sábado, 31 de julho de 2010

o cavalo branco


Franz Marc



a intensidade da aparência não é sombra
a intensidade do silêncio é um fogo

não é medo apenas o interacto e a resistência
fragmentos por entre lugares duros de titânio
e os lagos d’água de cinco oceanos
imensos -

não há indiferença

ainda são contínuos os verdes campos de milho
os recantos mais guardados dos cinemas
as exclamações rectilíneas dos ciprestes
as corridas pelos parques da cidade
as cores maduras dos mirtilos
o desassossego de miragens e os ruídos de noite;
os grilos e os mochos, os casulos dos bichos
de sedas sibilinas, silvos e silvas
nos desejos tão impuros de contidos

brilha

brilha branca a lua grande
cheia, vestida de veludos
uma rainha de boca distraída
seguida nos seus pátios de luz
pelos homens mais sozinhos

árias soçobram nos espelhos do mar
adormecem anémonas e algas suspensas
a vaguear


e batem as ondas batem
nas pedras de um castelo cinzento

cai a ponte sobre o fosso
solta um cavalo branco
branco como espumas

sopra o vento

reacende a chama
apaga o silêncio -

quinta-feira, 29 de julho de 2010

de pretender atingir a plenitude complexa das coisas da criação ou o pecado de fazer perguntas



que diabo de ideia foi esta de se fazer corresponder uma infracção

a cada desejo instintivo de prazer? o senhor é sádico, é masoquista,
ou é as duas coisas? ou então é um plagiador do pior
e sem vergonha na cara, que isto em que vivemos
não é mais que a versão descolorida do tártaro clássico onde o alvo
do desejo se nos revela e se nos escapar, onde repetimos
os mesmos erros – invariavelmente –, onde sofremos
as mesmas dores, as mesmas perdas – constantemente

e se é no livre arbítrio que explicam as ambivalências do bem
e do mal, as encruzilhadas e os caminhos percorridos de que lado
da trincheira se há-de encaixar a ideia peregrina
da criação e comércio das bulas de indulgência ou
a estratégia brilhante baseada na inércia
a que comummente se chama de regime de prescrições?
pertencem à instancia das culpas, à família alargada dos perdões?

e o inferno? ainda recebe gente ou esgotou a lotação?
talvez se reserve, nos tempos que correm, à 'nata da escumalha'
sendo que o resto de nós, pecadores impenitentes
e hereges sensaborões, se vão ficando
órfãos e desgarrados pelos tapetes do purgatório, essa espécie
de foyer para almas medíocres, que ninguém sabe explicar o que é
mas que, ainda assim, é suposto ser certo que existe

e, já agora que estamos nisto, como pode uma
simples pessoa simples
sentir o conforto e o consolo da crença no divino
e a leveza da resignação e da confiança no eterno,
quando a pedagogia da fé lhe foi ditada por uma ogra
com excesso de pêlos e escassez de escrúpulos,
que manda fazer desenhos e só distribui canetas de feltro
de cor castanha, cinzenta e preta?

foi então que senti enterrar-se-me um par de orelhas de burro
pela cabeça abaixo e, de frente para a parede, fiquei de castigo
a ouvir as horas passar. e quando,
impaciente e de dentes cerrados, balbuciei
"que diabo...”
a terra tremeu e o ribombar do trovão.
foi a última coisa que ouvi

raquel patriarca
dez.julho.doismiledez

Para viver e não morrer só, não há pecados

É vício salvação
Alívio, não o prazer

ao lado essa mulher
realmente não vista
ali messias dizer
quem não pecou, pedra
atire a , como se
fosse essa primeira
vai e não peques mais

se houvesse pecados
existisse messias
julgar se piedoso
ocioso não amara

permanece pagã
corpo e mente são um
sabe se amor é amor
não deus, construíram no
esqueciam mulheres
a ilusão é ilusão assim

sempre sonho é sonho
por que amados, nós aí
não ficaríamos sós!

.......................................
Nota: Apesar do atraso
sempre chega mais um escrito do jantar
que foi tão precioso

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Nosferatu do método



Tenho o pressentimento inacabado e esbaforido
da tecla tocada até ao fim.
É o som que arromba o trabalho da tecla,
a música que destrói a sua carpintaria
extremamente permissiva,
o grito que escurece as pancadas do sexo
e dissolve a cena violenta num sono vigiado
e privilegiado por lâmpadas e labirintos
incumpridos.

