segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O homem e a sua circunstância



















Saul Leiter


nem toda a circunstância se faz de lugares comuns
de orientações velozes e do íman das cidades
do metálico e do plástico, da irrealidade quotidiana.
há faces brancas nas manhãs plácidas do presente e do passado
existem pétalas sem nome pelos passeios molhados
as almas podem habitar possibilidades –

chovem sem mágoa gotas lentas.
os carros passam lançando um nevoeiro húmido
e os pés avançam.
os passos seguem outros passos
como se fizessem parte de um exército de rostos elevados
ritmados, passo a passo: em frente, atrás, ao lado  –

se um homem caminha no meio da cidade
mimesis simplifica a poesia distingue
e transcende para além da certeza de haver flores doces e amargas
na circunstância que se persegue, pelo espírito e pelo acto
entre a coragem de encontrar e a possibilidade da descoberta.
porque os segredos são poços fundos
como paredes submersas de Atlântida ou estrelas de uma nova galáxia –

o verdadeiro pulsar  do humano não pode ser determinado
esconde-se atrás de uma simbiose de luminosidades.
não és tu nem o outro o mestre dos sentidos
apenas peças de uma dramaturgia invulgar
onde as almas são sempre únicas, sem artérias, sem geografias
habitando a circunstância dos espaços:
como quando o azul se distende
e completa o mar –


josé ferreira 30 janeiro 2014 


1 comentário:

Elza disse...

José, gostei tento destas almas que 'vagueiam' a cidade - 'as almas podem habitar possibilidades - '

E, depois, também 'a coragem de encontrar' e 'a possibilidade da descoberta'. No fim, tudo há de ter um sentido.

Obrigada pela partilha.