terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

escrevo-te (XII) - a cidade diferente e uma orquestra de músicas poéticas



Vladimir Kush


escrevo-te sobre as portas de que tantas vezes falamos
portas que se fecham e portas que se abrem
sem serem conchas, sem terem o brilho de uma cobertura de pérolas.
imagina a cidade como uma grande concha do pacífico
um microcosmo protegido, um céu branco
uma música de orquestra com hits de sessenta
uma orquestra camaleão que fluísse do jazz ao rock
reboando por aquele céu branco, entrando pelo vidro aberto dos carros
pelos vidros das janelas e não pelas portas, portas que se fecham e portas que se abrem.
nesta cidade de concha gigante não há a necessidade casacos ou aquecedores eléctricos
uma temperatura constante, um clima de ilha atlântica na latitude certa.
no fundo da concha está pousado o mar onde mora a cidade
um mar porque o universo é a concha
e há mais água do que casas, prédios, lojas, árvores, terra
e janelas cristalinas onde dentro de vasos  crescem tulipas.
uma curiosidade: esta cidade é plana, está toda ao mesmo nível
e sendo assim, abaixo dos passeios são cinco centímetros
cinco centímetros de água, imagina
nesta cidade de concha e de céu branco, num tom madrepérola
ninguém usa sapatos, andam todos descalços e quase sempre de pés frescos
refrescados pela água salgada, uma água muito azul e de ondas pequenas e brancas
numa espuma de massagem, de spa, numa pele sobre os dedos a amaciar os pés.
a noite, a noite nesta cidade é aquela parte em que a orquestra toca uma música suave
e adormeces. a noite, a noite nesta cidade é de olhos fechados, de tranquilidade
e sabes, o mais importante é que as portas não são precisas
aquelas portas que se fecham e aquelas portas que se abrem
portas rodeadas de véus, de cinismos, de contrariedades, portas inqualificáveis
porque nunca encontras a certeza de verdades, portas disfuncionais
as portas habituais da cidade, portas que se fecham e portas que se abrem-

Escrevo-te sobre as portas e um sonho de cidade, os teus cabelos estão inclinados.
percorro os teus olhos enquanto percorres as letras e chamo a orquestra
a orquestra daquela cidade, para que faça descer as músicas
o som etéreo, sempre e na medida certa, a medida do desejo
em músicas poéticas junto da curva dos teus olhos
músicas absolutas, na transparência exacta -

josé ferreira 19 fevereiro 2013

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