O alarme é um animal de hábitos negros:
soa apenas quando a cópula termina.
Nenhuma parte de mim precisa de mim.
Nenhum prazo, ou arranjo,
ou necessidade centrípeta
sente a falta radical da minha alegria
para que possa existir.
Aqui, a luz perde a utilidade também.

É como que se de repente tudo estivesse
estranhamente pousado
num acidente certíssimo
e à oportunidade fosse acrescido
o Nosferatu do método.

terça-feira, 27 de julho de 2010

o incêndio e a metade


(retirada da internet)


ressaltam as polpudas formas
verdes largas espessas
de um cacto grande
num pôr-de-sol lilás

de sul vem a brisa fresca
e o aroma das gardénias
subindo uma coluna branca;
pétalas de algum sossego

a noite próxima de olhos grandes
sussurra os lugares do sono
uma melodia leve de mar e sal

um corpo posto de água doce
de cabelos ainda molhados
esperando a hora
hora calma de algum sossego

de tarde voaram cinzas na estrada
um fogo a descer uma encosta
um fumo denso sem o tempo necessário
de fechar o vidro acelerar o carro
fugir do inferno

algum pânico sintomas de náusea

isolado isolada

uma chuva fulminante sobre as chamas
os gritos dos bombeiros
o trânsito parado

isolado isolada

uma ausência de metade
não cumprir o destino a entrega
as linhas das mãos as pálpebras
segundos de instante um lenço húmido
sobre a cara

nuvens e nuvens de fumo
por todo o lado

nunca foi a importância do ser
e sim a importância do outro
o não querer a responsabilidade do silêncio;
desapareceu não existe

o incêndio

passou
um banho
algum sossego as gardénias
a coluna branca
o pôr-de-sol lilás
as formas de um cacto grande

junto aos pés descalços gotas d’água
um pátio de azulejos largos e quadrados
antique cor de barro

respirou o aroma imenso
esperou o tempo mais escuro
e a lua mais larga

o número surgiu reescrito em cor laranja
a música era de Bach

deixou tocar deixou tocar deixou tocar

depois ligava -

segunda-feira, 26 de julho de 2010

As pequenas gavetas do amor


Franz Marc 1911


Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores

Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -

(Ana Luísa Amaral, in "Imagias")

sábado, 24 de julho de 2010

Sete Pecados de José Almeida da Silva


Hieronymous Bosch " A mesa dos sete pecados"



A exactidão do sal

Não sei falar de pecado. Sei
a angústia da norma – o prazer
do desvio doloroso.

Poetizar o pecado é reinventar
o fino fio da lâmina – consciência
da minha divina humanidade.

Por que chamar pecado ao humano
precipício da acção?

O excesso ilumina a exactidão do sal
que anima a vida.
2010.06.03
José Almeida da Silva



Pão sem fermento?

Por um pecado – não digo o nome –
Percorro quilómetros e desmarco
Compromissos da minha inadiável
Solidão. É a minha perseverança
No pecado – um prazer inexplicável.

Por uma virtude fico estático a imaginar
O futuro. Fica para amanhã o presente.
Também eu. Inexplicavelmente. É um
Doce o pecado, o lado de fora de mim,
Morando dentro, bem no fundo. De mim.

– O que seria o pão sem fermento?
2010.06.04
José Almeida da Silva




Pecado

Pensei nisso depois. Agir é tão diferente
de pensar. [Peca agora e pensa depois.
Assim se tece a teia.]

Pensar é afastar o que faz parte – nasce
assim o pecado. É assim a gramática do ser
gregário – o facto origina a norma e o desvio.

Mas enquanto o acto vai e volta, folga o prazer.
Ser humano é controverso – argila e sopro.

– A sombra é contra-luz.
2010.06.05
José Almeida da Silva




Desconcerto

O desconcerto da norma é sempre
Outro caminho por onde se caminha
Olhando o sol do bem e do prazer –
Manhã primaveril que veste o olhar
E traça o perfil da breve circunstância
Que liberta o ser do deserto da forma
E da elegância.

Não sei se é pecado mas sei que é
Humano.

– E alcança-se assim a divindade.
2010. 06.12
José Almeida da Silva








Sofrimento insuportável

A vida assim é um beco sem saída.
Sem luz e sem sentido é a morte
Arrastando os grilhões do que resta
Sem dó sem piedade sem respeito
Pela dignidade dos ainda fragmentos
De humanidade – Uma tragédia ignóbil
De amor – é assim o inútil sofrimento.

