sábado, 4 de outubro de 2014

uma visita inesperada

imagem daqui

um fundo verde e um banco de madeira.
um recorte de dois vultos na moldura de um vidro.
uma janela em guilhotina.
uma esvoaçante cortina.
qual o valor de um gesto sem som à distância de um sorriso?
qual o valor do que se imagina?
analfabetos emocionais dizia Bergman nos filmes.
existe uma prisão dos sentidos na pele que segura os pensamentos
um  mapa de linhas com rios parados
sem fluidos
sem serem fluidos,  sem fluírem. rios de tinta, rios precisos, rios impossíveis.
uma caricatura sem margens, um espaço indefinido –

existe um lugar de sonho  em todos os jardins e em todos os lugares por onde viajam os rios
a possibilidade de uma autobiografia em que mudam as plantas e em que se tingem as folhas
como na época das vindimas: a cor dos bagos e a cor vermelha de um mosto doce
numa  espuma frágil que desliza –

em Outubro o sol brilha. por vezes uma nuvem
e pelas manhãs  um orvalho miudinho. um arrepio.
alguns dias sucedem sem bússola, desorientam-se, experienciam-se e permanecem límpidos.
como naquele dia: um dia de luz, uma túnica branca de linho, uma aragem sensível
um dia sem que alguém pudesse imaginá-lo assim.
um dia sem índice, sem a cartografia falsa dos mapas coloridos.
naquele dia havia um rio e um verde enlouquecido
uma janela aberta e o esvoaçar de uma cortina –


josé ferreira 4 outubro 2014 


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