quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um poema inédito de José Nuno Magalhães


Magritte The Village of the Mind 1926

A morte perscruta-me.
Sôfrego, o pensamento enquista-se nas
câmaras cardíacas, arqueia multiforme nos varandins da loucura.
Mãe, não soube salvar-me,
mas poderei ainda morrer no regaço
onde, inteira, se confabulou luminosamente toda a minha existência?

A morte perscruta-me.
O medo adestra-me centrifugamente,
nuclear, placentário,
e demoro minhas mãos venosas e trémulas
sobre os olhos.
Penso. Amanheço dolente,
inundo as divisões da casa, escorro nas
suas calhas.
Primaveris, o canteiros aguardam extasiar-se
nas flores que não plantei e
eu esmoreço por não saber dizer-lhes
que achei absurda a eternidade e longínquo
demais o fim das estações.

A morte perscruta-me.
Hálitos antigos pernoitam-me a boca e um
sorriso desponta frágil e amorfo
sussurrando improváveis palavras de amor
que disse por pensar tê-las pensado.

A ria enche-se de barcas sobre a profusa melancolia. Eu sei: a morte perscruta-me
e nada que eu possa nomear alicerçou as minhas pontes.

José Nuno Magalhães

p.s. Este excelente poema foi-me enviado pela nossa colega Auxília a quem muito agradeço a partilha

1 comentário:

Mar Arável disse...

Há palavras que não mentem