Amei-te a vida toda com um inexplicável
Medo de te perder. Não admira a minha
Estupefacção por desejar-te o fim. A ti,
O meu princípio. A vida [dizem-me] é
Um valor acima de todos os valores.
E sei disso muito bem. Respeito a vida.
Mas eu olhava-te amorosamente e não
Sabia como lidar com aquele sofrimento
Insuportável ao meu olhar, ao meu amor.

Tu sofrias tanto. A luta era tão desigual
Que eu não desejava senão a paragem
Do coração. Do sofrimento. O medo?
– Os insondáveis mistérios da alma
Sussurravam-me o pecado contra a vida.
A luta era agora desigual só dentro de mim –
Sensível à dor do amor, cruel penar,
Ou submisso à utópica metafísica da alma? –
[Aquela que me angustia o dever do amor.]

– Pecado é não amar com o coração.
2010.06.06
José Almeida da Silva




Se eu tivesse um relógio

Se eu tivesse um relógio
Abri-lo-ia para lhe ver as entranhas.

[Há horas de amor e horas de solidão e dor;
Há horas de luz e horas de sombras e elegia;
Há horas de prazer e horas de choro e luto;
Há horas de esperança e horas de amargura e morte.]
………………..

Um dia encontrei o meu relógio que eu não sabia que tinha
Mas que, disseram-me depois, me fora dado na infância.
Então abri o relógio cheio de esperança. Descobri que não tinha
Coração. Pelo menos o coração que tinha na minha infância.
[Pelo menos o que eu acreditava quando era criança.]
Sempre os ponteiros desequilibrados como os pratos da balança
Que pesa os pecados e as virtudes ou a bem-aventurança.

Olhei-o penosamente. Depois deitei fora o relógio. Não me serviria.
Não me compreenderia. Não me orientaria para lugar nenhum.

Sem coração para que serve um relógio? Não sei acertá-lo.
2010.07.01
José Almeida da Silva





Dissonância

É como um maremoto o pecado,
Só força insubmissa da argila deslumbrada,
Dissonância musical da divina humanidade,
E sopro adormecido – a luz da intensa sombra.
2010.07.12
José Almeida da Silva

sexta-feira, 23 de julho de 2010

é necessário providenciar a claridade


Paul Klee "ABC" 1938

mesmo na periodicidade de um catálogo
na multiplicação de hexágonos de uma grande rede
como nas várias células biológicas de um tecido
na mistura de fronteiras sobram dois núcleos
e esse é o reconhecimento da diferença
mesmo que pequena

o erro da sociedade
qual âncora parada
baseia-se demasiado na doçura da colmeia
na voraz destruição da térmita
no tudo e no nada separando o universo


sabemos que os olhos não são os mesmos
quando olham o sol o mar o bosque
ou passeiam pelos passeios da cidade
mas há interdependência

não são os mesmos quando olham
os semáforos cinzentos
as grandes letras de montras
museus iluminados
calçadas pontes rios brancos
luas duplicadas estrelas apagadas
janelas de traços originais

não são iguais
na incidente capacidade
de imaginar de complementar de ser diferente

é necessário
providenciar a claridade
na dependência de leituras de útero
de gente gente de riso e lágrimas

na sobrevivência, na realidade -

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Expiação




dói-me o teu aparelho longínquo,
dói-me o irresistível artesanato
da distância,
dói-me o irrespirável teatro
ortopédico da salvação,
dói-me o choque frontal do amor
com a sua tremenda falta de humildade,
dói-me a anestesia do teu lugar vago,
dói-me a dança esquelética da minha dissimulação,
dói-me a propaganda póstuma das tuas mãos,

quando aplaudem a castração do herói em palco,
quando atrasam a pesquisa para a cura da neoplasia
da eternidade,
quando investem todas as suas economias e auroras
numa dimensão mais intolerante,
quando massajam a minha culpa ciclópica
e maltratam o meu endereço final.

dói-me, sobretudo, a grande subjectividade da dor,
a arquitectura desmaiada da esperança,
a longa travessia do rio líquor a nado,
a falsa assinatura dos seus contratos nervosos
com o imperdoável,
e o preço que eu pago
pela minha dor elegante
nas lojas mais prestigiadas da cidade
arrasada do amor.

