quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tenho uma grande constipação


Fotografia retirada da internet



Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

sobre a dor e o esquecimento


fotografia retirada da internet


o enorme grito do teu desespero
rompeu-me por dentro.
desceram os pássaros caíram as árvores.

os jardins despediram as flores.
um rodado negro de camião envolveu-as no opaco;
chão duro , de fósseis, de organismos devastadores.

um baraço de cordame circulou a dor
na roda do corpo como um bailado interminável;
a cabeça inclinada um triângulo obtuso no joelho
a giratória zonza sem possibilidade de paragem
o retorno o voltar atrás.

a tua dor imobiliza e prende as minhas lágrimas
como a chuva de um regador lento no interior.
porquê a chuva se lá fora o sol? Porquê?

queria ser Deus e ter o poder do esquecimento
para curar não só a dor
como a memória de
a doença o sofrimento

levar-te de volta ao baloiço
de pés ao alto cabelo ao vento e de frente
apenas uma arriba o grande mar
e em cada volta de azul crescerem asas

o nascimento de uma grande liberdade
e puderes voar voar voar -

quarta-feira, 14 de julho de 2010

aquando da não memória e do desejo


Salvador Dali "Amantes pacientes" 1970


difícil de entender a queda transitória, a ausência
de um enorme desejo
porque os ponteiros , os pequenos, os mais largos
ordenavam a fogueira
a continuidade diurna, o estado alienado
de ser leve, de ser pena.

um metrónomo de passos cada vez mais curtos
indicavam a paragem
porque os ossos tangidos de ritmos
elevavam o sangue ao estado mais vermelho.

o mais alto som dos sinos
aconselhava o intervalo e a calma
o recuperar do equilíbrio.
um fechar de asas com uma cabeça por baixo
como fazem os pássaros.

dizer de forma repetida
que assim são bons os dias
a auto hipnose na contradição
são bons os dias.

uma carga negativa.
a tentativa adormecida.

no entanto na manhã sem programa
acorda a mente, um corredor longo
de bibliotecas e livros de capas douradas
e aquele odor antigo de poeira húmida
toma o sabor de rastilho, luz, faísca
e os olhos acordam
no mesmo sonho grande

e no maior desejo -

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A mensagem



Max Ernst "O nadador cego (efeito de um contacto)" 1931


de um lugar na longa linha do mar
sobreveio o nevoeiro pelo meio do areal.
tornou o rosto branco
no alheamento alto do astro.

a grande nuvem húmida, densa, invisual.
possível escutar os rolos de espuma
em rotinas de descida e despedida
longe, sem os saltos transparentes
de pequenas pulgas.

cada um em cada um e uma nuvem de fumo.
um branco muito branco, escuro.

uma voz de rumo ecoou sem corpo
naquele traje de gotículas e mãos cegas
um eco enorme a romper o silêncio:

não temas
segue o impossível -

domingo, 11 de julho de 2010

A síndrome





A quem apresentar queixa
porque a vida nos agrediu?
Como deixar nas desleixadas mãos
das autoridades incompetentes
um depoimento possível,
e a conivência histórica de um sorriso,
e um pequeno charco trágico no chão
desenhado pelas glândulas da incerteza
interpretado pela parafernália do príncipe,
dirigido pela má índole
e pós-produzido pela má-fé?

Como hesitar demasiado
sem correr o risco de deixar
de existir?
A quem apresentar as condolências depois?
Quando a gôndola do tempo se afundar
num doméstico erro de perspectiva
e numa boca sensivelmente aleatória e ortopédica,
já nenhuma originalidade na confissão vencer
senão a dos frescos dos tectos da síndrome

com as suas luzes estrábicas de submundo
fieis ao paradoxo de Proserpina
subsumidas tauromaquias
na pele

sábado, 10 de julho de 2010

Os Espanta-pardais


retirado da net


São resíduos de homens inclinados nos pomares
à sombra das aves

De camisa manchada pelas veias
de palha de peito aberto

Erguem-se os braços defronte do terreiro
e do fogo inimigo

Carregando uma paciência ao ombro
cheio de divisas e ninhos abandonados

No chapéu a pena de uma ave de companhia
e um assobio de bico vermelho

São homens cristalizados ao alto
pela terra salgada

E olhar tangente
ao campo de centeio decepado

Tiago Patrício Revista ÍTACA nº 1 Fev 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

fotografias


fotografia retirada da internet


retrato real de uma cidade matinal
uma fábrica de molduras de vão de escada
alguns minutos de intervalo.

passa um gato pardo de orelhas deitadas
esconde-se rápido por debaixo do Maseratti.

dez operárias de avental branco e ar de enfado.

uma fuma trava e lança o fumo como um traço
enrolado em nicotina de marca espanhola
diz para a colega: tem força é mais barato.

uma treina os dedos sobre a estrela do carro
diz que se fosse dela saía e ía à praia
ver o mar sentir a areia.

sete caladas em contas de supermercado
nos filhos sózinhos em casa
na ida para casa dos avós que recusaram
de olhos pregados nos virtuais teclados
cheios de erros nas palavras.

a última sentada na penúltima escada
de um prédio de cinco andares.
mármore de Angola de boa qualidade
negro como o cabelo que pousava
no avental branco e a mão num copo grande
iogurte sabor de manga.
rodava a colher como se fosse um volante
liquidificava e tornava fluido
engolia no prazer e esticava a língua
lenta e presa na leitura da revista.

