.
por isso não desistas, verifica o número de balas
e ao acordar podes apontar a arma
não hesites
não esperes pela abertura perigosa dos olhos
dispara, não falhes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Avistei a boca ao entardecer


(fotografia retirada da internet)


Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas,

mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.


Catarina Nunes de Almeida "A Metamorfose das Plantas dos Pés" Deriva, 2008

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

luzes (...luzes)


Alfred Sisquella "Luvas Brancas"


estas luzes inomináveis que se prendem constantes
em lugares múltiplos, físicos
tão próximas quanto o ar que respiramos -
luzes diferentes, clarões operantes, em fragmentos
extremando os limites do pulmão, oxigenizando
os dióxidos de uma tosse intermitente
um desequilíbrio do impossível -

estas luzes insistentes de um olhar de fogo
sem cedências, permanentes
qual final de opereta descendo o pano, alargando o sorriso líquido
impedindo a desistência de sentir, a afluência rubra, luzes…
…luzes, incondicionáveis, inomináveis, tuas
provocando os caminhos aerográficos da consequência;
palavras, palavras flutuantes, palavras insinuantes
palavras navegantes, nuas
como pétalas caídas da profundidade dos dedos, tuas
qual espuma flexível de luvas brancas
música de sílabas, música de luas
na opacidade de esconder o tempo
que se aproxima -

José Ferreira 25 Jan 2011