segunda-feira, 4 de novembro de 2013

a irrealidade

fotografia daqui

a irrealidade seguiu a água nas ribeiras;
pequenas curvas e  tremuras de luz nos socalcos de pedras lavadas.
um percurso líquido.
a irrealidade conseguiu  afastar cortinas e abrir uma janela
num 1º andar por cima de uma azenha com roda de pau;
o som da água, o translúcido de uma nuvem de poeira pousando na superfície
pela corrida de crianças em pés pesados
sapatos sem cordões,  botas de couro desapertadas.
a irrealidade construiu uma imagem; uma tela gigante, onde
o sino, o carro de bois lento, o rebanho rápido, o toque no chão do cajado
o cão de cauda varrendo o ar.
a irrealidade agradava-lhe: uma casa no ramo de uma árvore perto dos pássaros
na árvore mais larga da antiga aldeia, onde havia aquelas pessoas
aquelas crianças, aquelas ruas de domingo, ruídos e passos sem pressa
daquelas pessoas que seguiam e acenavam
naquela tela rectangular
gigante
na irrealidade, na irrealidade, na irrealidade.

pela manhã nuclear, o sol cravou-lhe uma seta na tela. 
uma selva de carros inundou a cidade.
os prédios eram prédios e as casas eram casas
as árvores eram poucas e pouco largas.
em nenhuma delas havia casas.

josé ferreira 4 novembro 2013






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