domingo, 4 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
tempos dela
Desta vez nem olhou para mim
dançava na roda
e o pescoço marcava o transe
havia Índios à volta
em sons de línguas verdes
nus da pele dela
e havia outros
autistas gelados
em danças de caça
sem pele
uma mão estava fria e a outra era inutilmente quente
e rodavam
à volta de quê - consegues ver
e lambia a mão fria
pelo fumo via-lhe os olhos
algas penduradas que arrastavam
o peso de toda a água do mundo
são iguais - dizia pelos dedos
Índios de gelo
e outros de magma que escorre
sempre envergonhado
queria avisá-la devagar
que era a luz de uma só perna
e milhões de braços dados
e o frio de dedos
não mortos mas de medos
sabia de hoje
de algas leves virtuais
e amores a monitores
gelados
e ouvia entre tambores
- nunca houve outros
dançava na roda
e o pescoço marcava o transe
havia Índios à volta
em sons de línguas verdes
nus da pele dela
e havia outros
autistas gelados
em danças de caça
sem pele
uma mão estava fria e a outra era inutilmente quente
e rodavam
à volta de quê - consegues ver
e lambia a mão fria
pelo fumo via-lhe os olhos
algas penduradas que arrastavam
o peso de toda a água do mundo
são iguais - dizia pelos dedos
Índios de gelo
e outros de magma que escorre
sempre envergonhado
queria avisá-la devagar
que era a luz de uma só perna
e milhões de braços dados
e o frio de dedos
não mortos mas de medos
sabia de hoje
de algas leves virtuais
e amores a monitores
gelados
e ouvia entre tambores
- nunca houve outros
fenda original
de um chão imenso interno
a um quarto branco sem sombra
escolho um ponto igual
dou um passo
o tempo quer dobrar-se entre nós
e escorre-me pelo corpo em algas macias
o espaço quer expandir devagar
para entrar distraído na minha velocidade
e mesmo que se prenda ali na metade
da metade da metade do que já percorri
chego lá
escolho o passo
como o fotão escolheu a fenda
para te seduzir
mas ele precisou que o tocasses primeiro
e eu não quero colapsar o mundo
à probabilidade de uma fenda
quero um passo lento
e o gozo de o escolher
bem aberto
escolho-o livre assim
para te chegar
mas ele repete
repete todos os outros
até ao passo original
a um quarto branco sem sombra
escolho um ponto igual
dou um passo
o tempo quer dobrar-se entre nós
e escorre-me pelo corpo em algas macias
o espaço quer expandir devagar
para entrar distraído na minha velocidade
e mesmo que se prenda ali na metade
da metade da metade do que já percorri
chego lá
escolho o passo
como o fotão escolheu a fenda
para te seduzir
mas ele precisou que o tocasses primeiro
e eu não quero colapsar o mundo
à probabilidade de uma fenda
quero um passo lento
e o gozo de o escolher
bem aberto
escolho-o livre assim
para te chegar
mas ele repete
repete todos os outros
até ao passo original
Uma casa para a apostasia

Não tenho uma só casa para a apostasia.
O meu afastamento não permite limites
perfeitos
nem pegadas que indiquem qualquer acontecimento
impreterível
e, no entanto, eu já passei por ali,
já fiz com que o espaço se dilatasse para que eu pudesse
passar por ali
com o meu tempo excessivo e retraído
mas nem uma morada ficou para contar,
nem uma pensão, nem um mote de hotel de estrada ou de esquina
nem a derme crucial de um banco de jardim
todo voltado para a descrição ofegante da paisagem.
Nem a morte me deixou lá dormir
quando soube da forma como eu
desacreditava
e como era necrodinâmica
a minha vida.
incerteza
caem nuvens. caem nuvens.
uma montanha de dúvidas qual manto de amianto
a sublinhar o vento que é forte e levanta folhas
de árvores caducas e longas .
um chapéu de chuva esconde uma ruga mais funda
e o processo fotográfico de querer colocar imagens
num catálogo de sonhos, folhas aguadas de tintas
a secarem lentamente no acentuar de diferenças.
e não será importante haverem tantas?
digo das diferenças. podemos colocar cadeias ou rendas
grinaldas e cânticos de aves matinais, músicas estranhas
ou mesmo prantos, águas escorridas de lençóis, disfarçando
a imperfeição de ter os olhos negros, verdes ou castanhos
e não serem cristais de cloretos na volúpia de sinais
numa ginástica de brilhos a definir que podem ser felizes
mesmo os trajectos de ausências em direcção ao firmamento;
estrelas, estrelas e estrelas, estrelas redondas de íris
determinadas e conclusivas perante os perigos.
