Porto, 30 de janeiro de 2014
Minha
querida Emily,
Sei que
me esperavas por estes dias, mas não posso ir como
prometi.
Não estou bem, tenho acordado sem alma e sem ânimo, os
médicos
não sabem o que tenho e de verdade
que não
me podem ajudar porque estou doente nas palavras,
Sinto
que já não sei como escrever.
Tenho
tempo e papéis e lápis mas não sei como escrever.
A chuva
e o inverno já me são insuportáveis. A humidade ensopa os
cadernos,
amolece os papéis e faz enrolar os cantos das fichas de cartão
em que
vou catalogando as coisas do mundo para as escrever depois. Mas depois
olho
para todas aquelas pequenas notas de vida e não as consigo escrever.
Persegue-me
um querer que não consegue.
Tenho
alimentado o gato, feito a sopa, tratado das roupas, mantido as coisas nos
lugares.
Respiro
todas as pequenas ternuras e suporto tudo o resto.
Faço
amor, faço as compras, faço as camas,
faço
parte do mundo e faço de conta que compreendo as pessoas.
Sorrio
compostamente, digo que pois que sim, às vezes encolho os ombros também,
mas
evito ter muito que dizer.
Enche-me
o silêncio e o enfado. Sobretudo enfado.
O mundo
invade-me todos os dias e não consigo
fechar-lhe
as portas. Falta-me a planície e o isolamento. Falta-me –
sobretudo
– a determinação, e trago-me como numa pausa permanente, tão separada
de
tudo. Imagino-te desiludida comigo. Assim sentada e muito quieta, com os olhos
serenos,
que te ficaram para sempre na fotografia a preto e branco que guardo nos teus
poemas.
Assim
sentada e condescendente a ouvir todas as pequenezas de que te falo.
Às
vezes quero ser mais como tu.
Tu que
escreves com a consistência que eu só posso reconhecer na chuva
que me
ensopa os papéis e os cabelos, sem compromissos e sem concessões,
podes -
por favor - ensinar-me o ofício de escritor,
Diz-me
ao menos se também tiveste vontade de descompor tudo.
De
arrancar as cortinas só para as ver rasgadas e caídas no chão
a
ganhar pó e pelos de gato. Uma fúria de empurrar para cima de qualquer outra
coisa
a falta
de sustento que vem e invade tudo. A dúvida e o medo de se poder cair assim
- desprendidamente - como a cortina a quem se
lhe partiu o varão.
E é que
tenho mesmo que escrever,
Emily.
Sinto
que não sei escrever, mas na verdade não sei fazer mais nada.
Sem
escrever não tenho, simplesmente, para onde ir e estou assim,
estupidamente
incapaz. E o mal não é do inverno ou da chuva ou
da
humidade. O mal sou eu, compreendes.
Todos
os dias, entre as muitas coisas de que faço planos, e as
poucas
que enganadamente se cumprem, vou mentindo uma,
e
outra, e outra vez ainda. Ao mundo e a mim, sobre o desgoverno
que
faço do tempo e que não tem remissão. Do tempo e do papel e
dos
lápis, que se me confiam sem perguntas e sem reservas, porque nada
sabem
da realidade e do mau uso que lhes dou.
Vou
contando os dias a tresmalhar-se.
E não
sei o que fazer da solidão que me entra em casa e
se
acomoda para ficar, como se ela própria tivesse medo de estar sozinha.
Queria
visitar-te, Emily, a sério que sim. Falar contigo com vagar e
ouvir-te
sem medo e em paz com o que espero de mim,
sentar-me
na tua frente que é como se fosse na minha frente.
Um dia
de paz, finalmente.
Raquel Patriarca
2 comentários:
Há dias assim
Raquel,
vou ter que me repetir, mas reforço: é magnífica esta carta, se Emily a recebesse, gostaria de a ter lido :)
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