I- COM DECISÃO TEMPORÁRIA:
Autodemiti-me do amor,
porque há muito prometi fazer-te feliz
e tu não o tens permitido.
II- COM DECISÃO DEFINITIVA:
Destruí em mim o amor,
porque acreditei que me farias feliz
mas tu com ingénua teimosia
dilaceraste um coração por ti perdido.
III- COM ULTRADECISÃO ( Platónica ):
Apesar do amor ausente,
serei à hora da morte um lutador,
invulgar combatente
para a génese de um amor eterno,
... mas secretamente!
(Antonio Luíz , 09-08-2010 -
in "Poesia pragmática: poemas de Vidas", a publicar em 2010).
terça-feira, 10 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Tocata
quando tu tocas Debussy
chove extraordinariamente
o sol as casas levemente doira
mas na saleta está-se bem
fazes sempre assim!
por mim
sinto um duende benigno que sorri
não bem de ti!
nada de Debussy!
mas do igual da hora
de sempre chover
de estar sempre frio lá fora
quando tu tocas Debussy
PENSAMENTOS À BEIRA-MAR
Passeando à beira do mar,
sob sol abrasador,
vejo jovens tão esbeltas
de calção, ou mini-saia
em posturas tão dengosas e sensuais,
lembram-me outros amores
em tempo de paixão fulgente!
Tempo em que se renasce p´ra vida,
para a ternura sem fim,
para a sensualidade desmedida
a roçar a perenidade...
.............................................
Mas a vida nos adormece
e tão excessivamente,
a falta de criatividade prevalece
com desniveladas bonanças
ou com desejos intempestivos,
por vezes avassaladores!...
.............................................
Penso e não entendo,
porque motivo plausível
se brandem críticas (sub)-conscientes
para que nos deixemos transformar,
como da noite para o dia,
de forma voraz e tão negativa,
comprometendo a emotividade da vida!
...............................................
? Não representamos nós "o Amôr",
e por isso mesmo
"o Comando" do mundo e da Vida?!...
.............................................
Mas de novo não entendo,
e tanto queria estar errado,
porque razão quem comanda
tanto agride o seu aliado?...
(António Luíz, in Poesia pragmática / Poemas de Vidas
- próxima publicação 2010).
sob sol abrasador,
vejo jovens tão esbeltas
de calção, ou mini-saia
em posturas tão dengosas e sensuais,
lembram-me outros amores
em tempo de paixão fulgente!
Tempo em que se renasce p´ra vida,
para a ternura sem fim,
para a sensualidade desmedida
a roçar a perenidade...
.............................................
Mas a vida nos adormece
e tão excessivamente,
a falta de criatividade prevalece
com desniveladas bonanças
ou com desejos intempestivos,
por vezes avassaladores!...
.............................................
Penso e não entendo,
porque motivo plausível
se brandem críticas (sub)-conscientes
para que nos deixemos transformar,
como da noite para o dia,
de forma voraz e tão negativa,
comprometendo a emotividade da vida!
...............................................
? Não representamos nós "o Amôr",
e por isso mesmo
"o Comando" do mundo e da Vida?!...
.............................................
Mas de novo não entendo,
e tanto queria estar errado,
porque razão quem comanda
tanto agride o seu aliado?...
(António Luíz, in Poesia pragmática / Poemas de Vidas
- próxima publicação 2010).
