domingo, 24 de janeiro de 2016

O ROSTO DO MEU VIZINHO

1.
O rosto do meu vizinho, o professor
cuja mulher morreu,
ficou nu de repente, sem protecção nenhuma.
Sempre que nos cruzávamos no pátio
e ele começava de súbito a falar, de uma maneira franca,
das coisas todas que o recordavam dela,
era como se eu visse o seu rosto pela primeira vez.

Como a casa em frente –
resguardada até há pouco por um castanheiro imenso,
mas destruiu-a uma tempestade e teve de ser cortada.
E antes que a fenda cresça, habitada pelo hábito,
vejo as janelas da casa, a vida por detrás, acontecendo.

2.
Uma camisa de cor pálida. A cabeça de um patrício romano.
Um lugar de estacionamento inviolado
junto de um muro baixo, onde, depois da chuva,
os caracóis estacionam também.
Durante muito tempo pensei: o perfeito cavalheiro
que atravessa uma vida ordenada, certa,
tal como passa pelo pátio, todas as manhãs.
Nunca lhe dei mais de setenta anos.

Tem oitenta, disse-me no outro dia,
esteve no ghetto de Varsóvia em criança.
O pai e o irmão morreram. A mãe e ele sobreviveram.

Alina Szapocznikow escreveu sobre o baptismo do desespero.
Tantos em silêncio, que nunca falaram daquilo por que passaram.


Poema de Krystyna Dabrowska
(traduzido do inglês por Ana Luísa Amaral)

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