domingo, 15 de agosto de 2010

chuva no pó

o som que se ouve
quando as gotas de chuva
tocam no chão
nas tardes quentes de verão
cheira a memória
a qualquer coisa
que um dia houve
mas agora não

uma companhia
meio ilusória
feita de silêncio
e de pó
onde as gotas
de chuva
tocam o chão
nas tardes frias de verão

e eu
fico só
raquel patriarca
vinteeseis.agosto.doismilenove

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ode ao futuro


Salvador Dali "Paisagem" aguarela 1914


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

a cortina




no lugar parado da estrada
observo e escuto o outro lado do vidro
a cortina onde tudo fica:

uma mesa pequena, uma toalha bordada
uma bandeja clara e o espaço diagonal
de dois livros de capas esbatidas, antigos;
e não tem qualquer importância
porque a resistência é das letras
- a sua arte.

as roupas diminutas de uma noite curta
as pupilas erigidas na retina
e a música suave de toada
uma balada de cordas oscilantes
no auréola circular de uma guitarra
árabe, bonita, lugar de Alhambra.

as palavras dessa música
nem todas transportam significado
mas algumas abrem clareiras
o vislumbre de sombras
isoladas e profundas, são únicas
embalam e deslumbram
naquele verso que nos toca mais no fundo
e descobrem a pura certeza sem alarme
como um barco a deslizar, a tocar os braços
os abraços
sem ondas ferozes de mar.

não era preciso nomear, não foi
não é preciso nomear
esta linha recta e paralela
de um entendimento saltitante no olhar:

substituímos as migalhas das torradas
pelo sabor ainda fresco de um sumo de frutas
um odor de um pouco de menta
a vitamina C , o doce ácido da laranja
e o desejo ainda aceso, claro como a lua
- uma luz que prende, une, enleia, funde, imana.

vestimo-nos depois
e houve algum tempo para sentir
os primeiros sons da cidade
as primeiras aves das árvores
e algumas rotinas solidárias:
deitar flocos desbotados ao peixe
acariciar os gatos de pêlo encurvado;

as ondas da rádio tocavam uma peça de jazz
permanecemos um pouco junto à janela
enquanto se despediu a madrugada:
os primeiros autocarros, o eterno movimento
pessoas de sapatos altos, de sapatos rasos
o burburinho.

saí primeiro, abatido como um flamingo
sem qualquer líquido na secura do caminho.
vestias uma camisa branca
lembro-me da transparência.

seguro agora na mão fechada
como um símbolo
o outro lado do vidro, a cortina
onde tudo fica -

são precisamente sete e trinta.
o tempo não parou, não recua
é indigno -
Espaço vazio
Passos em silêncio
Dor sem tempo só
Amanhece o sol
Branca a luz é vida
Ri por dentro o ar

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Ecoam ondas
O mar gigante azul
Teus beijos em mim

No dia do quando

Presinto o nada em mim
Por nada o sinto
Esse nada embrulhado em papel de celofane
O absurdo da ausência
Agora que partes
O nada é eterno

Derrames oculares



1. O amor tem mil olhos e mil derrames oculares. Abrem-se e fecham-se portas, pálpebras, portas, a uma velocidade que a vertigem não pode imitar. É antes um permanente alerta mascarado com a espessura trágica de um quotidiano de estúdio, estupidificante, o amor quando sobe ao olhar proibido de olhar. Uma fonte de preocupações impudicas, um jacto de luz inconclusa, como um lago míope no meio da oportunidade obliterada da paixão. Uma comédia de lágrimas e algoritmos entrecortados por finas camadas de mal-estar geral,
cefaleias e vassalagem.

2. Podias ter vindo comigo, quando te chamei, para debaixo de todas as possibilidades. E esta afirmação repete-se continuamente, enquanto o amor for imperfeito e pertinaz, na cabeça daquele a quem ocorrem todos os pontos de vista e, consequentemente, todos os derrames oculares. Na cabeça daquele que hesitou e não pôde comparecer debaixo de todas as possibilidades. Na cabeça daquele a quem foram dados mil olhos e – tal como Quixote – uma conjuntivite lendária e galopante, para tornar a coisa mais verosimilmente irreal.