o dia em que conheci o medo
antes de conhecer
o medo
o mundo era leve
mais colorido
as terras habitadas
por barões aventureiros
índios e fadas
príncipes garbosos
criaturas fantásticas
e animais maravilhosos
qualquer sombra
ou inquietude
era – nesse tempo –
como um segredo
desconhecido
distante
até ao dia
em que conheci
o medo
descobri a tremura
nas pernas
a sementes do pesadelos
enquanto tentava não ver
o castanho das unhas
a rudeza das mãos cheias de pêlos
contava-se que numa ocasião
não muito longe
de então
dera uma tapona a um menino
de jeitos
a rebentar-lhe os lábios
e ainda que
estas coisas se contassem
em surdina –
respeitosa e sussurrada –
era forçoso ter fé em
tais histórias
velhas ou novas
conforme os detalhes
as imaginações e as memórias
no dia
em que conheci
o medo
descobri o descontrolo
das ideias
a incapacidade de falar
enquanto me sentia perder
no negrume profundo
na ameaça constante daquele olhar
espremesse alguém –
para um caldeirão –
um general sedento de sangue
um feiticeiro de coração mirrado
e um dragão venenoso e feroz
ainda assim
não ficaria nem metade
da malícia mal ardida
que ali respirava
em cada indício de gesto
em cada dobra da voz
no dia
em que conheci
o medo
descobri a insónia
da espera pela maldade
que pode existir em corpo de gente
a revolta da humilhação
pequenez e o pânico
que se vive envergonhadamente
por mais que tentasse
não concebia
qualquer espécie de
razão –
má ou boa –
para que uma dúzia de crianças
estivesse entregue
àquela lenda do terror
àquele estropício de pessoa
e não tinha
nem tenho ainda
ideia de nada que nos ensinasse
a não ser a certeza –
firme e fria –
que não há terras encantadas
que a bondade não é gratuita
que não existem fadas
nem anjos
nem magia
o dia
em que conheci
o medo
– que revivo ainda
em sonhos e acordada –
foi seguido de muitos outros
dias em que
na fila do fundo
olhos fixos na tijoleira do chão
me encolhia em silêncio
a ver se escapava
da natureza violenta mal explicada
e do discurso condescendente
e acusador –
a tentar ser moralista –
da dona lurdinhas
a senhora catequista
o medo
o mundo era leve
mais colorido
as terras habitadas
por barões aventureiros
índios e fadas
príncipes garbosos
criaturas fantásticas
e animais maravilhosos
qualquer sombra
ou inquietude
era – nesse tempo –
como um segredo
desconhecido
distante
até ao dia
em que conheci
o medo
descobri a tremura
nas pernas
a sementes do pesadelos
enquanto tentava não ver
o castanho das unhas
a rudeza das mãos cheias de pêlos
contava-se que numa ocasião
não muito longe
de então
dera uma tapona a um menino
de jeitos
a rebentar-lhe os lábios
e ainda que
estas coisas se contassem
em surdina –
respeitosa e sussurrada –
era forçoso ter fé em
tais histórias
velhas ou novas
conforme os detalhes
as imaginações e as memórias
no dia
em que conheci
o medo
descobri o descontrolo
das ideias
a incapacidade de falar
enquanto me sentia perder
no negrume profundo
na ameaça constante daquele olhar
espremesse alguém –
para um caldeirão –
um general sedento de sangue
um feiticeiro de coração mirrado
e um dragão venenoso e feroz
ainda assim
não ficaria nem metade
da malícia mal ardida
que ali respirava
em cada indício de gesto
em cada dobra da voz
no dia
em que conheci
o medo
descobri a insónia
da espera pela maldade
que pode existir em corpo de gente
a revolta da humilhação
pequenez e o pânico
que se vive envergonhadamente
por mais que tentasse
não concebia
qualquer espécie de
razão –
má ou boa –
para que uma dúzia de crianças
estivesse entregue
àquela lenda do terror
àquele estropício de pessoa
e não tinha
nem tenho ainda
ideia de nada que nos ensinasse
a não ser a certeza –
firme e fria –
que não há terras encantadas
que a bondade não é gratuita
que não existem fadas
nem anjos
nem magia
o dia
em que conheci
o medo
– que revivo ainda
em sonhos e acordada –
foi seguido de muitos outros
dias em que
na fila do fundo
olhos fixos na tijoleira do chão
me encolhia em silêncio
a ver se escapava
da natureza violenta mal explicada
e do discurso condescendente
e acusador –
a tentar ser moralista –
da dona lurdinhas
a senhora catequista
raquel patriarca
oito.julho.doismiledez
sábado, 7 de agosto de 2010
disseram

Magritte 1940
disseram que dissesse tudo sem esquecer nada
de tudo o que sempre quisera dizer
qualquer que a forma, o estado;
melancolia nos olhos tristes de erudito
alegria de cabelos andantes, desprendidos
rolando imagens de nevoeiros, farinhas
de mós e velas nos moinhos.
