segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

escrevo-te (X) - as plumas suspendem-se sem peso


Plainness
Anne Aden


escrevo-te sobre as amendoeiras
as árvores de flor branca e de aroma doce -
não há lugar a vírgulas
para que respires na minha intensidade
para que te deixes levar pelos quadros e pelas fotografias -

os graus são quatro e as flores não gostam
preferem a madrugada morna como quando acordamos
com um manto à volta
à volta dos sonhos e longe das realidades -

nas manhãs mais frias as geadas cobrem as plantas
e a mãe-terra fica dura.
não porque seja a sua natureza ser rugosa e empedernida
ser vestida de agressividades
mas pelas razões do ventre pela protecção do húmus
na película que recobre o silêncio da génese
o despertar de um qualquer dia -

as madrugadas são sempre imprevisíveis
podem ser frias como esta árvore que aqui vês sem as flores e sem os aromas
apenas de traços definidos como esquiços a carvão
uma vida despida
mas... as madrugadas podem ser luminosas como os dias dos namorados
quando erguem os braços e lançam gemidos
espreguiçam-se
soltam-se
como as plumas no vazio
suspendem-se sem peso
sublimam-se
e voltam a descer sem pressa
sem arestas de silício
imersas em perfume 
favoráveis e macias -

trouxe a mochila para junto da árvore de pétalas brancas
agora aberta de onde retiro a campânula do frio
de onde retiro a manta de quadrados de xadrez a preto e branco
e uma outra espessa de lã de merino.

trouxe a mochila agora vazia
e reaqueço lentamente
numa cronologia de segundos um a um
sentes?

por cima da terra até junto dos joelhos há três planos
e um conforto.
o céu está azul e ouço ao longe o rebanho
no tempo diferido de um soar de campainhas.
um som longínquo invisível sem exigências de algemas
pausadamente
sentes?

no redondo dos meus olhos fechados há uma tela preenchida
 habita o teu rosto -

não é domingo -

josé ferreira 11 fevereiro 2013

1 comentário:

José Almeida da Silva disse...

Cheias de sensações, estas cartas-poemas! Tudo tão íntimo, tudo tão discreto! Não admira: "no redondo dos meus olhos fechados há uma tela preenchida / habita o teu rosto -".

Belíssimo!

Um abraço, e viva a Poesia!