(EN)GULA



(Es)passava passos ausentes, entre travos

e três passas.

Traziam-me espaços vazios e vontades não coerentes.

Para as desgraças,

a proporção em açúcares e colheres

de coisas quentes.


Entrei, sem alma nem pertences,

Contando pences e cascalhos de existências.

Não fosse eu segura e ciente

de sanidades e coisas semelhantes

certamente cederia à algibeira,

que em claros uivos e suspiros evidentes

chamava quem via com olhos

Mas decidia com dentes.

E que remédio teria

com tamanha gulodice?

Se as coberturas me abordam em descarada tolice?

Se os pastéis, as natas do céu

(Ámen p'ra quem as comeu)

Se os suspiros, os mil folhas,

(que para mil se vão tão cedo),

se desfazem à dentada

Num engano ledo e cego

que apetites

não deixam durar nada?

E sem mais que cortesias

"Boas noites", ou"Bons dias"

"Eram dois éclaires e duas fatias."

Mas que falta de postura,

Olhos mais do que barriga,

Eu que sem mais devaneios

Dou uma trinca mal medida,

e entre açúcar na camisa

e compota nos dois seios,

abocanho o meu pecado.

"Dizem que moras ao lado"

- entre trincas

e mais um bocado.

E sem mais do que migalhas,

e memórias de doçuras,

Se dão cabo de decências

E de linhas, e posturas.

Que enfado,

Sabe tão bem o pecado.

E Glória ao Pai, ao Filho

e ao Espírito Santo

E já nem rezo mais que comi tanto.

As estrelas de Modena



Lawrence Alma-Tadema (1836-1912)

um sinal de barco sem âncora que partiu sem porto.
um Kayak unilateral nos rápidos sem remos
sem a condição de evitar o impacto
perante as cataratas;
é necessário controlar a ansiedade.

os tambores rufam a banda toca
a cabeça no lugar estranho
os pés flutuam em piso branco.

as artérias de válvulas pulsantes ruborizadas.
confetis de carnaval e sopro de fitas redondas
ou em filas sucessivas e grandes de um chapéu mexicano.
Veneza no horizonte.

ao menor intervalo o gelo coloca no primeiro plano
a reunião científica, um artigo opinativo de jornal
a conversa síria sobre algum conflito radical;
é verdade
os segundos passam o mundo arrasta exige sociedade
depois passa depois passa depois passa.

na sequência de uma possibilidade
necessário apurar a consistência:
se há sinos no espaço luas crescidas
a intensidade de pensamento de quanto em quanto tempo
se rola e se enrola nos rolos do cinema
a mística a preto e branco de um filme antigo uma guerra
em Casablanca nas ruas de Paris os jardins de Luxemburgo
esplendor na relva em Nova Iorque: o enamoramento
não passa de uma possibilidade
não se deve procurar a exaustão supletiva dos cenários
é preciso saltar para os bastidores, descobrir o reservado
a singularidade de ter mãos como almofadas
de penas leves fora do lugar.

reflete-se o sol em lentes progressivas ao fim de um dia
e cria-se a faúlha e o incêndio
sente-se o medo e sem ele não faz sentido
quase uma afasia uma gaguez sem metro
( cair o espelho quebrar o encanto)
o receio de o próximo não ser ainda
o dia de pedras luzentes
- e a noite sem as estrelas de Modena.

já faz uma semana e vem uma vez mais
bem depressa a madrugada
o fim da noite
e o dia de um outro dia
tudo não passa uma possibildade
exagerada exigência naturalmente
a agenda classifica e lembra de novo a rotina
a sequência dos fios de marionete
um Pinóquio de Florença.

tanto tempo uma semana
uma semana depois do reencontro
porque não chega num sussurro de fada
a mensagem sem receio de horizonte
a revolução de uma nova caminhada:

às dez e trinta aguarda aguarda na Suiça do Chiado
não é demasiado cedo não é demasiado tarde
e os doces pela manhã não são pecado -

A árvore dos Pecados

ramdaq photography
O vento sem som.
Suave.
Sem ira, sem pressa, sem destino,
sem desfolhar o verde luxuriante da árvore.
Desliza, entre as folhas preguiçosas.