3. E é na imprudência fétida desta festa primária, neste velório do acaso ao acaso abandonado por caprichos e preceitos culturais, que eu rendo os meus mil olhos injectados à tua total desaparição.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

PENSAMENTOS FORÇADOS

I- COM DECISÃO TEMPORÁRIA:
Autodemiti-me do amor,
porque há muito prometi fazer-te feliz
e tu não o tens permitido.

II- COM DECISÃO DEFINITIVA:
Destruí em mim o amor,
porque acreditei que me farias feliz
mas tu com ingénua teimosia
dilaceraste um coração por ti perdido.

III- COM ULTRADECISÃO ( Platónica ):
Apesar do amor ausente,
serei à hora da morte um lutador,
invulgar combatente
para a génese de um amor eterno,
... mas secretamente!

(Antonio Luíz , 09-08-2010 -
in "Poesia pragmática: poemas de Vidas", a publicar em 2010).

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Tocata




quando tu tocas Debussy
chove extraordinariamente
o sol as casas levemente doira
mas na saleta está-se bem
fazes sempre assim!

por mim
sinto um duende benigno que sorri
não bem de ti!
nada de Debussy!
mas do igual da hora
de sempre chover
de estar sempre frio lá fora
quando tu tocas Debussy

PENSAMENTOS À BEIRA-MAR

Passeando à beira do mar,
sob sol abrasador,
vejo jovens tão esbeltas
de calção, ou mini-saia
em posturas tão dengosas e sensuais,
lembram-me outros amores
em tempo de paixão fulgente!
Tempo em que se renasce p´ra vida,
para a ternura sem fim,
para a sensualidade desmedida
a roçar a perenidade...
.............................................
Mas a vida nos adormece
e tão excessivamente,
a falta de criatividade prevalece
com desniveladas bonanças
ou com desejos intempestivos,
por vezes avassaladores!...
.............................................
Penso e não entendo,
porque motivo plausível
se brandem críticas (sub)-conscientes
para que nos deixemos transformar,
como da noite para o dia,
de forma voraz e tão negativa,
comprometendo a emotividade da vida!
...............................................
? Não representamos nós "o Amôr",
e por isso mesmo
"o Comando" do mundo e da Vida?!...
.............................................
Mas de novo não entendo,
e tanto queria estar errado,
porque razão quem comanda
tanto agride o seu aliado?...

(António Luíz, in Poesia pragmática / Poemas de Vidas
- próxima publicação 2010).

o dia em que conheci o medo

antes de conhecer
o medo
o mundo era leve
mais colorido
as terras habitadas
por barões aventureiros
índios e fadas
príncipes garbosos
criaturas fantásticas
e animais maravilhosos

qualquer sombra
ou inquietude
era – nesse tempo –
como um segredo
desconhecido
distante

até ao dia
em que conheci
o medo
descobri a tremura
nas pernas
a sementes do pesadelos
enquanto tentava não ver
o castanho das unhas
a rudeza das mãos cheias de pêlos

contava-se que numa ocasião
não muito longe
de então
dera uma tapona a um menino
de jeitos
a rebentar-lhe os lábios
e ainda que
estas coisas se contassem
em surdina –
respeitosa e sussurrada –
era forçoso ter fé em
tais histórias
velhas ou novas
conforme os detalhes
as imaginações e as memórias

no dia
em que conheci
o medo
descobri o descontrolo
das ideias
a incapacidade de falar
enquanto me sentia perder
no negrume profundo
na ameaça constante daquele olhar

espremesse alguém –
para um caldeirão –
um general sedento de sangue
um feiticeiro de coração mirrado
e um dragão venenoso e feroz
ainda assim
não ficaria nem metade
da malícia mal ardida
que ali respirava
em cada indício de gesto
em cada dobra da voz

no dia
em que conheci
o medo
descobri a insónia
da espera pela maldade
que pode existir em corpo de gente
a revolta da humilhação
pequenez e o pânico
que se vive envergonhadamente

