segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

La memoire et la mer


LA MEMOIRE ET LA MER par Mônica PASSOS
Enviado por jeanlouislaforet. - Clipes, entrevista dos artistas, shows e muito mais.


La marée je l'ai dans le coeur
Qui me remonte comme un signe
Je meurs de ma petite soeur
De mon enfant et de mon cygne
Un bateau ça dépend comment
On l'arrime au port de justesse
Il pleure de mon firmament
Des années-lumière et j'en laisse
Je suis le fantôme Jersey
Celui qui vient les soirs de frime
Te lancer la brume en baisers
Et te ramasser dans ses rimes
Comme le trémail de juillet
Où luisait le loup solitaire
Celui que je voyais briller
Aux doigts du sable de la terre

Rappelle-toi ce chien de mer
Que nous libérions sur parole
Et qui gueule dans le désert
Des goémons de nécropole
Je suis sûr que la vie est là
Avec ses poumons de flanelle
Quand il pleure de ces temps-là
Le froid tout gris qui nous appelle
Je me souviens des soirs là-bas
Et des sprints gagnés sur l'écume
Cette bave des chevaux ras
Au ras des rocs qui se consument
Ô l'ange des plaisirs perdus
Ô rumeurs d'une autre habitude
Mes désirs dès lors ne sont plus
Qu'un chagrin de ma solitude

Et le diable des soirs conquis
Avec ses pâleurs de rescousse
Et le squale des paradis
Dans le milieu mouillé de mousse
Reviens fille verte des fjords
Reviens violon des violonades
Dans le port fanfarent les cors
Pour le retour des camarades
Ô parfum rare des salants
Dans le poivre feu des gerçures
Quand j'allais géométrisant
Mon âme au creux de ta blessure
Dans le désordre de ton cul
Poissé dans les draps d'aube fine
Je voyais un vitrail de plus

Et toi fille verte mon spleen

Les coquillages figurants
Sous les sunlights cassés liquides
Jouent de la castagnette tant
Qu'on dirait l'Espagne livide
Dieu des granits ayez pitié
De leur vocation de parure
Quand le couteau vient s'immiscer
Dans leur castagnette figure
Et je voyais ce qu'on pressent
Quand on pressent l'entrevoyure
Entre les persiennes du sang
Et que les globules figurent
Une mathématique bleue
Dans cette mer jamais étale
D'où nous remonte peu à peu
Cette mémoire des étoiles

Cette rumeur qui vient de là
Sous l'arc copain où je m'aveugle
Ces mains qui me font du flafla
Ces mains ruminantes qui meuglent
Cette rumeur me suit longtemps
Comme un mendiant sous l'anathème
Comme l'ombre qui perd son temps
À dessiner mon théorème
Et sur mon maquillage roux
S'en vient battre comme une porte
Cette rumeur qui va debout
Dans la rue aux musiques mortes
C'est fini la mer c'est fini
Sur la plage le sable bêle
Comme des moutons d'infini
Quand la mer bergère m'appelle

- da existência dos sonhos


Henri Rousseau


O sonho tem estas árias misteriosas
que acompanham as manhãs frias
músicas muito antigas numa voz rouca e sensível
com andas de mãos grandes encaminhando os pés
uma corrida num monte limpo
na fuga imprevidente de uma aula incompleta
um abecedário esquecido, um pó sem origem
um filtro de realidade, filtro branco gotejante
de segundos, nos ponteiros pálidos da nebulosidade.

os passeios são os mesmos na cidade, a inexistência de garças
os vapores na frente dos lábios, os mesmos, breves
transformados no próprio ar químico, vaga irrealidade
repetindo, repetindo sempre sem dar lugar à consistência
porque é essa a natureza, o lugar escondido
o lugar escondido.

são os mesmos os passeios da cidade na manhã fria
e não consta que cheguem hoje, segunda-feira
os extraterrestres do destino desenrolando papiros
afirmando cronologias definidas, passos certos de uma dança
atrás à frente, de lado, vira agora, não consta.
e o café, que é o mesmo, preto de anfetamina, vibrando as células
ainda adormecidas, surgindo como vício, o vício dos dias
solta as livres letras como um fumo desprendido
uma associação livre, uma leve transparência de um mundo inconsciente
sem a percepção de o quanto a dosagem, a mistura, a percentagem
de açúcar e farinha que sobe de dentro, conduzindo
empurrando o aparo, soltando a tinta, tisnando um pouco as figuras de estilo.

