Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos, violência, escárnio, confusão odienta, primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam - apenas uma angústia melancólica, sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados, falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
no lugar parado da estrada observo e escuto o outro lado do vidro a cortina onde tudo fica:
uma mesa pequena, uma toalha bordada uma bandeja clara e o espaço diagonal de dois livros de capas esbatidas, antigos; e não tem qualquer importância porque a resistência é das letras - a sua arte.
as roupas diminutas de uma noite curta as pupilas erigidas na retina e a música suave de toada uma balada de cordas oscilantes no auréola circular de uma guitarra árabe, bonita, lugar de Alhambra.
as palavras dessa música nem todas transportam significado mas algumas abrem clareiras o vislumbre de sombras isoladas e profundas, são únicas embalam e deslumbram naquele verso que nos toca mais no fundo e descobrem a pura certeza sem alarme como um barco a deslizar, a tocar os braços os abraços sem ondas ferozes de mar.
não era preciso nomear, não foi não é preciso nomear esta linha recta e paralela de um entendimento saltitante no olhar:
substituímos as migalhas das torradas pelo sabor ainda fresco de um sumo de frutas um odor de um pouco de menta a vitamina C , o doce ácido da laranja e o desejo ainda aceso, claro como a lua - uma luz que prende, une, enleia, funde, imana.
vestimo-nos depois e houve algum tempo para sentir os primeiros sons da cidade as primeiras aves das árvores e algumas rotinas solidárias: deitar flocos desbotados ao peixe acariciar os gatos de pêlo encurvado;
as ondas da rádio tocavam uma peça de jazz permanecemos um pouco junto à janela enquanto se despediu a madrugada: os primeiros autocarros, o eterno movimento pessoas de sapatos altos, de sapatos rasos o burburinho.
saí primeiro, abatido como um flamingo sem qualquer líquido na secura do caminho. vestias uma camisa branca lembro-me da transparência.
seguro agora na mão fechada como um símbolo o outro lado do vidro, a cortina onde tudo fica -
são precisamente sete e trinta. o tempo não parou, não recua é indigno -
Espaço vazio Passos em silêncio Dor sem tempo só
Amanhece o sol Branca a luz é vida Ri por dentro o ar
1. O amor tem mil olhos e mil derrames oculares. Abrem-se e fecham-se portas, pálpebras, portas, a uma velocidade que a vertigem não pode imitar. É antes um permanente alerta mascarado com a espessura trágica de um quotidiano de estúdio, estupidificante, o amor quando sobe ao olhar proibido de olhar. Uma fonte de preocupações impudicas, um jacto de luz inconclusa, como um lago míope no meio da oportunidade obliterada da paixão. Uma comédia de lágrimas e algoritmos entrecortados por finas camadas de mal-estar geral, cefaleias e vassalagem.
2. Podias ter vindo comigo, quando te chamei, para debaixo de todas as possibilidades. E esta afirmação repete-se continuamente, enquanto o amor for imperfeito e pertinaz, na cabeça daquele a quem ocorrem todos os pontos de vista e, consequentemente, todos os derrames oculares. Na cabeça daquele que hesitou e não pôde comparecer debaixo de todas as possibilidades. Na cabeça daquele a quem foram dados mil olhos e – tal como Quixote – uma conjuntivite lendária e galopante, para tornar a coisa mais verosimilmente irreal.
3. E é na imprudência fétida desta festa primária, neste velório do acaso ao acaso abandonado por caprichos e preceitos culturais, que eu rendo os meus mil olhos injectados à tua total desaparição.
I- COM DECISÃO TEMPORÁRIA: Autodemiti-me do amor, porque há muito prometi fazer-te feliz e tu não o tens permitido.
II- COM DECISÃO DEFINITIVA: Destruí em mim o amor, porque acreditei que me farias feliz mas tu com ingénua teimosia dilaceraste um coração por ti perdido.
III- COM ULTRADECISÃO ( Platónica ): Apesar do amor ausente, serei à hora da morte um lutador, invulgar combatente para a génese de um amor eterno, ... mas secretamente!
(Antonio Luíz , 09-08-2010 - in "Poesia pragmática: poemas de Vidas", a publicar em 2010).
quando tu tocas Debussy chove extraordinariamente o sol as casas levemente doira mas na saleta está-se bem fazes sempre assim!
por mim sinto um duende benigno que sorri não bem de ti! nada de Debussy! mas do igual da hora de sempre chover de estar sempre frio lá fora quando tu tocas Debussy
Passeando à beira do mar, sob sol abrasador, vejo jovens tão esbeltas de calção, ou mini-saia em posturas tão dengosas e sensuais, lembram-me outros amores em tempo de paixão fulgente! Tempo em que se renasce p´ra vida, para a ternura sem fim, para a sensualidade desmedida a roçar a perenidade... ............................................. Mas a vida nos adormece e tão excessivamente, a falta de criatividade prevalece com desniveladas bonanças ou com desejos intempestivos, por vezes avassaladores!... ............................................. Penso e não entendo, porque motivo plausível se brandem críticas (sub)-conscientes para que nos deixemos transformar, como da noite para o dia, de forma voraz e tão negativa, comprometendo a emotividade da vida! ............................................... ? Não representamos nós "o Amôr", e por isso mesmo "o Comando" do mundo e da Vida?!... ............................................. Mas de novo não entendo, e tanto queria estar errado, porque razão quem comanda tanto agride o seu aliado?...
