quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[TUDO À MINHA VOLTA] - um poema de Manuel António Pina


Tudo à minha volta cumpre 
um destino silencioso e incompreensível 
a que algum deus fugaz preside. 
Fora de mim, nas costas da cadeira 

o casaco, por exemplo, pertence 
a uma ordem indistinta e inteira. 
Dava bem todo o meu sentido prático 
pela sua quieta permanência em si e na cadeira. 

A realidade dos livros em cima da mesa 
parece tão estritamente real! 
As filhas falam, barulhentas e reais, 
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real. 

Sob este rio real 
o rio que me arrasta, de palavras, 
corre dentro de mim ou fora de mim? 
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém, 

como está neste lugar (qual?), 
e como os livros na mesa? 
O que fala falta-me 
em que coração real? 

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)

Manuel António Pina lido aqui

1 comentário:

Mar Arável disse...

Quem somos?

aqui tão perto
que nem nos vejo