sábado, 19 de janeiro de 2013

escrevo-te (VI) - e talvez não seja poesia

                                     Erica Hopper


escrevo-te pela noite em pensamento
é possível inscrever os sentimentos olhando o escuro
e nada vendo
daquilo que faz parte do escuro à volta do mundo –

é possível fugir para um quarto de dentro
para um lugar sem vento
para  um lugar onde não chova tão intensamente –

são palavras simples, as minhas, bem sei
vestidas de um sentido de clareza
e talvez não seja poesia.
nascem sem a pressa do tempo
porque é noite e não durmo
nascem pelas raízes do cabelo e inscrevem-se de néon
no escuro do mundo
um escuro sem paralelo, substantivo e único,
porque cada um tem o seu escuro
da mesma forma que a luz pode ter muitas cores
claras e escuras –

sabes, escrevo-te, e é tudo
és o meu mundo, vejo perfeitamente o teu rosto
os teus olhos que se fecham e abrem, janelas de brilho
e estendo as minhas palmas maduras para que caiam pétalas
de sedas e púrpura, de aromas de lume
um lume brando
um lume sem ciúme
um lume instantâneo, puro
um lume, um lume, um lume

pela noite calma, sem escuro –

josé ferreira 19 janeiro 2013



1 comentário:

José Almeida da Silva disse...

Um belíssima carta! E com poesia, "sem escuro", "pela noite calma"!

Gostei muito, incomoda-me, no entanto, os intervalos de silêncio, faz falta lê-lo com mais regularidade, e não é um hábito...

Abraço solidário

José