domingo, 27 de janeiro de 2013

escrevo-te (VII) - os silêncios chegam nos maiores ruídos


                          Man Ray

escrevo-te porque é a noite depois do dia
e há uma ausência no jardim escurecido.
uma ausência de átomos que saíram e largaram a linha
uma linha fechada que rodeava  o corpo
no aperto de um ar afastado e comprimido.
resta a camélia, órfã, da compostura de uma pintura
uma ordem lateral sem centro sem regras de ouro do renascimento.
é um lugar comum dizer que a perfeição não existe
e depois há milhões de cabeças, milhares de  milhares de jardins
de milenares árvores orientais onde se criam silêncios.
e os silêncios não escolhem horas nem luminosidades
chegam com olhos fechados e com batimentos, com cintilações etéreas
com o espanto das cores num quadro símbolo
com o insulto e com o elogio; os silêncios chegam mesmo no maior ruído –

escrevo-te com estes olhos ausentes do teu vestido e do teu brinco
da madrepérola luminosa e da pulseira  azul
do decote escondido e das botas pretas de couro
do joelho magoado na marca de terra e folhas, folhas e terra
terra e folhas junto ao limoeiro –

escrevo-te com estes olhos persistentes na busca dos oceanos
com estes olhos de cordas de guitarra e melodias
com estes olhos que negam os lugares comuns
que te seguram o rosto na envoltura dos cabelos
e falam da perfeição, uma perfeição que existe, que é sublime

quando as camélias afirmam –

josé ferreira 27 janeiro 2013

3 comentários:

Mar Arável disse...

Belíssimo

nesta desordem de cores nos jardins

Anabela Brasinha disse...

Olá José,

Como o sublime existe sem ruído!

Fica bem

José Almeida da Silva disse...

Muito belo este processo de escrita epistolográfica! No silêncio em que se inscrevem estas cartas tão poéticas a ausência é sempre habitada.

Gostei muito.