explodiu em voz de soprano causou pânico
o gato fugiu como um lince sobre o muro
escondeu-se num jardim.
alguém tropeça na esquina do passeio
caem os óculos
as letras ficaram mais pequenas.

parecia falta de futebol americano
- já viram já viram aqui na Maria -
juntaram-se como se tivessem ganho a lotaria
em transe em transe de ritual religioso

e riram riram de uma alegria espontânea.

esqueceram o resto-

quinta-feira, 8 de julho de 2010

o limonete e a alfazema



Limonete e Alfazema (retirado da net)



O limonete e a alfazema
Dois vasos circundados de barro
Na entrada de um jardim;
Intensidades ali pousadas.

Ela de aroma denso e vestido violeta
Algumas folhas pequenas de ser diferente
Um pouco fechadas sem ser incenso
Sem fumo que está um dia claro.

O limonete contínuo e monótono
Sem rotinas programadas
Oscila ao sabor do vento, longamente
Oscila e aguarda que se solte
Aroma e sabor iniciático, oriental
Profundo de chá.

O limonete e a alfazema
Os dois vasos lado a lado
Porque ela encanta e aparece florescente
E quanto ao limonete só terá sentido
Se lhe tocar o ramo muito perto
A embalar vazios - leve dança
A soltar perfumes - a mistura

E o mais que permanece e não se alcança
Na intimidade das plantas -

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Palavras para a Europa


(pintura retirada da internet))


Eu, americano das terras pobres,
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se junta ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
orfão de ros rios e dos vulcões que me geraram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e do azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
digo-vos: vim aqui
para aprender convosco,
com uns e com outros, com todos,
pois de que me serviria
a terra, par que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
um pouco de todos os seres.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
da minha materna Espanha)
não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas largas ruas gastas
pelo esplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostrai-me de uma pátria à outra
o infinito fio da vida
cosendo o fato da primavera.
Mostrai-me uma máquina pura,
azul de aço sobre o grosso azeite,
pronta para avançar nos trigais.
Mostrai-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é a vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
as vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento electrizado.
Do volga fecundo trazei água
à água do Arno dourado.
Trazei sementas brancas
da ressurreição da Polónia,
e das vossas vinhas levai
o doce fogo vermelho
ao Norte nevado!
Eu, americano, filho
das mais vastas solidões humanas,
vim conhecer a vossa vida
e não a morte, e não a morte!
Não atravessei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência das prisões paraguaias,
para vir ver
ao pé dos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
as vossas órbitas sem olhos e o vosso sangue seco
nos caminhos.
Ao mel antigo e ao novo
esplendor da vida é que vim.
à vossa paz e às vossas portas,
às vossa lâmpadas acesas,
às vossas bodas é que vim.
às vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
Às vossas fábricas deslumbrantes
venho trabalhar um momento
e comer com os operários.
Nas vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na bela Hungria,
em Copenhaga me vereis,
em Leninegrado, conversando
com o jovem Puchkine, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Sou a testemunha que vem
visitar a vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.

Amanhâ cedo partirei.

Espera-me em toda a parte
a primavera.

Pablo Neruda " As uvas e o vento" Campo de Letras (Trad. Albano Martins)

domingo, 4 de julho de 2010

Se nada tivesse tudo era. Para já sou só peso em suspensão, matéria transitória de sensações e sonhos, aspirando à leveza do colibri iluminado em cor.
Sigo as Palavras-estrelas e os Homens-luz, como se tivesse medo da sombra e receio da alexia muda da dor.
Respiro este teu beijo numa inspiração e aspiro à apneia dos meus lábios nos teus.
Amo em tudo o simples.
Nos teus olhos
O meu sol.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tempos dela

Desta vez nem olhou para mim
dançava na roda
e o pescoço marcava o transe

havia Índios à volta
em sons de línguas verdes
nus da pele dela

e havia outros

autistas gelados
em danças de caça
sem pele

uma mão estava fria e a outra era inutilmente quente
e rodavam

à volta de quê - consegues ver
e lambia a mão fria

pelo fumo via-lhe os olhos
algas penduradas que arrastavam
o peso de toda a água do mundo

são iguais - dizia pelos dedos
Índios de gelo
e outros de magma que escorre
sempre envergonhado

queria avisá-la devagar
que era a luz de uma só perna
e milhões de braços dados
e o frio de dedos
não mortos mas de medos

sabia de hoje
de algas leves virtuais
e amores a monitores
gelados

e ouvia entre tambores

- nunca houve outros

fenda original

de um chão imenso interno
a um quarto branco sem sombra
escolho um ponto igual

dou um passo

o tempo quer dobrar-se entre nós
e escorre-me pelo corpo em algas macias
o espaço quer expandir devagar
para entrar distraído na minha velocidade

e mesmo que se prenda ali na metade
da metade da metade do que já percorri

chego lá

escolho o passo
como o fotão escolheu a fenda
para te seduzir

mas ele precisou que o tocasses primeiro
e eu não quero colapsar o mundo
à probabilidade de uma fenda

quero um passo lento
e o gozo de o escolher
bem aberto

escolho-o livre assim
para te chegar
mas ele repete
repete todos os outros

até ao passo original