não é possível descrever, contar, editar o momento. sente-se
o momento quando se lê e se procura o canto das paredes
a sabedoria do silêncio, o monólogo com um ser inexistente:
será que?
o leve rubor, o suave retinir de uma pálpebra, o sobressalto
o acalanto de batuque africano, essa dança sem corpo, de corpo
a um ritmo alucinante, será que? o momento, o momento
aquele momento asfixiante e quente de girândola
mesmo que a neve, o gelo, o granizo, aquela aragem
contrariando o instante de luz, tempo de paisagens
argentinas, miríficas de risos e cores, mantas andinas
as flautas, a tez indecisa dos actores, a música
e no entanto quando tudo indica e magnetiza
a imperceptível nuvem de incerteza, a penitência de destinos.
destinos construídos nas diferenças como nuvens
azuis e cinzas caindo sobre o momento;
películas de céu, asas soltas, penas brancas -
caindo, caindo
caem nuvens. caem nuvens. a montanha de dúvidas
heterónima e indistinta a ocupar espaços
a desorganizar as sedas do espírito
como se fosse pecado
como se fosse pecado
as mãos , a boca e os lábios -
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Amanhecer

Matisse "A rapariga dos olhos verdes" 1908
Ouço bater o teu coração nesta manhã
em que uma luz de argila constrói o busto
do tempo, que um dia descobrirás dentro
de ti, e onde irás reconhecer um rosto
outrora amado. Mas não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas, e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra. Não precisas de levar contigo
mais do que o sorriso que se abriu
no instante em que o sol nasceu; e
poderás enchê-lo com as palavras que
tantas vezes esboçaste, sem as dizer,
e agora fazem parte dos teus lábios
como a flor, que pertencia ao caule de onde
a cortei, para a deixar na mesa
que ficará vazia.
Nuno Júdice
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Amor 1.
A metafísica do amor são as tuas mãos
O amor não tem nome
É um pó líquido que nos corre nas artérias
Em estado puro
Um nó sináptico que nos enrola o cérebro
Em circunvoluções frontais e fatais
O amor tem dois dias para nascer
Três para morrer e um para ressuscitar
O amor são só números e operações
Somar, multiplicar, subtrair, dividir
A génese é um paradoxo
Maior que o do amor
Que nem interessa à génese
Nasce mesmo sem amor
Para logo morrer em vida sem afecto
O amor é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Ainda assim é a sua elevação
A materialização das estrelas na carne
A metafísica do amor são as tuas mãos
O amor tem dois dias para nascer
Nesta sociedade cega e robotizada
O trabalho é um paradoxo
Menor que o do amor
Que nem interessa à génese
O trabalho é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Se chovessem estrelas
Se o amor fosse água
Se eu criasse sol
A terra não era mais redonda
Nadávamos em amor sob a chuva
Os nossos beijos eram luz
E caminhávamos em linha recta
da Terra a Vénus e Marte
Talvez aí o amor não fosse dispensável à biologia
E os cometas fossem os nossos sonhos
A voar perto da memória da chuva
A embalar-nos em braços de luz.
O amor não tem nome
É um pó líquido que nos corre nas artérias
Em estado puro
Um nó sináptico que nos enrola o cérebro
Em circunvoluções frontais e fatais
O amor tem dois dias para nascer
Três para morrer e um para ressuscitar
O amor são só números e operações
Somar, multiplicar, subtrair, dividir
A génese é um paradoxo
Maior que o do amor
Que nem interessa à génese
Nasce mesmo sem amor
Para logo morrer em vida sem afecto
O amor é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Ainda assim é a sua elevação
A materialização das estrelas na carne
A metafísica do amor são as tuas mãos
O amor tem dois dias para nascer
Nesta sociedade cega e robotizada
O trabalho é um paradoxo
Menor que o do amor
Que nem interessa à génese
O trabalho é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Se chovessem estrelas
Se o amor fosse água
Se eu criasse sol
A terra não era mais redonda
Nadávamos em amor sob a chuva
Os nossos beijos eram luz
E caminhávamos em linha recta
da Terra a Vénus e Marte
Talvez aí o amor não fosse dispensável à biologia
E os cometas fossem os nossos sonhos
A voar perto da memória da chuva
A embalar-nos em braços de luz.
