segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

E não é que a Abelha Zarelha já dá entrevistas?...

A Abelha Zarelha deu uma entrevista ao Rodrigo Ferrão do Clube de Leitores e foi assim:


Entrevista a Raquel Patriarca, uma das autoras do livro infantil «A Abelha Zarelha»
 .
A Raquel foi cliente de uma livraria onde trabalhei. A Raquel é amiga de amigos e minha amiga também.

Outro dia descobri que tem um livro com a ilustradora Marta Jacinto. Chama-se «A Abelha Zarelha» e foi publicado no final de 2012 pela QuidNovi Editora.
Não resisti... Preparei umas perguntas e é com imenso prazer que hoje partilho! Espero que gostem!
.

.
RF: Talvez comece pela pergunta mais complicada (ou até a mais simples): como surgiu a ideia de escreveres um livro Infantil?

RP: A Abelha Zarelha, a Barata Patarata e todos os amigos nasceram com histórias de memória, que ia inventando e repetia para mim mesma e decorava, e depois contava ou cantava, vezes sem conta ao Pedro quando era um bebé que ainda nem falava. Ele reagia sobretudo aos sons, aos gestos, aos meus olhos muito abertos, às vozes diferentes que eu ia fazendo e ao vento que eu lhe soprava no cabelo a fazer os Vuuummmms. É por isso que as histórias são assim relativamente pequenas e vivem muito da brincadeira com as palavras e da alegria das personagens.

«Como as maçãs, os livros com bicho são os mais doces». O que são livros com bicho?

Livros com Bicho são os dez livros que compõem a colecção com esse nome. São dez histórias protagonizadas por pequenas bichezas bem dispostas como a Abelha Zarelha, A Barata Patarata, o Escaravelho Trolaró e por aí fora.

«A abelha Zarelha» é um livro para os mais pequeninos. Tens memória de alguém te ler histórias quando eras pequena? Alguma preferida?

As primeiras memórias que tenho de nos contarem histórias, a mim e às minhas irmãs, são da minha avó que nos contava episódios da Bíblia. Era engraçado porque nós não tínhamos (eu, pelo menos, não tinha) a noção de onde vinham aquelas aventuras. Para mim o David era um verdadeiro herói que derrotava o Golias porque tinha o coração puro e era inteligente, que acaba por estar muito perto do Frodo do Senhor dos Anéis. Eu, por exemplo, gostava particularmente da história de Sansão e Dalila, talvez por ser uma história de amor com perigo e traição que acaba em tragédia, tipo Romeu e Julieta.

Sempre tiveste vontade de escrever? Ou és uma leitora «viciada» que agora resolveu tentar a sua sorte? Vês-te a contar histórias para adultos?

Eu em criança tinha uma relação muito pouco próxima dos livros. Ler parecia-me um desperdício de tempo havendo muros para saltar, árvores para subir e grilos para apanhar e guardar em gaiolinhas de plástico. Agora parece-me um desperdício o tempo que não estou a ler e sinto-me angustiada quando penso que ainda não li todos os clássicos que queria. A escrita é uma coisa diferente. Escrevo há muito tempo mas nem sempre com a noção ou a intenção de partilhar ou publicar. Escrevo porque me sinto bem a escrever. Gosto e pronto. Não sei se estou a tentar a sorte, mas suponho que todos devemos a nós próprios a descoberta daquilo que somos capazes, de nos desafiarmos àquilo que achamos que a humanidade tem de melhor. A questão dos adultos é complicada porque não sei se consigo definir ‘adulto’ ou ‘histórias para adultos’. As histórias têm uma vontade própia e, às vezes, o que pensamos ser um conto para crianças mais pequenas, acaba noutro registo porque uma personagem de outra faixa etária acabou por tomar conta das coisas, ou porque algo acontece que muda completamente o ambiente de tudo. Não sei dizer o que vou escrever no futuro, mas não fecho nenhuma porta e nenhuma janela… há sempre muros para saltar e árvores para subir.

As ilustrações são uma parte importante dos livros. Sentes que a Marta Jacinto conta uma história através do que pinta?

Ó sim, a Marta reconta as histórias todas. Tudo fica diferente depois da Marta! Na Abelha Zarelha eu imaginei o som do zumbido como sendo gerado pelo bater das asas e a Marta apresenta a Abelha, logo numa das primeiras ilustrações, a assobiar o zumbido. Para mim foi uma releitura da história e uma redescoberta da personagem que já não era só minha. Uma das forças do texto é a alegria e a Marta consegue imprimir um registo visual muito leve e cómico que me agrada muito.

Dizes que «se fosses um animal serias um ornitorrinco». Alguma razão especial? 