por mais que tentasse
não concebia
qualquer espécie de
razão –
má ou boa –
para que uma dúzia de crianças
estivesse entregue
àquela lenda do terror
àquele estropício de pessoa

e não tinha
nem tenho ainda
ideia de nada que nos ensinasse
a não ser a certeza –
firme e fria –
que não há terras encantadas
que a bondade não é gratuita
que não existem fadas
nem anjos
nem magia

o dia
em que conheci
o medo
– que revivo ainda
em sonhos e acordada –
foi seguido de muitos outros
dias em que
na fila do fundo
olhos fixos na tijoleira do chão
me encolhia em silêncio
a ver se escapava
da natureza violenta mal explicada
e do discurso condescendente
e acusador –
a tentar ser moralista –
da dona lurdinhas
a senhora catequista
raquel patriarca
oito.julho.doismiledez

sábado, 7 de agosto de 2010

disseram


Magritte 1940


disseram que dissesse tudo sem esquecer nada
de tudo o que sempre quisera dizer
qualquer que a forma, o estado;
melancolia nos olhos tristes de erudito
alegria de cabelos andantes, desprendidos
rolando imagens de nevoeiros, farinhas
de mós e velas nos moinhos.

disseram que dissesse tudo sem pudor nem nevralgia;
é proibido impedir o despertar ascendente dos astros
os que decidem arder sem serem sujeitos ao homicídio
como a pequenez tão opaca dos planetas
a pequenez dos planetas que não podem ser estrelas.

disseram que dissesse tudo sem esquecer nada
o abandono físico, o desamparo, o grito
o abraço, o colo, o riso.

disseram disseram disseram
que um dia o mundo acaba
e deveria saber do silêncio
aquele que não resolve nada.

disseram que dissesse tudo
na primazia de soltar palavras
como um gás atómico
um cogumelo umbilical
a descompor o terreno óbvio
de pegadas de dinossauros
imóveis e inscritas a simbolizar épocas
ou a condição humana, a evolução
o desaparecer dos braços compridos
e das corcundas dos macacos.

disseram que tudo dissesse sem esquecer nada.
disseram que aquando de algum silêncio
que fosse breve sem ser o hábito perfeito e cómodo
de mãos pousadas e olhos a direito;
quadros imutaveis.

disseram que escutasse os metabolismos da alma
o sentir dos afectos, o lugar G das emoções
e depois que dissesse
tudo, sem esquecer nada.

disseram disseram disseram

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

brumas de lã


fotografia retirada da internet



brumas de lã
fragmentos de um algodão branco
proximidade e distância.
quebra-se a linha, escorre o ponto, a vírgula
um círculo de voz e rosto e mãos e língua
a alínea redonda de um realce, demais
e mais e mais e mais

brumas de lã
sobressaindo acima
em fuga clara de raios de mármore
e sombra
e silêncio
e tempo
a consumir insípido e dúctil
trajectos lentos
lugares de pedra

brumas de lã
de um fumo denso
sem consentimento nem negação
até onde onde
um rosto branco

e o enlace grande grande grande
elipse dupla, célula, girândola
luz magenta
música de anjos
cerdas de arcos loucos
flautas de pã

brumas de lã
plumas de lucidez sem desencanto
e as mãos abraçando o mar
um mar de sargaços deixando o sal
e as algas como oferenda
dádivas
de espírito e fogo
verde, vermelho, cinzento
sempre pelo meio dos dedos
a fugir a fugir a fugir

brumas de lã

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ementa ou o pecado da gula



hoje há…



consomê em verso ou creme de ervilhas .......................1,00€

amêijoas à chefe com molho de redondilhas ..................3,50€

rimas de cebolada (com arroz e salada) ......................12,00€

sonetos de amor com broa e batatas a murro...............13,50€

costelinhas de estrofe na brasa em legumes no esturro..12,75€

haiku de chocolate com gelado de limão .......................2,80€

mousse de manga com noz e quadras de s. joão ...........2,80€


bom apetite e volte sempre

raquel patriarca
catorze.julho.doismiledez