terça-feira, 27 de novembro de 2018

Um lugar para o silêncio


Procuro um lugar próprio para
o silêncio Um refúgio de infinita
paciência Uma muito curta cadeira onde possa
sentar-me e estar parada –
no redor do mundo

Esse lugar perfeito com vidros voltados
para a chuva onde quero
desenhar em segredo
os esboços e os vocabulários
de todas as conversas em que
havemos de perder-nos As línguas
intactas e as ideias todas potáveis

Um lugar antigo e intocado
de equívocos nenhuns Onde a distância
de olhar vem desacompanhada
de qualquer outra espécie de distância

Procuro um lugar como uma janela aberta
em portadas feitas de fogo e de mar Um lugar
sem esquecimento possível

Trago um mapa defeituoso e desfocado e –
por isso Pelo carrego de culpas e medos que
nunca mais crescem e me desabitam a alma –
sigo em passos de tropeço lento
nutridos de inépcia e intuição em partes
talvez iguais É assim que
no meio do silêncio
procuro um lugar de reencontro
Raquel Patriarca