domingo, 25 de novembro de 2018

Novembro: em silêncio junto ao vidro





a chuva incisiva percorria as formas do jardim
trazia o ruído às grandes árvores: refúgio de múltiplas vidas
como as formigas e o nosso esquilo:
descendo e subindo, descendo e subindo
na distância inclinada do teu olhar, em silêncio e sabedoria
perante o que não se explica, se grava e se guarda
como momento significativo –

Novembro é um mês a caminho e o mês do armistício.
e lembro-me do discurso do dia onze, lúcido e sem nacionalismos
porque já houve um mundo sem sono em dias longínquos –

uma centena de anos. uma centena de anos.
difícil escrever poemas quando ressuscitam os instrumentos mortíferos.
os olhos fecham, as trincheiras de uma guerra feroz gritam
porque os generais não sendo modernos já não subiam aos montes
e na segurança de um fumo de charutos
decidiam a vida e o sacrifício de quem plantava nabos e hortaliça –

o mundo de 18 não dormia, eram longas as noites, eram longos os dias –

quando a chuva parou, clarearam os novelos escurecidos, e o nosso esquilo subia
atravessava as linhas de luz naquela silhueta levantada de unhas pequeninas
parava e subia

transformava-se a árvore em montanha de silêncio
povoada de inúmeras gotículas - um quadro magnífico!
a natureza supera-se sempre sem a necessidade de liturgias
apenas o homem tem ópio na alma quando o poder em pernas tortas caminha –

o nosso esquilo tinha pressa de novidade: uma outra árvore, um outro ponto de vista
de um mundo que não vê globalizado: não sabe do Brexit nem das tiranias Sauditas
da ameaça dos populismos, dos líderes imprevisíveis, nem das falsas notícias.
os esquilos não ousam mudar a duração das noites e dos dias
nem percebem nada de mundos líquidos onde nascem profetas de utopias
como um super-homem de economias e tecnologias.

espreitando no silêncio bom de uma sala morna
perante o ecrã de areia e sílica, na transparência súbita de um dia ocasional
os teus olhos sorriam.
esquecida de um teto e de um chão, sossegada, tranquila
viajavas na planície do pensamento, no intervalo entre as palavras:
como Sophia eras dona da história de um jardim: sublime, raro, irreplicável –

em silêncio junto ao vidro o mundo podia adormecer
não se ouviam os braços assustados da natureza.

mesmo quando se despediam de folhas coloridas –


 josé ferreira 23 de novembro de 2018