O ornitorrinco é um animal estranho porque parece uma espécie de ursito e tem cauda de castor e um enorme bico de pato. É mal definido o que me parece uma boa metáfora. Nós também não somos uma coisa só. Eu sou historiadora pelo menos na perna esquerda e nos cotovelos. A Bibliotecária em mim deve ocupar parte do tronco. A cabeça e as pontas dos dedos brincam com as palavras e contam histórias. O resto não sei, ainda falta descobrir.
Nasceste em Angola. Tens alguma recordação de lá? Pensas um dia voltar a cruzar oceanos?

Não tenho qualquer memória consciente de Benguela ou de Angola. As memórias que guardo não são minhas, são dos meus pais e avós. Vim para Portugal com um ano e meio de idade, durante a ponte aérea que em 75 marcou parte da descolonização portuguesa de África. Tenho planos de cruzar muitos oceanos mas não sinto uma viagem a Angola como um regresso a casa. Esse sentimento de regresso tenho-o em relação a outros lugares e até em relação a pessoas, onde e com quem construí laços e raízes e cujas memórias fazem parte de mim.

Certamente tens algumas referências na literatura infantil. Quem são os teus ídolos? Gostas de ler um pouco de tudo ou és "especialista" nalgum género?

Quando eu era pequenina não havia a quantidade, variedade ou qualidade de livros infantis que há hoje. Éramos só raparigas e, claro, havia livros da Anita, mas havia também as colecções dos contos clássicos dos irmãos Grimm, de Perrault e de Anderson, os clássicos juvenis como o Tom Sawyer, a Alice no País das Maravilhas, a Ilha do Tesouro, as Vinte Mil Léguas Submarinas e as Viagens de Gulliver, e também algumas histórias tradicionais como a História do Macaco do Rabo Cortado que eu obrigava a minha irmã mais velha a contar-me vezes e vezes sem conta. Como consumidora ainda jovem, confesso que gostava especialmente dos contos clássicos. Tínhamos uma colectânea de mais de sessenta contos que eu adorava ouvir contar e ficava fascinada com palavras como Rumpelstiltzkin ou Jorinda e Joringel. Depois, o meu maior herói passou a ser o Manuel António Pina. Estou convencida que tudo isto começou verdadeiramente quando conheci o escaravelho Bocage no dia em que me ofereceram o livro Gigões e Anantes. Tinha seis anos e fiquei muito admirada quando, anos mais tarde, vim a descobrir que havia um poeta com nome de escaravelho. Já na escola preparatória tive uma professora que nos contava as histórias da Sophia de Mello Breyner e nunca mais a esqueci… à professora e à Sophia. Hoje sou uma consumidora compulsiva de livros infantis e penso que vivemos tempos muito interessantes para quem gosta de livros para crianças. Tanto faz que sejam portugueses ou estrangeiros, de todos os tipos e géneros, ilustrados ou não, com texto ou sem ele, mas confesso que gosto especialmente de poesia. Os autores de que mais gosto e que se transformam nas referências que uso, consciente ou inconscientemente, podem vir de todo o lado e não só da literatura infantil. Ainda assim, tenho as estantes bem forradas… Do Manuel António Pina, claro, entre mim e o meu Pedro, temos quase tudo, tal como da Sophia de Mello Breyner e do Aquilino Ribeiro. Encanta-me a forma de escrever de A. A. Milne e a beleza ideológica de Saint-Exupéry. Gosto dos monstros de Maurice Sendak e da irreverência de Peter Newell. Entre os autores mais recentes sigo de perto os livros de autores como o Valter Hugo Mãe, a Carla Maia de Almeida, a Rita Taborda Duarte ou o Afonso Cruz. Na poesia o manancial é interminável e vai de Fernando Pessoa a Mário Cesariny, passando pelos textos de Ana Luísa Amaral, Jorge de Sousa Braga, Nuno Higino, Álvaro de Magalhães, João Pedro Mésseder, Mário Henrique Leiria, Luísa Costa Gomes, António Torrado, Luísa Ducla Soares, Leo Leoni, Fran Alonso e de certeza que me estou a esquecer de muitos.

Numa frase: porque é que as pessoas devem comprar e ler o teu livro?

Não sei se devem comprar o meu livro, diz-me tu se devem ou não… direi apenas que, no fundo, é uma história sobre alegria e perseverança, que penso serem das ferramentas mais válidas que podemos dar a nós próprios e aos outros, independentemente da idade.
.

.
*A não perder brevemente: a entrevista à ilustradora deste mesmo livro, Marta Jacinto.
.

1 comentário:

josé ferreira disse...

Raquel

Muitos parabéns e obrigado pela partilha de uma divertida entrevista, e é claro que quem te conhece para além de ler as palavras, ouvia a voz, o brilho nos olhos e os sorrisos

Para quando o 2º infantil ou então de poesia?