(António Luíz, in Poesia pragmática / Poemas de Vidas - próxima publicação 2010).
antes de conhecer o medo o mundo era leve mais colorido as terras habitadas por barões aventureiros índios e fadas príncipes garbosos criaturas fantásticas e animais maravilhosos
qualquer sombra ou inquietude era – nesse tempo – como um segredo desconhecido distante
até ao dia em que conheci o medo descobri a tremura nas pernas a sementes do pesadelos enquanto tentava não ver o castanho das unhas a rudeza das mãos cheias de pêlos
contava-se que numa ocasião não muito longe de então dera uma tapona a um menino de jeitos a rebentar-lhe os lábios e ainda que estas coisas se contassem em surdina – respeitosa e sussurrada – era forçoso ter fé em tais histórias velhas ou novas conforme os detalhes as imaginações e as memórias
no dia em que conheci o medo descobri o descontrolo das ideias a incapacidade de falar enquanto me sentia perder no negrume profundo na ameaça constante daquele olhar
espremesse alguém – para um caldeirão – um general sedento de sangue um feiticeiro de coração mirrado e um dragão venenoso e feroz ainda assim não ficaria nem metade da malícia mal ardida que ali respirava em cada indício de gesto em cada dobra da voz
no dia em que conheci o medo descobri a insónia da espera pela maldade que pode existir em corpo de gente a revolta da humilhação pequenez e o pânico que se vive envergonhadamente
por mais que tentasse não concebia qualquer espécie de razão – má ou boa – para que uma dúzia de crianças estivesse entregue àquela lenda do terror àquele estropício de pessoa
e não tinha nem tenho ainda ideia de nada que nos ensinasse a não ser a certeza – firme e fria – que não há terras encantadas que a bondade não é gratuita que não existem fadas nem anjos nem magia
o dia em que conheci o medo – que revivo ainda em sonhos e acordada – foi seguido de muitos outros dias em que na fila do fundo olhos fixos na tijoleira do chão me encolhia em silêncio a ver se escapava da natureza violenta mal explicada e do discurso condescendente e acusador – a tentar ser moralista – da dona lurdinhas a senhora catequista
disseram que dissesse tudo sem esquecer nada de tudo o que sempre quisera dizer qualquer que a forma, o estado; melancolia nos olhos tristes de erudito alegria de cabelos andantes, desprendidos rolando imagens de nevoeiros, farinhas de mós e velas nos moinhos.
disseram que dissesse tudo sem pudor nem nevralgia; é proibido impedir o despertar ascendente dos astros os que decidem arder sem serem sujeitos ao homicídio como a pequenez tão opaca dos planetas a pequenez dos planetas que não podem ser estrelas.
disseram que dissesse tudo sem esquecer nada o abandono físico, o desamparo, o grito o abraço, o colo, o riso.
disseram disseram disseram que um dia o mundo acaba e deveria saber do silêncio aquele que não resolve nada.
disseram que dissesse tudo na primazia de soltar palavras como um gás atómico um cogumelo umbilical a descompor o terreno óbvio de pegadas de dinossauros imóveis e inscritas a simbolizar épocas ou a condição humana, a evolução o desaparecer dos braços compridos e das corcundas dos macacos.
disseram que tudo dissesse sem esquecer nada. disseram que aquando de algum silêncio que fosse breve sem ser o hábito perfeito e cómodo de mãos pousadas e olhos a direito; quadros imutaveis.
disseram que escutasse os metabolismos da alma o sentir dos afectos, o lugar G das emoções e depois que dissesse tudo, sem esquecer nada.
brumas de lã fragmentos de um algodão branco proximidade e distância. quebra-se a linha, escorre o ponto, a vírgula um círculo de voz e rosto e mãos e língua a alínea redonda de um realce, demais e mais e mais e mais
brumas de lã sobressaindo acima em fuga clara de raios de mármore e sombra e silêncio e tempo a consumir insípido e dúctil trajectos lentos lugares de pedra
brumas de lã de um fumo denso sem consentimento nem negação até onde onde um rosto branco
e o enlace grande grande grande elipse dupla, célula, girândola luz magenta música de anjos cerdas de arcos loucos flautas de pã
brumas de lã plumas de lucidez sem desencanto e as mãos abraçando o mar um mar de sargaços deixando o sal e as algas como oferenda dádivas de espírito e fogo verde, vermelho, cinzento sempre pelo meio dos dedos a fugir a fugir a fugir