sexta-feira, 5 de abril de 2013

escrevo-te XVI - Jeanne e Modigliani

                                 imagem daqui




sabes,  há uma lua desenhada sobre a  parte escura do jardim
as camélias vermelhas, as orquídeas de matizes, estão adormecidas
e os meus pés descalços são sem ruído, por vezes lentos, por vezes rápidos
e não importam as areias, os pedaços sem relva
os pequenos torrões de terra que se desfazem
enquanto os passos passam em  S’s  que não tropeçam;
tenho uma folha branca e uma caneta cheia de tinta, escrevo-te –

escrevo-te sobre as telas de Paris e um bairro de pintores
no início de um século e de uma arte nova
escrevo-te sobre o pós-impressionismo na era de Rodin e de Camille –

sabes, em tempos fui um pintor, devo ter sonhado, talvez fruto de arquétipos
fui um pintor na era das clarabóias depois de Renoir.
habitava um sótão perto do Sena e experimentava o poder das cores
a paleta no polegar e pedaços de óleos na fluidez da essência
a navegar por cima de outros pedaços
 e um azul ultramarino na longitude da alma -


Jeanne, assim te chamavas e  queria pintar, queria deslumbrar
queria ser uma estrela do Norte no salão dissonante des artistes
queria desafiar Picasso, fazer esquecer Rivera, Seurat e Degas
tirar o lugar de Manet no piquenique –

mas não queria pintar a cidade, a sua névoa de prédios altos
os seus passeios cheios de gente, sabes, não como Pissarro
queria ser diferente -

e queria dar-te tudo,  Jeanne
ser o sol e a lua , o tórrido verão e a brisa que perdura
o cansaço de muitas noites  e o embalo de muitos braços
a queda d’água e um rio de ternura –

sabes, Jeanne, fui pintor na neblina de Paris no boulevard St. Michel
e os artistas do Quartier prolongam-se no tempo
as suas obras são as trinta moedas num chão de Páscoa
no suor das pedras, na memória das lágrimas
das vidas difíceis que tiveram –

sabes, Jeanne, ficaram as formas na imortalidade das telas
a dialogia concreta de paixões como setas
o simbolismo eterno e o excesso
a aura de pintar os olhos na cor exacta -

depois de conhecer a alma -

josé ferreira 5 Abril 2013

3 comentários:

Anónimo disse...

Escrevo-lhe, para lhe dizer para continuar a escrever.
Um livro, um jardim, uma flor, uma tela, uma música, um lar, dançar num prado,um lampião numa noite de um Verão e luar,um castelo e Paris para escrever no verbo amar.

Anabela Brasinha disse...

Olá José,

Belo Poema,

Gostei logo, e muito, do primeiro verso
"sabes, há uma lua desenhada sobre a parte escura do jardim".

E termina bem o poema, com
"a aura de pintar os olhos na cor exacta -"

Abraço e Sorriso

Mar Arável disse...

Tudo é mais claro

no outro lado do cais

Excelente