Pecado ao quadrado
quadrado
recto de lados e princípios
rígido e perfeito na forma
(en)quadrado em si
preso num quadro quadrado
uma equação perfeita
com resultado impossível
uma curva normal
sem desvio-padrão
traçado a régua e esquadro
ângulos de noventa graus
és traçado sem pecado
sem curva nem diversão
peca em círculos
faz a roda
rebola em esfera sem rumo
desdobra a aresta toda
corrompe-te nos decimais
sem resto certo
sem divisão
só riscos tortos
feitos à mão
beijos redondos
em equação
eu a dividir por tu dá nus
subtraindo nós de ti dá nó
peca circunferencialmente
em ângulos imperfeitos, obtusos e agudos
desenha números na pele
sem borracha
não apagues nada...
os rascunhos são perfeitos.
recto de lados e princípios
rígido e perfeito na forma
(en)quadrado em si
preso num quadro quadrado
uma equação perfeita
com resultado impossível
uma curva normal
sem desvio-padrão
traçado a régua e esquadro
ângulos de noventa graus
és traçado sem pecado
sem curva nem diversão
peca em círculos
faz a roda
rebola em esfera sem rumo
desdobra a aresta toda
corrompe-te nos decimais
sem resto certo
sem divisão
só riscos tortos
feitos à mão
beijos redondos
em equação
eu a dividir por tu dá nus
subtraindo nós de ti dá nó
peca circunferencialmente
em ângulos imperfeitos, obtusos e agudos
desenha números na pele
sem borracha
não apagues nada...
os rascunhos são perfeitos.
Talvez
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Quero sair do comboio
Que vem e vai em pecado
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
O planeta azul
Pecou com o astro sol
Seu fruto é todo pecado
De nome Homem
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca
Peca
Peca
Só mais uma vez
Para seres humano
Só mais uma vez
Até seres humano
Peca incessantemente
Até o sol raiar
O sol dorme de noite
com a terra em leito mar
Peca até entenderes
Que pecar não é pecado
Que pecar é a virtude
De quem vive ocupado
A colocar forca pesada
Em seu pescoço docemente
Com mãos próprias
Mãos do mundo
Este peca impunemente
Ao assistir à punição
Gozando a justa pena
É sua própria prisão
Peca peca peca
Peca só mais uma vez
Até seres humano
Até só o talvez bastar
talvez
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Quero sair do comboio
Que vem e vai em pecado
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
O planeta azul
Pecou com o astro sol
Seu fruto é todo pecado
De nome Homem
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca
Peca
Peca
Só mais uma vez
Para seres humano
Só mais uma vez
Até seres humano
Peca incessantemente
Até o sol raiar
O sol dorme de noite
com a terra em leito mar
Peca até entenderes
Que pecar não é pecado
Que pecar é a virtude
De quem vive ocupado
A colocar forca pesada
Em seu pescoço docemente
Com mãos próprias
Mãos do mundo
Este peca impunemente
Ao assistir à punição
Gozando a justa pena
É sua própria prisão
Peca peca peca
Peca só mais uma vez
Até seres humano
Até só o talvez bastar
talvez
Pecado
Se pecar fosse pecado
Teria condenação
Se pecar não fosse apenas
A humana condição
Se o homem não se julgasse
A si de dentro de si
Ao outro de fora para dentro
Ao outro por fora de si
Haveria então pecado
Se não pudéssemos pensar?
Haveria então pecado
Se não pudéssemos julgar?
Se pecar fosse pecado
Eu não saberia pecar
Assim peco a toda hora
Ao agir e ao pensar
Peco em cada julgamento
Em cada interrogação
Peco tanto a toda hora
Peco com e sem razão
Se em vez de bomba de sangue
Fosse teu meu coração
Era máquina de pecado
A turvar-me a vã razão
Ao ver-te assim já pequei
Ao ter-te pequei também
Pequei quando te beijei
Peco em ser tua refém
Haverá maior pecado
Do que amar sem ter razão?
Não será então pecado
Sinónimo de prisão?
Ou será amar assim
Só uma cega paixão?
Disfarçada de pureza
É no fundo possessão
Já que o verdadeiro amor
é livre na sua verdade
Já que acreditar em pecado
É sentir culpabilidade
Deixo aqui minha veste
De pecado e de vaidade
Fico nua só de amor
Inundada em liberdade.
Teria condenação
Se pecar não fosse apenas
A humana condição
Se o homem não se julgasse
A si de dentro de si
Ao outro de fora para dentro
Ao outro por fora de si
Haveria então pecado
Se não pudéssemos pensar?
Haveria então pecado
Se não pudéssemos julgar?