disseram que dissesse tudo sem pudor nem nevralgia;
é proibido impedir o despertar ascendente dos astros
os que decidem arder sem serem sujeitos ao homicídio
como a pequenez tão opaca dos planetas
a pequenez dos planetas que não podem ser estrelas.
disseram que dissesse tudo sem esquecer nada
o abandono físico, o desamparo, o grito
o abraço, o colo, o riso.
disseram disseram disseram
que um dia o mundo acaba
e deveria saber do silêncio
aquele que não resolve nada.
disseram que dissesse tudo
na primazia de soltar palavras
como um gás atómico
um cogumelo umbilical
a descompor o terreno óbvio
de pegadas de dinossauros
imóveis e inscritas a simbolizar épocas
ou a condição humana, a evolução
o desaparecer dos braços compridos
e das corcundas dos macacos.
disseram que tudo dissesse sem esquecer nada.
disseram que aquando de algum silêncio
que fosse breve sem ser o hábito perfeito e cómodo
de mãos pousadas e olhos a direito;
quadros imutaveis.
disseram que escutasse os metabolismos da alma
o sentir dos afectos, o lugar G das emoções
e depois que dissesse
tudo, sem esquecer nada.
disseram disseram disseram
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
brumas de lã

fotografia retirada da internet
brumas de lã
fragmentos de um algodão branco
proximidade e distância.
quebra-se a linha, escorre o ponto, a vírgula
um círculo de voz e rosto e mãos e língua
a alínea redonda de um realce, demais
e mais e mais e mais
brumas de lã
sobressaindo acima
em fuga clara de raios de mármore
e sombra
e silêncio
e tempo
a consumir insípido e dúctil
trajectos lentos
lugares de pedra
brumas de lã
de um fumo denso
sem consentimento nem negação
até onde onde
um rosto branco
e o enlace grande grande grande
elipse dupla, célula, girândola
luz magenta
música de anjos
cerdas de arcos loucos
flautas de pã
brumas de lã
plumas de lucidez sem desencanto
e as mãos abraçando o mar
um mar de sargaços deixando o sal
e as algas como oferenda
dádivas
de espírito e fogo
verde, vermelho, cinzento
sempre pelo meio dos dedos
a fugir a fugir a fugir
brumas de lã
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
ementa ou o pecado da gula

hoje há…
consomê em verso ou creme de ervilhas .......................1,00€
amêijoas à chefe com molho de redondilhas ..................3,50€
rimas de cebolada (com arroz e salada) ......................12,00€
sonetos de amor com broa e batatas a murro...............13,50€
costelinhas de estrofe na brasa em legumes no esturro..12,75€
haiku de chocolate com gelado de limão .......................2,80€
mousse de manga com noz e quadras de s. joão ...........2,80€
bom apetite e volte sempre
raquel patriarca
catorze.julho.doismiledez
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Algumas (pequenas) notas
Queridos Amigos e Companheiros da poesia,
Queria mandar um abraço. Dizer que o outro dia, numa leitura que fiz no Labyrinto, li poemas vossos. Foram muito bem saudados, e eu fiquei muito feliz.
Queria ainda dar os parabéns ao André.
Queria também inserir aqui um postal da Raquel, a nossa maravilhosa "poeta-actuante", que ela nos mandou de Porto Santo (por isso não pôde vir ao nosso jantar), mas não consigo... Vou pedir ao José, infinitamente mais expedito do que eu nas lides informáticas, que o faça por mim.
