quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

calam-se depois, observam-se bem



_Édouard Boubat_ A Gentle Eye_ Paris_ France_ 1970 

a cidade não é só de vidros, de tráficos e de ruídos
a cidade é feita de silêncios que trazemos dentro de nós
e de florescências por encontrar. observa bem:
naquela janela há uma renda de rendas, um desejo indefinido
um olhar. naquela janela há uma mulher. os seus olhos são doces.
as suas pestanas descem e sobem como persianas brancas
como gelosias venezianas, e os rios correm.
sem barreiras, braços crescem com pés no chão
e à volta há crianças, polícias, homens apressados, mulheres de salto alto
bicicletas, lambretas e carros que passam. mas não há nenhum olhar.
observa bem:  os braços crescem com os pés no chão.
as mãos chegam e estendem as palmas na transparência do vidro.
há uma visualidade imediata, as linhas conhecem-se
e há um X entre a vida e o coração, um xis de união
um xis e tantas linhas. observa bem:
as mãos ganham rosto, e o rosto da mulher na janela entra dentro das mãos.
as mãos descem e os pés caminham. o chão muda de posição.
observa bem: as palavras voam de lado para lado, perdem a individualidade
e o egoísmo de serem originais como pedras pesadas, desdobram o brilho.
observa bem:  já não há duas mãos e dois pés
há uma imagem duplicada, uma divisão de centralidades, uma cisão de células
a reinvenção, e ambas as mãos oscilam com  ambos os pés no chão.
observa bem: a cidade transforma-se num jardim, numa relva contínua
num paraíso comum.
no paraíso comum param depois da cidade que não pára e olham-se de frente.
os olhos doces estão luminosos como brasas acesas. os olhos dele também.
as linhas conhecem-se e encaixam-se, unidas em ambas as mãos.
enquanto ela fala, ele rouba-lhe as palavras e faz versos de cores diversas, explica bem:
“roubar-te  palavras dá-me chama, como se fosse uma libertação de magma
a ligação de um  mundo de duas metades, de terra e ar, de  sol  e água
como a génese de uma planta numa agricultura rápida.
roubar-te  palavras, faz-me crescer a alma”

calam-se depois. observam-se bem –

josé ferreira

1 comentário:

Anónimo disse...

Observei e gostei tanto, tanto.
Laura Ashley.