hoje, segunda feira, 24 de Janeiro, os passeios são os mesmos
e não ouso interromper esta ária de segredos, dentro, os sonhos
não ouso desapertar totalmente os laços de uma fita
semi-aberta, semi-fechada, dourada e brilhante
observo-os na felicidade constante de uma oferenda
de um outro dia vinte e quatro, dentro de uma meia
junto a pedras ainda ofegantes de cinza, a lareira
e o entusiasmo de saber que existem e estão lá dentro -

os sonhos não são como os passeios da cidade
nem sempre são os mesmos, às vezes surpreendem
quando surgem como um quadro naïf, uma ingenuidade
na cor verde do exagero, originais, provocando o sorriso
na realidade dos dias -

José Ferreira 24 de Jan 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

À profundidade de mil beijos - Thousand Kisses Deep


………………………………………………….
Amei-te quando te abriste
Como um lírio com o calor
Sou apenas um homem de neve
De pé à chuva e ao granizo
Mas não tens de me ouvir agora
E cada palavra que digo
Há-de contar contra mim
À profundidade de mil beijos

Correm os póneis as raparigas são jovens
As probabilidades são para ser batidas
Ganhas por um momento depois termina
A tua sequência de vitórias
E convocado agora para lidares
Com a tua invencível derrota
Vives a tua vida como se fosse de verdade
À profundidade de mil beijos

Ando a dar ao corpo ando a pôr-me na linha
Estou de volta a Boogie Street
Perdes o controlo da coisa e depois escorregas
Para a Obra Prima
E talvez eu tivesse muito que viajar
E promessas a cumprir
Desfazes-te de tudo para poder viver
À profundidade de mil beijos
…………………………..

Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Trad Vasco Gato Ed. Quasi 2008

sábado, 22 de janeiro de 2011

dor

doi
quando só encontro a concha
o aglomerado de ossos
a trama de músculos
o lençol de pele
a forma física
e objectiva
e tocável
e visível
de seres tu

doi
quando só encontro o vazio
frio e húmido
de casa desventrada
onde esfolo os nós e a alma
de tanto bater
onde enrouqueço a voz
e a perco de tanto chamar

doi
uma dor fina e funda
de consciência quase desmaia

doi
e não mais deixa

Fim de tarde

fim de tarde
e de passeio
o dia já vai longo
rocha urbana
procura o céu de cimento
em sobrepostas camadas
paredes nuas, duras
de emoções e formas cruas
transforma-se
em laivos de brilho quente
reflexos de ouro
poiso do olhar de longínquo astro
vejo, não reconheço
o invertido espelho
brinca
em jogos de luz e sombra
formas redondas e esguias
buracos negros
para além da matéria
abrem-se portas
de silêncio
um novo mundo
salto no desconhecido

Clara Oliveira

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Emily


Hughie Lee Smith 1970


Não pintarei - um quadro -
Queria antes ser Aquele
Habitando-lhe - em delícia -
No impossível brilho
Pensando o que os dedos sentem
Seu toque - divino - raro -
Evoca doce Tormento -
Sumptuoso - Desespero -

Não falarei, como Trombeta -
Antes queria ser Aquela
Docemente erguida aos Tectos -
E, leve, para além deles -
Por Aldeias feitas de Éter -
Um Balão dotado só
De uma ponta de Metal -
O cais para o meu Pontão -

Nem queria ser Poeta -
Melhor é - ter o Ouvido -
Amante - frouxo - contente -
Licença de venerar,
Terrível privilégio
Que legado seria,
Tivesse eu a Arte de me atordoar
Com Raios de Melodia!

