sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cordélia e o Rei Lear

  
                                                               “The way of this sad time we must obey;
                                                            Speak what we feel , not what we ought to say” W. Shakespeare

esquece e perdoa pois não há dor que doa
em ninguém de forma igual.
és única, sabes, como um trevo de pétalas simbólicas
como uma brisa ou um raio de sol que leva a chuva do mar:
pouco a pouco, em sequência morna de dedos invisíveis
a deslizar, a deslizar –
os nossos poemas  são formas e linhas de pele
há um sumo de alma em cada um deles
um lugar de tempo e espaço, um rio de sangue
por vezes, um oceano de palavras acariciando as rochas
e subsiste a longitude dos olhos, as memórias  e as baías desiguais.
se falo de mim? mas sempre falamos de nós, sempre falamos de nós.
numa medida sem dono,  sem o sossego das métricas
sem o peso definido do número e da  percentagem.
uma ilusão que nos ilude sempre  como se fosse verdade
uma verdade inalcançável, singular e infinita –

há nevoeiro ao acordar, uma cor cinza. lembras-te de Shakespeare?
lembras-te do Rei Lear? tinha três filhas e uma era original.
Cordélia era o seu nome e põe-me sempre a pensar.
era única, sabes. e no fim, é uma tragédia:
em cinco actos, quatro mortes e uma lição moral.
se reparares bem, o rei não resistiu à tempestade
pediu que o coração falhasse.
partiu com a sua dor numa piedade de cima.
a coroa era uma casca de ovo, partida e vazia (disse-lhe o Bobo).
a sua Rainha há muito adormecida e os cavaleiros perdidos
e Cordélia, de lábios abertos não criava a névoa
o fumo breve, na imagem fugidia dos espelhos.
o corpo de Cordélia já não era aquele que jazia
era o outro, imanente e intangível na imagem reflectida –
porquê ficar? o Rei na sua dor, que era só sua, partia.

sabes, és única. vejo interrogações nas tuas pestanas de libelinha
na tua pele luzidia.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
o nevoeiro passa. o nevoeiro vai passar –

sabes, na história do Rei Lear, há quatro mulheres fundamentais
a génese e um mundo de falsas velocidades. tudo tão rápido.
uma voz ausente de mãe e não há descendentes.
o Rei de França que recebe a alma mais pura
ausenta-se  inexplicavelmente, não cuida:
Cordélia sem vida, como Antígona.
depois as duas irmãs,  iguais na ambição, na traição e na perfídia
desvanecidas, entre o veneno e uma lâmina assassina.
por fim os homens. os bons homens predominam.
mulheres nenhumas para as últimas palavras, as da epígrafe.
por fim distribuem-se títulos, terras e honrarias.
a paz predomina. um ciclo e um círculo como as noites e os dias.

os teus dedos são ainda aves que ondeiam os cabelos por detrás dos ouvidos.
sorris sempre com esse gesto simples de levantar uma cortina
de deixar entrar luz na superfície da pele
na curva definida do rosto.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?

a tua dor é singular, assim a minha, ocupa um centro
não se divide. é um bom indício –


 josé ferreira 6 Agosto 2014

1 comentário:

Anónimo disse...

Poema intenso.