Por último, incluo um texto de Adrienne Rich. Não sei isolá-lo, de forma a colocá-lo destacado, nos textos do lado direito do nosso blogue, pelo que peço ajuda a um de vós, para que o copie e o faça depois.
Trata-se da explicação de Rich, escrita para o Los Angeles Times Book Review, sobre as razões pelas quais recusou The National Medal for the Arts, o mais alto galardão das artes outorgado pelos Estados Unidos da América. O texto de Adrienne Rich é de 1997 e refere-se sobretudo aos Estados Unidos e à administração Clinton -- mas podia, com muito mais propriedade -- ser de 2007 e da administração seguinte... E podia ainda, penso, ser de agora, adaptável que é aos nossos tempos. Para nós, que trabalhamos com essa matéria inflamável que é a palavra, este texto é uma lição.
E regresso a onde comecei: ao abraço. Que aqui fica, para todas e todos.
ana luísa amaral
____________________
Why I Refused the National Medal for the ArtsBy ADRIENNE RICH (Los Angeles Times Book Section - August 3, 1997)
Note: Adrienne Rich's refusal of the National Medal for the Arts puzzled many people. The debate over the proper relations between the state and the artist, between the realms of the public and the private, continues unabated. Book Review invited Rich to explain why she refused the presidential honor.
The invitation from the White House came by telephone on July 3, just before the national holiday, a time of public contention about the relationship of government to the arts. After several years' erosion of arts funding and hostile propaganda from the religious right and the Republican Congress, the House vote to end the National Endowment for the Arts was looming. That vote would break as news on July 10; my refusal of the National Medal for the Arts would run as a sidebar story in the New York Times and the San Francisco Chronicle.
In fact, I was unaware of the timing. My "no" came directly out of my work as a poet and essayist and citizen drawn to the interfold of personal and public experience. I had recently been thinking and writing about the growing fragmentation of the social compact, of whatever it was this country had ever meant when it called itself a democracy: the shredding of the vision of government of the people, by the people, for the people. "We the people--still an excellent phrase," said the prize-winning playwright Lorraine Hansberry in 1962, well aware who had been excluded, yet believing the phrase might someday come to embrace us all. And I had for years been feeling both personal and public grief, fear, hunger and the need to render this, my time, in the language of my art.
Whatever was "newsworthy" about my refusal was not about a single individual--not myself, not President Clinton. Nor was it about a single political party. Both major parties have displayed a crude affinity for the interests of corporate power while deserting the majority of the people, especially the most vulnerable. Like so many others, I've watched the dismantling of our public education, the steep rise in our incarceration rates, the demonization of our young black men, the accusations against our teenage mothers, the selling of health care--public and private--to the highest bidders, the export of subsistence-level jobs in the United States to even lower-wage countries, the use of below-minimum-wage prison labor to break strikes and raise profits, the scapegoating of immigrants, the denial of dignity and minimal security to our working and poor people. At the same time, we've witnessed the acquisition of publishing houses, once risk-taking conduits of creativity, by conglomerates driven single-mindedly to fast profits, the acquisition of major communications and media by those same interests, the sacrifice of the arts and public libraries in stripped-down school and civic budgets and, most recently, the evisceration of the National Endowment for the Arts. Piece by piece the democratic process has been losing ground to the accumulation of private wealth.
There is no political leadership in the White House or the Congress that has spoken to and for the people who, in a very real sense, have felt abandoned by their government. Hansberry spoke her words about government during the Cuban missile crisis, at a public meeting in New York to abolish the House Un-American Activities Committee. She also said in that speech, "My government is wrong." She did not say, I abhor all government. She claimed her government as a citizen, African American and female, and she challenged it. (I listened to her words again, on an old vinyl recording, this past Fourth of July.)
In a similar spirit, many of us today might wish to hold government accountable, challenge the agendas of private power and wealth that have displaced historical tendencies toward genuinely representative government in the United States. We might still wish to claim our government, to say, This belongs to us -- we, the people, as we are now.