Emily Dickinson "Cem poemas" Relógio D'Água Trad. Ana Luísa Amaral 2010

a força do seu gesto


Imagem retirada da internet


o espaço de uma sala, lugar físico de um encontro
enquanto ao lado o burburinho que espantava os pássaros
habitantes sedentários de fim de tarde na camélia florida
de cor vermelha, abrindo os ramos de sentidos nas folhagens
braços um pouco longínquos, de um tronco não muito largo, inclinado
lembrando aromas, intensos, num corpo sem espinhos.
a sala como pretexto onde a dúvida incidia
qual raio beijando as curvas da cortina e caindo na pele de uma Bíblia
antiga, e um livro de Céline.
- Nunca li Céline - ele disse, quebrando o silêncio explícito de ruídos íntimos
- Céline é diferente- ela disse, no suporte seguro de um ponto invisível
um argumento de janela fechada, sobre o assunto, sobre as folhas do livro
não era esse o motivo de dois corpos afastados na sala junto ao burburinho
do mesmo modo que o baloiço, no quadro a óleo, suspenso no movimento
no centro pérola da parede, acetinada; tonalidade escolhida numa loja da cidade.
não. estava cansada, sentia a pressão da mudança. não, não seria Céline.
ele sentou-se no banco preto do piano. deslizou os dedos de modo inconsciente
sobre algum pó no verniz, negro e brilhante, um tampo como uma cama
de cordas adormecidas, invibrantes, mudas, de um som impossível.
- Sabes - e os olhos não se cruzaram, os dela na nuca dele, os dele no gesto
no acto deslizante, nos dedos viajantes na superfície lisa de uma cor escura
apercebendo o fogo, a intensidade de uma fogueira, crepitando na distância
um eco dentro da cabeça, juntando palavras, fazendo frases, uma outra sala
um outro quadro, os mesmos actores num palco de cortinas fechadas
tentando adivinhar o SE e SE, qual a reacção, como seria
mas, um atropelo, um engarrafamento de silêncio. nada.
ela, no tecido Laura Ashley, rosado, um sofá luminoso no meio da sala
cruzando e descruzando, ajeitando a imperceptível ruga de um vestido
trocando os pés, rodeando a orla de um tapete, à vez, um jogo
no intervalo de uma fala com falta de consistência, quando a expectativa
a expectativa alta como os montes de Himalaia, as águas de Niagara
uma melodia viva de Mozart e menos Schoenberg, fragmentos entrecortados.
- Sabes - de uma jarra de cristal, Atlantis, oferecida pela tia, caiu uma pétala
adormecida, uma seda clara de magnólia sobre a mesa onde a Bíblia, Céline
um sinal de Natureza oscilando no côncavo, ou convexo, conforme a óptica
de ar ou mesa. Uma pétala, interferindo, e a mão que recolheu a densidade
inusual nas outras flores, mas ao mesmo tempo, sem o parecer, frágil, indefesa
sem a condição de concha sobre estames, os sinais de próspero e possível.
os dedos acariciaram a concha ávida num desejo de feijoeiro mágico
um, dois, três, crescendo, crescendo, como um manto grande, grande.
os dedos dela acariciaram a concha ávida. o olhar numa outra direcção
a janela, um quadriculado sobre a árvore. levantou-se com pressa.
abriu a janela e pousou a pétala no parapeito verde, recentemente pintado
com as duas mãos, como uma mãe, um berço, um recém-nascido.
um ar frio invadiu a sala, o argumento, a intensidade do silêncio.
- Sabes - permanecia afundado num poço de fim indefinido, um lugar sem luz.
ela abriu um sorriso, iniciou um pequeno trajecto, delicado no passo, lentamente
sentou-se no colo dele, não deixou que o abraço se fechasse
um filme antigo,a preto e branco. quando os olhos se cruzaram, tomou-lhe a mão
que deslizava sem ordem, trémula e indecisa e escreveu uma palavra na superfície
visível, no pouco pó, no muito brilho do silêncio e das cordas escondidas do piano.
nas linhas presas de uma testa pálida pousou o sabor vermelho dos lábios
- Eu sei, não é fácil - saiu dizendo - não te esqueças de fechar a janela
e sorria sabendo da força do seu gesto -

José Ferreira 21 Jan 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

quando - sem limites


Henri Cartier Bresson


pelas ruas sem mãos e sem braços
um tempo sem graça, desabençoado
um desgosto de não estender as palavras
as rugas extensas sem o calor dos raios .
os cafés são mendigos inoportunos de cadeiras vazias
de mesas abandonadas, lugares de deserto
sem oásis, sem palmeiras, sem folhagens
pelas ruas, invisibilidades de fantasma
direcções e sentidos tracejados
sem a forma contínua do desafio, navegando
as águas instáveis de um cabo de tormentas
um adamastor insistente de olhos grandes
super, ego, ego, medonho por sobre as ondas

quando? quando voltam as asas? de símbolos
signos, linhas, tintas
o desejado sofrimento, encoberto de medos
arestas, vértices, lados imersos
quando ? quando voltam as mãos os braços?

quando? quando? quando voltas? de olhos arredondados
néctar, poção mágica, mel, luz e favo
cruzando a minha insignificância, o meu desespero
a minha independência de ave absorta, planando
atravessando as nuvens espessas, as rotações indeterminadas;
céu e terra, noite e dia, segundo e hora, a rotina
o quotidiano perverso de emoções mínimas
sem planícies, searas ondulantes de cio
faces inconscientes, estios de rutilo
árias íntimas, mundos indefinidos
sem limites -

quando? quando?