Suspensa num quase-que-cai indeciso,
uma maça vermelha, roliça e gulosa,
imagina-se Compal Ligth, em calda caseira ou saladas gourmet.
- Ah!... Quem me dera ser pêssego!
- Ah! … to be apple ou pomme de terre !
- Ah ! Que inveja!


Pelo tronco - majestoso, soberbo de si,
correm - no carreiro obediente,
formigas avarentas.
Fabricam carreiras e riquezas urgentes:
grão a grão, grão a grão, grão a grão
Muito pão.

No sopé,
ensonada, sob sete pecados mortais
Alice sonha chocolate e rimas em francês: ma mère, la mer, l'amour …

segunda-feira, 19 de julho de 2010

um rosto de mar


Magritte

o braço abria um sulco e ocupava o espaço
antes de água e plâncton.
gotas de diversos tamanhos procuravam margens
que nasciam dos dois lados
dos braços que avançavam
sem a direcção a terras areias ou plantas
a perder em distância as exactas formas
de praias e naturezas.

um horizonte rectilíneo
no destino de cada braço que seguia
- remo de sìncope e ar alveolar
fluido muito puro
que tornava orgânico e menos frio
mesmo ofegante e quente na saída.

os braços pararam
o corpo deitou-se no lençol do mar
os olhos trouxeram a queda do sol
a pele ganhou o brilho de sal
e a consistência de uma folha de papel.

suspenso de sons só de águas
- um rosto de mar.

dentro de si surgiu a memória
e a saudade
a saudade daquele rosto daquele corpo
-uma voz longínqua na música dos lábios
que ali não estando
estava -

sábado, 17 de julho de 2010

os olhos abrem a luz explode


aurora boreal

mesmo que o amanhecer seja de silêncio
não permanece a noite escura
os olhos abrem e a luz explode

quantas imagens foram que passaram
pelo quarto
a data por baixo
de altos e concisos óscares
a melhor interpretação
o melhor som
os pormenores mais belos de paisagens
o fantástico sem comparação
o melhor guião
a comédia o drama
a serenata de banda sonora

a noite em branco

e ainda dizem que a noite é escura

os primeiros raios por detrás da montanha
o início entretanto


os olhos abrem a luz explode
ao abrir o jornal uma bactéria atacou
três grandes gastaram 55 milhões
uma morte de vergonha repetida
um comboio descarrila
resta uma consolação nas notícias
oferecem um livro
Alice no País das Maravilhas.

os olhos abrem a luz explode
cala o último resquício de sono
o dia abre espreguiça-se e corre
não pára tem pressa -

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O convite ao convite




I

Interessa-me fotografar a mobilidade do convidado,
fazer uma biopsia aos seus passos pela tradição
menos frequentada por mim

equipá-lo de uma cronologia compatível com o seu talento
para me diminuir

talvez um escafandro elegante e um desnecessário calendário omisso
o ajude a respeitar
um calafrio na cave que o come vivo
como um viveiro electrónico de instantes
com necessidade de recarregamento rápido
e actualizações várias
e sem acesso à sua palavra-passe
tamanha é a falta de rede nos subúrbios do êxtase,
nas vésperas do veredicto.

Quero um convidado à sombra da sua desproporção
constante e crucial.
Convicto do pouco tempo que lhe resta para aceitar
o convite, preparar-se rapidamente para a festa,
e sair de lá sem nenhuma garantia de lá ter estado
convicto.

II

Recordo que também eu sou um convidado
e tenho uma cronologia fomentada por interesse
alheio, elíptico e prolixo.

A desproporção amamenta o meu tempo derramado.
E sou obrigado a aceitar os acenos da inércia
quando não te tenho por perto
para voltar a afastar-te de mim.

Nasci de uma estrela teórica
na manhã programada
para nunca existir
a não ser
sempre
em Não Existir.

Uma insólita primavera nas unhas mascara,
de facto, uma doença rara nas raízes.

Somos, então, pelo menos, dois convidados.
Um deles com acesso à região do princípio.
Outro à do fim.

Sim, porque um dos convidados tem o dom
de poder também receber convites
e sms’s do infinito.

Um convidado não existe sozinho,
nem o amor pode ser democrático
por delicadeza,
por isso,
alguém precisa de alguém, e que esse alguém
lhe dirija por uma vez que seja um convite preciso
e que esse convite sobressaia
na monotonia monoteísta do presente
como um convite à ofensa
com um sistema de absolvição à distância
de um convite.