sábado, 1 de março de 2014

Mergulho




O corpo pouco equilibrado já mergulhado 
lembra o salto de gigante
era a vida a fechar-se duas vezes
três quartos de olhar à superfície
e um aviso para não resistir do outro lado
que afinal talvez existam 
as hierarquias dos anjos

um reflexo turvo na água 
desenhava os seus mortos
as ruas que voavam para trás
as mãos que com elas se afastavam 

talvez numa só hora 
deslocada para o lado com cuidado 
que na direcção de arrancar uma hora 
todas as forças a imobilizam

perante o fundo de um olhar 
em marcha silenciosa 
as horas passadas acenam 
à medida que vão ganhando rasto 
e alguma beleza em serem ultrapassadas

a marcha parece mais lenta
relativa a um comboio que se vai despenhar

apenas três sinais possíveis ao silêncio
(os mesmos que existem no fundo do mar)
o sinal de regresso 
e as horas passadas imóveis
estancadas à volta daquela pequena insistente
que tão bem dançava à superfície
sem perguntas nos bicos dos pés
(aquela hora feliz insubmissa ao rasto 
como um cometa que encontra um assobio no universo)

aquela hora era feita de sopro ao acaso
talvez mais leve que o ar 
e ali se interpunha ao mergulho
como o zumbido de uma mosca 
à hora da morte


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