José Ferreira 20 Jan 2011

TERMINAL DE DESILUSÃO

Afundo-me na tristeza,
sem as lágrimas convulsivas de outrora,
mas compulsivamente irrascível;
nada mais vale a pena,
não interessa sequer avaliar
porque se demoliu o amôr,
ou porque se esfumou a paixão(?).
...o fulgor do sol também se esvai,
e o vento ora sopra de rompante,
outras vezes porém tão meigo é,
apaziguador, e tão refrescante!
...............................
...Hoje, o dilúvio assassino
perturba a doce paz da foz
do meu rio de encantos!...

(Quando o(a) companheiro(a) de uma longa e
emotiva viagem foi a paixão, ou simplesmente
uma excelente e amiga criatura que no final
se despede para sempre...como que a morte o(a)
tenha levado).

- António Luíz, 13 a 19/01/2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

tesouro intangível

estava uma aranha na parede
junto à esquina do postigo,
quem vem a descer as escadas do sobrado.
uma aranha enorme.
acto contínuo tirei o sapato e
esborrachei-a.

o bicho estava grávido
e um enxame de miniaturas de cabecinhas
com patas a mais
desceu a parede até ao soalho -
vagarosamente.
segui-o com o olhar
que se me foi encharcando de lágrimas
com sabor a pó e a culpa.

tu vieste saber de mim.
deste-me colo para eu chorar a vergonha
e perdoaste-me no fim.
raquel patriarca
vinte.julho.doismiledez




terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ando descalça
não me lembro de o dizer
quase ninguém olha para
baixo, para cima
veriam não existir pretensão
sei nada

se apenas olhasse para espelho
as perguntas se perderiam
fugiria a surpresa
não dançaria

e ando

são muitos os poemas que começam por Sabes


Edward Weston




são muitos os poemas que começam por Sabes
num diálogo de inexistência, transcendentes de reflexividade
como se ali em frente ou caminhando, lado a lado.
são muitos os poemas que começam por Sabes
como letras desenhadas numa carta, um diálogo imperfeito
pois o corpo, o rosto, a linguagem dos lábios, uma mão suave
um recontar de linhas, uma sede de palmas
abertas, fechadas, sobre os dedos, por vezes apertadas
tão apertadas, como se únicas, ligadas.

são muitos os poemas que começam por Sabes
sem resposta, falando das árvores, sobre as folhas
o verde das folhas, sobre as raízes nos lugares de plâncton
sobre as raízes nos lugares de tudo, nos céus de nada
são muitos, sobre as aves de braços espetados como setas
uma de cada lado, setas de ponta quebrada
altas, sobre um mar oceânico, sem barcos, sem âncoras
livres, tão livres quanto as palavras.

são muitos os poemas que começam por Sabes
querendo adivinhar se usas um lenço azul, uma trança de lado
um Ipod, um moleskine, um diário personalizado
registando esse desviar de ponteiros, o seguir em frente
um tempo sem muito tempo para o importante, o quotidiano
como um marco do correio, recebendo, as minhas
as tuas, as minhas, as tuas cartas.

são muitos os poemas que começam por Sabes
nas ruas, nas salas, nos silêncios do quarto, um ruído abstracto
dentro, um terramoto sem escala, um aperto, último instante
em que coloco a folha, observo-a, a finalidade, a sua dança
a sua música, breve ou larga, um sopro, doce, aliciante
um rio, tocando as margens, perceptíveis como as borboletas
silenciosas, ar e águas, sem barragens.

são muitos os poemas que começam por Sabes
e não sei, não sei se os agarras, nem como os guardas
mas prometo, prometo, escrever sempre, sempre, difíceis, fáceis
na metáfora, de múltiplas formas, rimas, externas, internas
multiplicadas de mil lados, como os dias
as horas, a mudança branca e escura dos modos, noites
de noites, onde planam as ausências e os mistérios
um manto brilhante de estrelas, uma seda acesa
células de uma pele imensa onde circula o sangue
e as marcas dos versos nos lábios dos poemas -


Sabes -


José Ferreira 18 Jan 2010

sábado, 15 de janeiro de 2011

Lugares Comuns


André Kertész 1928

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mais adiante)


Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são

Ana Luísa Amaral,"Inversos", Dom Quixote 2010

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

nada sei


Edward Weston

nada sei sobre os segredos do teu mar
qual o tamanho das ondas que consideras perfeitas
mas admiro essa certeza nas palavras
um olhar magnífico no despontar das rosas

o belo e a poesia de mistérios -

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas de luz antigas


Henri Rousseau" Mulher passeando numa floresta exótica" 1905


Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)

Ana Luísa Amaral "Inversos" Ed. Dom Quixote 2010