We would have to start asking questions that have been defined as non-questions--or as naive, childish questions. In the recent official White House focus on race, it goes consistently unsaid that the all-embracing enterprise of our early history was the slave trade, which left nothing, no single life, untouched and was, along with the genocide of the native population and the seizure of their lands, the foundation of our national prosperity and power. Promote dialogues on race? Apologize for slavery? We would need to perform an autopsy on capitalism itself.
Marxism has been declared dead. Yet the questions Marx raised are still alive and pulsing, however the language and the labels have been co-opted and abused. What is social wealth? How do the conditions of human labor infiltrate other social relationships? What would it require for people to live and work together in conditions of radical equality? How much inequality will we tolerate in the world's richest and most powerful nation? Why and how have these and similar questions become discredited in public discourse?
And what about art? Mistrusted, adored, pietized, condemned, dismissed as entertainment, auctioned at Sotheby's, purchased by investment-seeking celebrities, it dies into the "art object" of a thousand museum basements. It's also reborn hourly in prisons, women's shelters, small-town garages, community college workshops, halfway houses--wherever someone picks up a pencil, a wood-burning tool, a copy of "The Tempest," a tag-sale camera, a whittling knife, a stick of charcoal, a pawnshop horn, a video of "Citizen Kane," whatever lets you know again that this deeply instinctual yet self-conscious expressive language, this regenerative process, could help you save your life. "If there were no poetry on any day in the world," the poet Muriel Rukeyser wrote, "poetry would be invented that day. For there would be an intolerable hunger." In an essay on the Caribbean poet Aime Cesaire, Clayton Eshleman names this hunger as "the desire, the need, for a more profound and ensouled world." There is a continuing dynamic between art repressed and art reborn, between the relentless marketing of the superficial and the "spectral and vivid reality that employs all means" (Rukeyser again) to reach through armoring, resistances, resignation, to recall us to desire.
Art is both tough and fragile. It speaks of what we long to hear and what we dread to find. Its source and native impulse, the imagination, may be shackled in early life, yet may find release in conditions offering little else to the spirit. For a recent document on this, look at Phyllis Kornfeld's "Cellblock Visions: Prison Art in America," notable for the variety and emotional depth of the artworks reproduced, the words of the inmate artists and for Kornfeld's unsentimental and lucid text. Having taught art to inmates for 14 years in 18 institutions (including maximum security units), she sees recent incarceration policy overall as rapidly devolving from rehabilitation to dehumanization, including the dismantling of prison arts programs.
Art can never be totally legislated by any system, even those that reward obedience and send dissident artists to hard labor and death; nor can it, in our specifically compromised system, be really free. It may push up through cracked macadam, by the merest means, but it needs breathing space, cultivation, protection to fulfill itself. Just as people do. New artists, young or old, need education in their art, the tools of their craft, chances to study examples from the past and meet practitioners in the present, get the criticism and encouragement of mentors, learn that they are not alone. As the socialcompact withers, fewer and fewer people will be told, yes, you can do this, this also belongs to you. Like government, art needs the participation of the many in order not to become the property of a powerful and narrowly self-interested minority.
Art is our human birthright, our most powerful means of access to our own and another's experience and imaginative life. In continually rediscovering and recovering the humanity of human beings, art is crucial to the democratic vision. A government tending further and further away from the search for democracy will see less and less "use" in encouraging artists, will see art as obscenity or hoax.
In 1987, the late Justice William Brennan spoke of "formal reason severed from the insights of passion" as a major threat to due-process principles. "Due process asks whether government has treated someone fairly, whether individual dignity has been honored, whether the worth of an individual has been acknowledged. Officials cannot always silence these questions by pointing to rational action taken according to standard rules. They must plumb their conduct more deeply, seeking answers in the more complex equations of human nature and experience."
