domingo, 17 de agosto de 2014

a cidade que fluía

imagem daqui

em frente de um vidro duplo de um café vulgar
não passou nenhuma das passantes de Baudelaire.
nem aquela alma singular no meio da multidão
de que falava Poe naquele fim de tarde invulgar.
a cidade roía a corda invisível do tempo sem prisão nem abismo.
fluía na sua indiferença fria dos dias habituais.

e é preciso tão pouco
tão pouco e mais nada
para que te estenda a mão –

como quem desprende uma cortina
numa janela demasiado larga, demasiado nua
demasiado lúcida, quando a luz é demasiada.
é preciso tão pouco para desvanecer no teu corpo
na curva dos teus braços mesmo que fechados
apesar do movimento dos barcos –

tão pouco e mais nada
para que as gaivotas pousem na solidez dos muros
e as muralhas acabem –

e os olhos, os olhos, os olhos, os olhos
os olhos como margens
no sublime incrível de se transformarem em asas –


.josé ferreira 17 de agosto 2014

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