Se pecar fosse pecado
Eu não saberia pecar
Assim peco a toda hora
Ao agir e ao pensar
Peco em cada julgamento
Em cada interrogação
Peco tanto a toda hora
Peco com e sem razão
Se em vez de bomba de sangue
Fosse teu meu coração
Era máquina de pecado
A turvar-me a vã razão
Ao ver-te assim já pequei
Ao ter-te pequei também
Pequei quando te beijei
Peco em ser tua refém
Haverá maior pecado
Do que amar sem ter razão?
Não será então pecado
Sinónimo de prisão?
Ou será amar assim
Só uma cega paixão?
Disfarçada de pureza
É no fundo possessão
Já que o verdadeiro amor
é livre na sua verdade
Já que acreditar em pecado
É sentir culpabilidade
Deixo aqui minha veste
De pecado e de vaidade
Fico nua só de amor
Inundada em liberdade.
É segredo
Peço o teu pecado
Peco que o já disse
Peço que o já sinto
Peco em ter pensado
Este meu segredo
Em mim tão bem guardado
É grande, é um gigante
É imenso, é pecado
Se agora to contasse
Em jeito de tratado
Mais de mil horas lias
Com rosto de espantado
Até de mim fugias
Com tamanho pecado
Peço que não o contes
Peco em ter-te contado
Foi mais do que devia
Foi tão precipitado
Pois quando é contado
Pecado bem guardado
Torna-se em julgamento
Fica desvirtuado
Assim segue pecando
em segredo humanamente
Que o verdadeiro pecado
É só por ti condenado
Tormento em ti é julgado
Cúmplice em ti e por ti
Desdobra-se velhas memórias
Até ser só passado.
Peco que o já disse
Peço que o já sinto
Peco em ter pensado
Este meu segredo
Em mim tão bem guardado
É grande, é um gigante
É imenso, é pecado
Se agora to contasse
Em jeito de tratado
Mais de mil horas lias
Com rosto de espantado
Até de mim fugias
Com tamanho pecado
Peço que não o contes
Peco em ter-te contado
Foi mais do que devia
Foi tão precipitado
Pois quando é contado
Pecado bem guardado
Torna-se em julgamento
Fica desvirtuado
Assim segue pecando
em segredo humanamente
Que o verdadeiro pecado
É só por ti condenado
Tormento em ti é julgado
Cúmplice em ti e por ti
Desdobra-se velhas memórias
Até ser só passado.
adolescente retardado

Paul Klee " a cidade do sonho " 1921
fala-me de serras e de pastores, de campos largos
de outras humanidades que não as vulgares
assim como uma espécie de libertação
de ser obrigatório ler os jornais
de mergulhar nas complexidades existenciais
de telefonar sem fios, de correr e correr
correr muitos riscos para encontrar paredes planas
paredes moucas como objectos contemplativos.
fala-me de serras e de pastores não no sentido de sacrifício
como amplitude de saber: que uns são felizes e balem
se forem ricos e diversos os pastos durante o dia
quentes as palhas na recolha de luas e lãs crescidas.
que um abana a cauda por ser a sua causa cuidar do rebanho
para que não se perca e fuja ao perigo
da sábia raposa, do falso lobo.
e por fim o outro, aéreo e louco a escutar as aves
de capote em roda a ler a sombra das árvores
a erguer-se no cajado. abrir os braços.
e não me ouves queres que seja depressa
como um jovem atleta a devorar o guiness
a empurrar o mundo na ponta da seta
não lhe dar o descanso de um buraco negro;
ser um cumpridor progamado de tarefas
a voz de um computador numa odisseia no espaço
o poderoso decisor de apertar o botão vermelho
o ultrarápido corredor de tudo ou nada
de sangue e lágrima.
talvez seja verdade e as mulheres tantas vezes
são tão práticas. mas sou poeta sabes.
ilude-me como se gostasses das minhas palavras
das notas desafinadas de uma cana lascada
a servir de flauta, a soltar a dança
a roubar a cor ruiva dos lábios
depois de lançar o chapéu de palha
a cem metros de distância.
e não me ouves. dizes que não é poesia
que sou insano.
com esta alegoria – dizes - de adolescente retardado
com este sonho dentro da cidade
deixas o carro ao sol – dizes - um calor que não se pode.
e com o traffic na artéria principal ainda falta o combustível.
mas que grande chatice – dizes – como é habitual.
sorrimos.
fala-me de serras e pastores, de campos largos
e um refúgio com um pouco de colmo
num abrigo fresco de granito - digo
sorrimos -
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