It is precisely where fear and hatred of art join the pull toward quantification and abstraction, where the human face is mechanically deleted, that human dignity disappears from the social equation. Because it is to those "complex equations of human nature and experience" that art addresses itself. In a society tyrannized by the accumulation of wealth as Eastern Europe was tyrannized by its own false gods of concentrated power, recognized artists have, perhaps, a new opportunity to work out our connectedness, as artists, with other people who are beleaguered, suffering, disenfranchised -- precariously employed workers, trashed elders, throwaway youth, the "unsuccessful" and the art they too are nonetheless making and seeking.
I wish I didn't feel the necessity to say here that none of this is about imposing ideology or style or content on artists; it is about the inseparability of art from acute social crisis in this century and the one now coming up.
We have a short-lived model in our history for the place of art in relation to government. During the Depression of the 1930s, under New Deal legislation, thousands of creative and performing artists were paid modest stipends to work in the Federal Writers Project, the Federal Theatre Project, the Federal Art Project. Their creativity, in the form of novels, murals, plays, performances, public monuments, the providing of music and theater to new audiences, seeded the art and the consciousness of succeeding decades. By 1939, this funding was discontinued.
Federal funding for the arts, like the philanthropy of private arts patrons, can be given and taken away. In the long run, art needs to grow organically out of a social compost nourishing to everyone, a literate citizenry, a free, universal, public education complex with art as an integral element, a society without throwaway people, honoring both human individuality and the search for a decent, sustainable common life.
In such conditions, art would still be a voice of hunger, desire, discontent, passion, reminding us that the democratic project is never-ending.
For that to happen, what else would have to change?
Despir outra pele
Antes de publicar o próximo poema, quero apenas partilhar uma pequena coisa convosco: o meu poema "Dying Mannequin" foi finalista, com direito a menção honrosa, do prémio internacional OFF FLIP 2010.
Devo ainda um agradecimento especial à Ana Luísa Amaral. Porque na altura em que escolhi o poema para o concurso, lembrei-me da crítica espontânea e favorável que dele ela fez. Obrigado Ana Luísa.

O meu casaco de imposições biológicas está gasto
nos sítios onde o corpo oferece resistência ao tempo
e há um maior número de glândulas sudoríferas.
Chego a casa, dispo o casaco, e permaneço
com o casaco vestido.
A noite é uma ponte em ruínas.
A lua, um holofote de ideias fixas.
Ao longe vêem-se os cabos de sustentação
da inércia.
É inútil eleger alguma hora melhor
que nos proteja.
A minha vida é permanecer
auscultado por essa fantasmagoria.
Com ou sem casaco,
especializei-me em permanecer.
Permanecer com as metástases do meu casaco,
como as metástases do meu casaco
permanecem em mim, mesmo quando o dispo,
contemplando uma ponte em ruínas
e exercendo aí a minha permanência
o melhor que posso e sei,
24 horas por dia.
Há sempre um casaco a cobrir as costas
demasiadamente expostas da permanência.
Pêlos, ainda que pálidos e breves,
na pele postergada dos mamíferos.
E o invisível gesto de alguém que se apressa
lentamente a aconchegar-te ao primitivo,
com as mãos sujas de desdém
e a tecnologia do contacto indestrutível.
Devo ainda um agradecimento especial à Ana Luísa Amaral. Porque na altura em que escolhi o poema para o concurso, lembrei-me da crítica espontânea e favorável que dele ela fez. Obrigado Ana Luísa.

O meu casaco de imposições biológicas está gasto
nos sítios onde o corpo oferece resistência ao tempo
e há um maior número de glândulas sudoríferas.
Chego a casa, dispo o casaco, e permaneço
com o casaco vestido.
A noite é uma ponte em ruínas.
A lua, um holofote de ideias fixas.
Ao longe vêem-se os cabos de sustentação
da inércia.
É inútil eleger alguma hora melhor
que nos proteja.
A minha vida é permanecer
auscultado por essa fantasmagoria.
Com ou sem casaco,
especializei-me em permanecer.
Permanecer com as metástases do meu casaco,
como as metástases do meu casaco
permanecem em mim, mesmo quando o dispo,
contemplando uma ponte em ruínas
e exercendo aí a minha permanência
o melhor que posso e sei,
24 horas por dia.
Há sempre um casaco a cobrir as costas
demasiadamente expostas da permanência.
Pêlos, ainda que pálidos e breves,
na pele postergada dos mamíferos.
E o invisível gesto de alguém que se apressa
lentamente a aconchegar-te ao primitivo,
com as mãos sujas de desdém
e a tecnologia do contacto indestrutível.
sábado, 31 de julho de 2010
o cavalo branco

Franz Marc
a intensidade da aparência não é sombra
a intensidade do silêncio é um fogo
não é medo apenas o interacto e a resistência
fragmentos por entre lugares duros de titânio
e os lagos d’água de cinco oceanos
imensos -
não há indiferença
ainda são contínuos os verdes campos de milho
os recantos mais guardados dos cinemas
as exclamações rectilíneas dos ciprestes
as corridas pelos parques da cidade
as cores maduras dos mirtilos
o desassossego de miragens e os ruídos de noite;
os grilos e os mochos, os casulos dos bichos
de sedas sibilinas, silvos e silvas
nos desejos tão impuros de contidos
brilha
brilha branca a lua grande
cheia, vestida de veludos
uma rainha de boca distraída
seguida nos seus pátios de luz
pelos homens mais sozinhos
árias soçobram nos espelhos do mar
adormecem anémonas e algas suspensas
a vaguear
e batem as ondas batem
nas pedras de um castelo cinzento
cai a ponte sobre o fosso
solta um cavalo branco
branco como espumas
sopra o vento
reacende a chama
apaga o silêncio -
quinta-feira, 29 de julho de 2010
de pretender atingir a plenitude complexa das coisas da criação ou o pecado de fazer perguntas

que diabo de ideia foi esta de se fazer corresponder uma infracção
a cada desejo instintivo de prazer? o senhor é sádico, é masoquista,
ou é as duas coisas? ou então é um plagiador do pior
e sem vergonha na cara, que isto em que vivemos
não é mais que a versão descolorida do tártaro clássico onde o alvo
do desejo se nos revela e se nos escapar, onde repetimos
os mesmos erros – invariavelmente –, onde sofremos
as mesmas dores, as mesmas perdas – constantemente
e se é no livre arbítrio que explicam as ambivalências do bem
e do mal, as encruzilhadas e os caminhos percorridos de que lado
da trincheira se há-de encaixar a ideia peregrina
da criação e comércio das bulas de indulgência ou
a estratégia brilhante baseada na inércia
a que comummente se chama de regime de prescrições?
pertencem à instancia das culpas, à família alargada dos perdões?
e o inferno? ainda recebe gente ou esgotou a lotação?
talvez se reserve, nos tempos que correm, à 'nata da escumalha'
sendo que o resto de nós, pecadores impenitentes
e hereges sensaborões, se vão ficando
órfãos e desgarrados pelos tapetes do purgatório, essa espécie
de foyer para almas medíocres, que ninguém sabe explicar o que é
mas que, ainda assim, é suposto ser certo que existe
e, já agora que estamos nisto, como pode uma
simples pessoa simples
sentir o conforto e o consolo da crença no divino
e a leveza da resignação e da confiança no eterno,
quando a pedagogia da fé lhe foi ditada por uma ogra
com excesso de pêlos e escassez de escrúpulos,
que manda fazer desenhos e só distribui canetas de feltro
de cor castanha, cinzenta e preta?
foi então que senti enterrar-se-me um par de orelhas de burro
pela cabeça abaixo e, de frente para a parede, fiquei de castigo
a ouvir as horas passar. e quando,
impaciente e de dentes cerrados, balbuciei
"que diabo...”
a terra tremeu e o ribombar do trovão.
foi a última coisa que ouvi
raquel patriarca
dez.julho.doismiledez
Para viver e não morrer só, não há pecados
É vício salvação
Alívio, não o prazer
ao lado essa mulher
realmente não vista
ali messias dizer
quem não pecou, pedra
atire a , como se
fosse essa primeira
vai e não peques mais
se houvesse pecados
existisse messias
julgar se piedoso
ocioso não amara
permanece pagã
corpo e mente são um
sabe se amor é amor
não deus, construíram no
esqueciam mulheres
a ilusão é ilusão assim
sempre sonho é sonho
por que amados, nós aí
não ficaríamos sós!
.......................................
Nota: Apesar do atraso
sempre chega mais um escrito do jantar
que foi tão precioso
Alívio, não o prazer
ao lado essa mulher
realmente não vista
ali messias dizer
quem não pecou, pedra
atire a , como se
fosse essa primeira
vai e não peques mais
se houvesse pecados
existisse messias
julgar se piedoso
ocioso não amara
permanece pagã
corpo e mente são um
sabe se amor é amor
não deus, construíram no
esqueciam mulheres
a ilusão é ilusão assim
sempre sonho é sonho
por que amados, nós aí
não ficaríamos sós!
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Nota: Apesar do atraso
sempre chega mais um escrito do jantar
que foi tão precioso
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O Nosferatu do método

Tenho o pressentimento inacabado e esbaforido
da tecla tocada até ao fim.
É o som que arromba o trabalho da tecla,
a música que destrói a sua carpintaria
extremamente permissiva,
o grito que escurece as pancadas do sexo
e dissolve a cena violenta num sono vigiado
e privilegiado por lâmpadas e labirintos
incumpridos.
O alarme é um animal de hábitos negros:
soa apenas quando a cópula termina.
Nenhuma parte de mim precisa de mim.
Nenhum prazo, ou arranjo,
ou necessidade centrípeta
sente a falta radical da minha alegria
para que possa existir.
Aqui, a luz perde a utilidade também.
É como que se de repente tudo estivesse
estranhamente pousado
num acidente certíssimo
e à oportunidade fosse acrescido
o Nosferatu do método.
terça-feira, 27 de julho de 2010
o incêndio e a metade

(retirada da internet)
ressaltam as polpudas formas
verdes largas espessas
de um cacto grande
num pôr-de-sol lilás
de sul vem a brisa fresca
e o aroma das gardénias
subindo uma coluna branca;
pétalas de algum sossego
a noite próxima de olhos grandes
sussurra os lugares do sono
uma melodia leve de mar e sal
um corpo posto de água doce
de cabelos ainda molhados
esperando a hora
hora calma de algum sossego
de tarde voaram cinzas na estrada
um fogo a descer uma encosta
um fumo denso sem o tempo necessário
de fechar o vidro acelerar o carro
fugir do inferno
algum pânico sintomas de náusea
isolado isolada
uma chuva fulminante sobre as chamas
os gritos dos bombeiros
o trânsito parado
isolado isolada
uma ausência de metade
não cumprir o destino a entrega
as linhas das mãos as pálpebras
segundos de instante um lenço húmido
sobre a cara
nuvens e nuvens de fumo
por todo o lado
nunca foi a importância do ser
e sim a importância do outro
o não querer a responsabilidade do silêncio;
desapareceu não existe
o incêndio
passou
um banho
algum sossego as gardénias
a coluna branca
o pôr-de-sol lilás
as formas de um cacto grande
junto aos pés descalços gotas d’água
um pátio de azulejos largos e quadrados
antique cor de barro
respirou o aroma imenso
esperou o tempo mais escuro
e a lua mais larga
o número surgiu reescrito em cor laranja
a música era de Bach
deixou tocar deixou tocar deixou tocar
depois ligava -
segunda-feira, 26 de julho de 2010
As pequenas gavetas do amor

Franz Marc 1911
Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz
Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde
Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores
Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -
(Ana Luísa Amaral, in "Imagias")
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